A desaceleração da atividade econômica e o exorbitante custo de financiamento da trilionária dívida pública brasileira que sobrecarrega as contas do governo conspiram a favor do corte de juro pelo Banco Central (BC) na quarta-feira, 28 de janeiro. Entretanto, a resistência das expectativas de inflação – abaixo do teto da meta, mas bem acima de 3% – pesa a favor da manutenção da Selic em 15% ao ano até março.
Combinadas, essas condições explicam opiniões divergentes entre economistas rumo à primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 2026, em meio a uma agenda local congestionada pela divulgação de relatórios de operações externas, crédito e política fiscal elaborados pelo BC, dados do mercado de trabalho monitorados pela PNAD e Caged e prévia da inflação de janeiro – o IPCA-15.
Na agenda econômica internacional, o foco estará na decisão do Federal Reserve (Fed) sobre sua taxa básica. Em reunião coincidente com o Copom na quarta, 28, o BC norte-americano deverá manter o juro no intervalo de 3,50% a 3,75%. A expansão do PIB dos EUA no terceiro trimestre, de 4,4%, anunciado na quinta-feira, 22, reduz, inclusive, a necessidade de redução do juro. Entretanto, lá e cá, os governos gostariam de uma tesourada no custo do dinheiro. Ação improvável nos dois casos. Os bancos centrais resistem.
Não há dúvida de que o juro brasileiro, 10% real, está fazendo efeito, abrindo caminho para a flexibilização monetária. Mas será a atividade apenas gradualmente mais frágil o suficiente para levar o BC de Gabriel Galípolo a iniciar o ciclo de corte da Selic? Afinal, o governo “joga contra” com expansão fiscal a sustentar a demanda por bens e serviços – setor que exibe inflação resistente e tem no avanço da renda do trabalho e de programas sociais poderoso suporte com reversão improvável neste ano eleitoral de 2026.
Em sua decisão e comunicado, na quarta-feira, o Copom terá a oportunidade (de novo) de marcar posição. Por ora, a opinião do mercado embutida na última Focus, de 19 de janeiro, continuou a mostrar estabilidade da Selic neste mês, sendo que a primeira redução, aponta a pesquisa, ocorrerá em março em 0,50 ponto percentual.
A 4intelligence lembra que o ajuste total da Selic, em 2026, continuou em 2,75 pontos percentuais. Entretanto, a mediana das projeções atualizadas nos últimos cinco dias aponta para um ajuste de 3 pontos – caso em que a Selic ao final de dezembro cairia a 12% e não mais a 12,25% se prevalecer essa estimativa de última hora.
No atual ciclo de alta da Selic, iniciado em setembro de 2024, a fatura de juros passou de R$ 819,7 bilhões em 12 meses para R$ 918,2 bilhões em novembro passado – último dado publicado pelo BC. Nesse período, o montante chegou ao máximo de R$ 987,2 bilhões ou 7,88% do PIB em outubro de 2025. Cifra equivalente a quase seis anos de pagamento do Bolsa Família, carro-chefe dos programas sociais do governo para os quais estão reservados R$ 158 bilhões no Orçamento deste ano.
Impacto direto e indireto da Selic na lua
Para descrever os efeitos da taxa básica estelar praticada pelo Brasil, o NeoFeed entrevistou Alexandre Seijas Andrade, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado e que compõe a rede de instituições fiscais independentes da OCDE.
Especialista em contas públicas, Andrade observa que a sustentação da Selic em patamar tão elevado e por tanto tempo tende a esfriar bastante a economia por inibir o consumo das famílias e aumentar a inadimplência em operações de crédito. Argumento que se aplica também aos investimentos produtivos.
“O empresário pensará duas vezes antes de tomar dinheiro emprestado para tocar projetos”, diz o economista que reforça o princípio de que o papel do aperto monetário é mesmo esfriar a atividade e promover a convergência da inflação à meta. “Em 2025 ainda vimos a economia em ritmo bem favorável no primeiro semestre. Mas, no segundo, o enfraquecimento foi explícito e assim deverá continuar em 2026.”
Não à toa, as projeções de crescimento para 2026 se mantêm abaixo de 2% e acabam de receber um aditivo. O Fundo Monetário Internacional reduziu a estimativa para a expansão do PIB brasileiro deste ano de 1,9% para 1,6%. Variação inferior à estampada nas edições recentes das pesquisas Focus e da Firmus – de projeções de indicadores coletadas junto às instituições e às empresas monitoradas pelo BC.
As duas sondagens – Focus semanal e Firmus trimestral – preveem crescimento de 1,8% neste ano. Um declínio ante cerca de 2,2% esperados para 2025 “quando a política fiscal estava em campo expansionista, embora menor que nos dois anos anteriores”, observa Andrade que alerta para o fato de a direção da política fiscal ser mais relevante que um número. “E a direção segue positiva, estimulativa”, informa.
Ele destaca que a Selic elevada, impacta a atividade e a política fiscal por ser a taxa da economia e, portanto, ter efeito direto e indireto sobre a dívida pública.
“O governo gasta mais do que arrecada e precisa emitir títulos para levantar recursos em mercado. Hoje, cerca de 50% do estoque da dívida pública corresponde a Letras Financeiras do Tesouro (LFT) remuneradas pela Selic. O restante é representado por títulos atrelados à inflação e prefixados. A Selic afeta as emissões e o estoque porque a LFT tem pagamento pós-fixado.”
O efeito indireto da Selic é sobre expectativas, diz Andrade. “O BC pode aumentar a Selic para levar a inflação à meta, por desequilíbrios fiscais ou até por desconfiança de agentes econômicos na capacidade de o governo ter disciplina fiscal. Resultado: a desconfiança afeta os juros de longo prazo que têm influência direta na precificação dos títulos do Tesouro. Relevante, portanto, é o BC coordenar as expectativas para evitar contaminação de juros mais longos que, se pressionados, agravam ainda mais dívida do governo.”