O primeiro trimestre caiu do calendário, mas não das planilhas dos economistas. Estatisticamente, a atividade entre janeiro e março está em construção. A tendência é positiva no embalo do mercado de trabalho ainda forte, apesar do desaquecimento apontado por índices de confiança que, por ora, levam um drible da agropecuária cujo desempenho deverá ser histórico. Resultado da safra recorde grãos.

Apesar do dinheiro caro, a política monetária não deverá ofuscar a atividade do primeiro trimestre que estará calcada no agronegócio – setor decisivo a preservar o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano e que exige um monitoramento particular. Para além de indicadores incorporados à rotina do mercado financeiro: inflação, juro e câmbio.

“O agro virá muito forte neste início de ano particularmente no primeiro trimestre. E a evolução do setor pode ser observada pelo levantamento da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, que vem apontando um aumento na safra de grãos na casa de 9%, ante o ano anterior, observa Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, que acrescenta o IBGE como referência de informação do setor que terá no “efeito soja” relevante contribuição para as Contas Nacionais.

A MB prevê expansão de 9% do setor agrícola no primeiro trimestre de 2025, classificado como o “ano das commodities” por Vale que estima crescimento da agropecuária, no ano, em 7,1%. “De longe, o segmento de melhor desempenho se comparado aos demais setores”, pondera o especialista para quem a economia brasileira deverá crescer 0,9% no primeiro trimestre, ante o anterior; 2,5% na relação interanual; e 1,8% no ano fechado.

O primeiro trimestre está “dado”, na gíria do mercado. E o “tarifaço” de Donald Trump, que impôs alíquota de 10% ao Brasil e não poupou nenhum país com quem o EUA têm relações comerciais, na prática levará a China a ampliar as compras de produtos agrícolas brasileiros. “Os EUA estão empurrando a gente ainda mais para a China nos próximos anos. Movimento que teve início em 2017 e será acelerado”, avalia o economista-chefe da MB.

Dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, elaborado pelo IBGE referentes a março, serão conhecidos na quinta-feira, 10 de abril. O material detalha, mensalmente, a produção e o rendimento médio por produto que compõe a safra brasileira de grãos. Em fevereiro, o monitoramento apontou 323,8 milhões de toneladas, 10,6% maior que a safra do ano passado.

Já o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre FGV) prevê avanço de 10% para o agro neste ano. Desempenho robusto que ajudará a levar o PIB nacional de 2025 a 1,7%, ante 2024. Para o primeiro trimestre, a expansão estimada para o PIB é de 1,5% na comparação com o anterior.

Para os demais trimestres do ano, o Boletim Macro do Ibre FGV prevê crescimento médio de 0,1% por trimestre, em função dos desafios que o País tem a enfrentar. Além da incerteza gerada pelo “tarifaço” de Trump, há a herança de 2024, diz o instituto, quando políticas fiscais expansionistas elevaram o risco, pressionando câmbio e inflação, impondo a reação do BC.

Por ora, os quatro maiores bancos do País projetam, para o ano, as seguintes taxas de crescimento: Banco do Brasil e Itaú, 2,2%; Bradesco, 1,9%; e Santander, 1,8%. Para 2026, todos preveem 1,5%.

Empresas veem economia forte fora do “agro”

A percepção de que a economia vai desacelerar é generalizada. Entretanto, não é esperada queda súbita da atividade. E tanto bancos quanto consultorias estão atentos à possibilidade de fortalecimento do consumo, em função – entre outras medidas – da continuidade de programas sociais e antecipação do 13º salário a aposentados e pensionistas.

O 13º do INSS será pago em duas parcelas (entre 24 de abril e 8 de maio e entre 26 de maio e 6 de junho), conforme decreto assinado pelo presidente Lula na quinta-feira, 3 de abril. Para se ter uma ideia da potência desse 13º, em 2024, semelhante antecipação injetou quase R$ 68 bilhões na economia.

Na agenda de indicadores dos próximos dias, caberá ao IBGE publicar três estatísticas cruciais: vendas no varejo e serviços em fevereiro e o IPCA de março, na sexta-feira, 11 de abril. Também na sexta, o BC divulgará o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) de fevereiro. Em janeiro, o indicador subiu surpreendentes 0,90%. O próximo dado será um tira-teima quanto à expectativa de que a economia começa a deslizar à exceção do agronegócio.

Mas não é apenas o mercado que vê desaceleração à frente, mas com cautela. Pesquisa Empresarial Bradesco – lançada em 2005 e que realiza consultas mensais com mais de três mil empresas de vários setores – indica crescimento ex-agropecuária ainda resiliente no encerramento do primeiro trimestre.

Myriã Bast, superintendente sênior do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, informou ao NeoFeed que alguns setores mais cíclicos, como construção civil, mostram uma desaceleração das vendas, de forma gradual. Serviços, varejo e indústria ainda seguem sustentados.

Norteada por questionário de aproximadamente 30 perguntas, um leque que viabiliza o monitoramento de dados diários atualizados sobre a atividade em todo o território nacional, a pesquisa mostra geração de vagas formalizadas próxima de 100 mil na média de três meses, “um nível elevado”, atesta Bast.

Ela explica que, por seu caráter coincidente, a Pesquisa Empresarial não diz muito sobre a evolução desses dados daqui para frente. “Entretanto, a enquete confirma um primeiro trimestre ainda forte, mesmo fora do agro”, acrescenta a superintendente do Bradesco, responsável pela sondagem que, há duas décadas, tem como principal objetivo antecipar os ciclos econômicos.

A economista informa que o Bradesco iniciou a pesquisa, em 2005, com o mapeamento da Indústria. Em 2009, ela foi ampliada para o Varejo. E, em 2011, a Construção Civil foi incorporada. As 30 questões aplicadas às empresas abordam expectativa de demanda, custos, intenção de repasse, percepção de margem, emprego, confiança e horas trabalhadas.