Grandes bancos acertaram a mão ao prever desaceleração do PIB de alta de 3,4% em 2024 para 2,3% em 2025 e deverão acertar as projeções para este ano que, por ora, oscilam entre 1,5% e 2%. Banco do Brasil prevê 2%; Itaú, 1,9%; Bradesco e Santander, 1,5%. Confirmado esse enfraquecimento, a economia corre o risco de voltar ao patamar pós-Dilma Rousseff – período compreendido entre 2017 e 2019 em que o PIB avançou, em média, 1,44%.
O retrocesso poderá ser contido, porém, se o governo continuar bancando ou ampliar transferências de renda e se vingar o corte de juro acenado pelo Banco Central que, ao manter a Selic em 15% desde junho de 2025, impôs forte restrição financeira, mas obteve “dividendos”: a inflação corrente e as expectativas desaceleraram. A meta de 3%, entretanto, segue distante em todas as leituras. E ainda cobra um esforço da instituição.
Apesar da mudança de cenário, que agora abriga o conflito no Oriente Médio, a Focus indica início do ciclo de queda da Selic no Copom de 18 de março, em 0,50 ponto percentual, seguido de outros quatro cortes idênticos e mais dois de 0,25, somando 3 pontos ou Selic final a 12%.
Por cautela, o Copom poderá fazer um corte menor na taxa. E se o mercado alterou seu prognóstico, a Focus que sai na segunda-feira, 9, confirmará. Mas a redução da Selic ganha novo contorno em meio à guerra e impõe um dilema ao BC de Gabriel Galípolo – manter ou alterar o plano de voo? E por razão óbvia. A inflação. O mandato do BC é perseguir a meta.
Se o conflito puxar ainda mais a commodity ou estabilizar seu preço em nível elevado, a repercussão é certa. Após passar dias ao redor de US$ 82 o barril do tipo Brent em alta de 13% desde a eclosão da guerra, na sexta-feira, a commodity já superava US$ 87.
Se a pressão externa persistir, o Brasil não será exceção à pressão inflacionária global, ainda que bem-sucedido na exportação de petróleo eventualmente mais caro que também se converte em melhoria da balança comercial e em maior arrecadação. Contudo, o efeito na inflação doméstica ficará, na prática, à mercê da Petrobras que pode corrigir (ou não) a defasagem nos preços dos combustíveis ante a paridade internacional.
Dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) revelam que de segunda-feira, 2 de março, até a quinta, 5, as defasagens avançaram. O diesel que era cotado 23% abaixo da paridade passou a ser negociado a 47% a menos. E, a defasagem na gasolina, passou de 17% a 19%. A petroleira pode segurar o “manche”. Mas até quando sem prejudicar as ações?
Bruno Imaizumi, economista da 4Intelligence, observa que a Petrobras não toma decisões de um dia para outro. Inclusive, porque a empresa precisa expurgar a volatilidade de preços em mercado.
Ao NeoFeed ele recorda que, desde 2020, a Petrobras deixa o preço do diesel mais defasado do que o da gasolina. Essa opção pode persistir, diz o economista para quem, em ano de eleição, o reajuste do diesel entra numa delicada seara porque um aumento atingiria o transporte rodoviário, grupos de caminhoneiros e até a produção de alimentos – sensível ao custo do transporte.
Imaizumi vê como mais provável um ajuste da gasolina, mas não de imediato. Ele comenta que quando foi deflagrada a guerra Rússia x Ucrânia, depois de duas semanas, a Petrobras reajustou a gasolina em 19% e o diesel em 25%. “Mas o momento era outro. As cadeias globais estavam desalinhadas devido à pandemia. Desta vez, não há essa condição.”
Riscos do conflito: inflação e incerteza global
Quanto ao efeito de aumento dos combustíveis sobre a inflação, Imaizumi calcula que a elevação dos preços da gasolina, gás e diesel em 10% elevaria o IPCA em 0,2 ponto percentual em 2026 e em 0,6 ponto os preços no atacado. No caso de um conflito prolongado, porém, outros “preços” podem pesar.
Não é apenas o petróleo que pesa nos preços, lembra. “Os fertilizantes já estão no radar e, mais à frente, podem afetar preços de alimentos. Vemos também busca por ativos mais seguros para hedge e acompanhamos a desvalorização do real que já ronda R$ 5,30. E não era isso o que estava acontecendo nas últimas semanas. A depender da evolução do câmbio, outros preços podem ser afetados. A economia brasileira é super dolarizada”, observa o economista.
Inflação, agora monitorada com lupa, será um dos destaques da agenda econômica que encerrará a primeira quinzena de março. O IPCA de fevereiro sairá na quinta-feira, 12, e o IBGE publicará, ainda, vendas no varejo e serviços em janeiro, respectivamente, na quarta, 11, e sexta, 13.
Para o IPCA de fevereiro os economistas contam com pressão já antecipada pelo IPCA-15, que surpreendeu com alta de 0,84% no mês, ante 0,60% projetada. “A surpresa veio em passagens aéreas e seguro automotivo”, diz Imaizumi que prevê um IPCA mais salgado na variação mensal, 0,61%, e 3,72% em 12 meses.
Além da pressão inflacionária, a incerteza crescente é outra consequência nos mercados que resistiram bem às intervenções militares efetivas ou potenciais pelos EUA na Venezuela e Groenlândia, avalia a Ibiuna Investimentos sob o comando dos ex-BCs e sócios Mário Torós e Rodrigo Azevedo para quem o Irã dificulta ainda mais o desenho de cenários.
Na carta “Perspectivas para Março 2026”, a gestora destaca o contraste surpreendente, no primeiro bimestre, entre maior incerteza econômica e geopolítica versus forte performance de ativos de risco com baixa volatilidade. Um choque relevante do petróleo pode alterar esse quadro, reconhece a Ibiuna que espera, porém, impacto temporário no petróleo.
Mas os gestores alertam que o ambiente pode mudar com aumento da aversão global a risco. “Até agora”, lembram, “o Brasil tem sido um dos beneficiários do fluxo mais benigno de capitais, apesar de o País enfrentar eventos que ampliaram a incerteza: erosão da credibilidade do Judiciário, divisão da direita na campanha presidencial e deterioração fiscal”.