Atravessar a semana da “virada” de janeiro para fevereiro exigirá atenção redobrada pelo peso dos eventos previstos e diversidade da agenda. Já indicadores econômicos pré-agendados, com divulgação rotineira em início de mês, tendem a ter sua importância relativizada nesta “cabeça” de semestre em que a política e a economia – longe das planilhas – disputarão terreno.

Ao mesmo tempo, bancos e empresas brasileiras replicarão o calendário internacional, dando início à divulgação de balanços do quarto trimestre e de 2025. A safra de resultados pode, inclusive, ser pretexto adicional a ampliar a valorização do Ibovespa já impulsionado por forte ingresso de capital em debandada de ativos norte-americanos e que está turbinando mercados emergentes. Entre 2 e 6 de fevereiro, os três maiores bancos privados do País – Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil – apresentam seus dados.

A retomada dos trabalhos no Congresso na segunda-feira, 2 de fevereiro, destacará ainda mais o “Caso Master” que não entrou em “recesso” como os parlamentares. Ao contrário, embalou manchetes da mídia especializada e tradicional, ultrapassando fronteiras, durante janeiro inteiro alimentadas pela fraude bilionária e pelo suposto envolvimento de políticos e autoridades do Judiciário com a instituição ou com Daniel Vorcaro, controlador do Master.

No exterior, para além das manifestações e decisões imprevisíveis de Donald Trump, os EUA podem entrar em “shutdown” na virada do mês, o que significa paralisação do governo por indefinição do Orçamento, caso o Congresso não aprove o projeto até a meia-noite de sexta, 30 de janeiro.

Ponto de discórdia é a verba destinada ao Departamento de Segurança Interna, responsável pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) que, dias atrás, levou à morte cidadãos norte-americanos e a um levante em Minneapolis. Trump tenta costurar um acordo com os democratas.

Na quinta-feira, 29 de janeiro, negociações prosseguiam, mas senadores democratas e um grupo pequeno de republicanos mais conservadores derrubaram um pacote com seis projetos que poderia evitar o “shutdown”. Em seguida, as negociações foram retomadas. Entretanto, ainda que o Senado aprove o Orçamento, uma curta paralisação pode ser inevitável porque a Câmara, que precisa chancelar a decisão, só deve retornar na primeira semana de fevereiro, informa a imprensa internacional.

Em outubro de 2025, por falta de consenso em torno do Orçamento, os EUA enfrentaram um apagão administrativo e estatístico por 43 dias. O “shutdown” mais longo da história do país desequilibrou ativos financeiros e minou indicadores de referência que impactam economias no mundo inteiro, enquanto o governo Trump anunciava demissões de servidores públicos em massa.

Agora, quatro meses depois, riscos geopolíticos persistem com o Irã sendo bola da vez e o ambiente econômico se ressente da retomada do flerte de Trump com tarifas comerciais. O foco é a Coreia do Sul, pela não promulgação de acordo firmado em 2025 que prevê vultosos investimentos coreanos nos EUA, e o Canadá sujeito à tarifação de 100% por sua aproximação com a China.

INSS, Master e Segurança na linha de frente

Por aqui, a volta do Congresso ao batente, a retomada da avaliação de pautas pendentes de 2025 e uma fileira de iniciativas que estão no gatilho prescrevem repercussões econômicas com apelo popular que podem ofuscar o destaque rotineiro atribuído às estatísticas econômicas que interessam ao mercado.

Afora a pressão para a retomada da CPMI do INSS e a eventual instalação da CPI do Master ou à possibilidade de o “Caso Master” ser incluído na investigação tocada pela CPI do Crime Organizado, o Congresso pode aprovar na segunda-feira, 2, a MP que ampliou o Gás do Povo a expirar no dia 11 e acelerar a regulamentação do projeto que trata do trabalho por aplicativo.

A relevante e também popular redução da jornada de trabalho ou fim da escala 6 x 1 está na prateleira das tarefas legislativas, onde a PEC da Segurança e o projeto Antifacção aguardam a vez. Em estudo na Fazenda e ainda sem data para aterrissar no Congresso está a proposta de gratuidade, em todo o território nacional, das passagens de ônibus, trem e metrô ao custo fiscal de R$ 90 bilhões ao ano – bandeira do presidente Lula na campanha pela reeleição.

De total interesse do sistema financeiro, a PEC que concede autonomia orçamentária ao BC está no Senado, também deve ter trâmite acelerado, e poderá abrigar um aval para que a instituição fiscalize fundos de investimento por sugestão do ministro Fernando Haddad na esteira do escândalo do Banco Master e sinal de fragilidade da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Considerando que o segundo semestre estará comprometido com a corrida eleitoral, comissões do Senado deverão azeitar a sabatina de Otto Lobo, indicado por Lula ao comando da CVM, enquanto aguardam a apresentação formal – também por Lula – de Jorge Messias, para vaga no Supremo Tribunal Federal. O presidente está “devendo” seus candidatos a duas diretorias do BC.

No calendário econômico convencional, a publicação da Ata do Copom na terça-feira, 3 de fevereiro, é evento relevante. Apesar da manutenção da Selic em 15% na reunião da quarta-feira, 28 de janeiro, o colegiado tomou a raríssima e positiva iniciativa de explicitar que o início do corte do juro começará em março.

A estabilidade da taxa era esperada, mas surpreendeu a transparência da comunicação – sem dúvida eficiente – para frear especulação de mercado em torno da política monetária e pressões do próprio governo por juro menor.

A Ata do Copom ganha relevância porque poderá reforçar a sinalização do ciclo de alívio monetário que parte dos agentes econômicos acredita começará com redução da Selic em 0,50 ponto percentual e outra parte espera corte de 0,25 ponto em 18 de março – essa a variação considerada mais adequada à “serenidade” na tomada de decisão apregoada pelo colegiado.

Na agenda internacional, o destaque dos próximos dias será a publicação da pesquisa do mercado de trabalho norte-americano na sexta-feira, 6 de fevereiro. A sondagem contempla o número de vagas formais criadas em janeiro, a taxa de desemprego e o ganho médio por hora trabalhada.

Uma coleção de dados relevante para decisões do Fed que também manteve o juro estável na quarta-feira. Ainda sobre juros, na quinta, 5 de fevereiro, o Banco Central Europeu (BCE), define sua taxa – e a principal deve permanecer em 2%.