Escândalos e brigas por poder e dinheiro pontuam recentes produções audiovisuais que resgatam as trajetórias conturbadas de duas herdeiras de fortunas bilionárias. A francesa Liliane Bettencourt (1922-2017), que foi a principal acionista do grupo L’Oréal ao longo de seis décadas, inspirou o longa-metragem ficcional A Mulher Mais Rica do Mundo, com lançamento agendado para 2 de abril nos cinemas.
E no streaming, como o título já adianta, a série documental O Testamento: O Segredo de Anita Harley, disponível no catálogo do Globoplay, expõe as disputas judiciais pela herança da maior acionista individual das Casas Pernambucanas. Harley segue internada em um hospital paulistano desde que entrou em coma, após sofrer um AVC, em 2016.
Exibido no Festival de Cannes, A Mulher Mais Rica do Mundo resgata principalmente o período em que a empresária Liliane Bettencourt, que herdou a L’Oréal do pai, Eugène Schueller (1881-1957), foi alvo de escândalos na França.
O roteiro cobre de 2007 a 2015, quando Bettencourt se tornou notícia, mas não necessariamente por suas habilidades no mundo dos negócios. O que a mídia (francesa e mundial) mais divulgou naqueles anos foram as brigas de família e as disputas judiciais envolvendo Bettencourt.
Até a sua morte, aos 94 anos, ela foi a mulher mais rica do planeta, com patrimônio estimado em mais de US$ 40 bilhões.
Um dos processos partiu da própria filha da empresária, Françoise Bettencourt-Meyers, que hoje ocupa a posição de segunda mulher mais rica, com fortuna de cerca de US$ 100 bilhões. No ranking, ela figura atrás de Alice Walton, herdeira do Walmart, com US$ 134 bilhões.
Na época, Bettencourt-Meyers, para não perder parte do patrimônio familiar, acusou o fotógrafo de celebridades François-Marie Banier de manipular a mãe, que já sofria de demência. Por receber doações e presentes, incluindo obras de arte de Picasso, Matisse e Man Ray, avaliadas em mais de € 1 bilhão, ele foi condenado por extorsão, em 2015.
Bettencourt foi envolvida também em escândalos políticos que afetaram a imagem até de figuras presidenciais, como Nicolas Sarkozy. Eric Woerth, que foi o tesoureiro de sua campanha, acabou acusado de receber doação ilegal de Bettencourt, em 2007.

Para não criar problemas com a multinacional, no entanto, os nomes foram trocados em A Mulher Mais Rica do Mundo. No longa-metragem com direção de Thierry Klifa, a L’Oréal é chamada de Windler, enquanto Liliane Bettencourt, interpretada pela atriz Isabelle Huppert, foi rebatizada de Marianne Farrère.
Mas as circunstâncias são as mesmas, deixando claro onde o roteiro buscou inspiração. “Quando tudo veio à tona, eu me interessei pela história de Bettencourt por sua dimensão shakespeariana, por envolver família, legado e política”, disse Klifa, ao NeoFeed, em Cannes.
“Em um dado momento, no entanto, tive de me afastar dos fatos e partir para a ficção, principalmente na hora de retratar a intimidade da família. Até porque nenhuma câmera jamais esteve presente para registrar como realmente tudo aconteceu”, completou ele.
As brigas pelo patrimônio da dona das Pernambucanas
Diferentemente de A Mulher Mais Rica do Mundo, que recupera o passado de Liliane Bettencourt no universo da ficção, a série O Testamento: O Segredo de Anita Harley se aproveita do fato de sua protagonista ser alvo de disputas em andamento na Justiça.
Como a sua história ainda não acabou, rendendo desdobramentos e reviravoltas na mídia, o gênero escolhido foi o documentário. Foi o formato que melhor permitiu o resgate das notícias mais relevantes veiculadas sobre Harley até hoje, além de trazer depoimentos inéditos de pessoas-chave na vida da empresária nascida em Recife.
A herdeira das Casas Pernambucanas, a rede varejista que completa 118 anos de fundação em setembro, é alvo de muitas disputas judiciais há quase dez anos. Graças ao seu patrimônio, estimado em R$ 2 bilhões, sua história é povoada por personagens que brigam para assumir os postos de herdeiros ou mesmo de esposa da empresária.
Dividida em cinco episódios, a série com direção de Camila Appel aborda os bastidores, dando voz a todos os que reivindicam o controle, tanto sobre a saúde quanto sobre os bens de Harley. Como a empresária se encontra em leito do hospital Sírio Libanês desde que sofreu o AVC, o seu testamento não foi apresentado ainda — há até dúvidas sobre a sua existência —, o que abre espaço para mais desavenças.

São três as figuras centrais no conflito. Cristine Rodrigues, uma antiga secretária da família e braço direito de Harley nos negócios, foi indicada pela empresária em um testamento vital, assinado em 1999. De acordo com o documento, que foi desconsiderado pela justiça, ela deveria ser a responsável pela saúde, bem-estar e pelas decisões médicas a serem tomadas em eventual incapacidade de Harley.
Por outro lado, a funcionária Sônia Soares, chamada de Suzuki, reivindicou ter uma união estável com Harley, que é solteira, sem filhos e conhecida por uma vida reclusa. Como as duas moraram juntas, inicialmente no hotel Ca’d’Oro e, na sequência, em mansão de 96 cômodos no bairro da Aclimação, Suzuki entrou com ação para ter a união estável reconhecida.
Inicialmente, Suzuki obteve um parecer favorável, mas o pedido foi julgado improcedente. Embora tenha assumido uma relação íntima só mais tarde, depois de Suzuki, Cristine Rodrigues também alegou ter sido companheira da empresária. A luta das duas pelo posto de cônjuge continua em andamento na justiça.
O terceiro personagem mais importante no imbróglio é o filho de Suzuki com o editor de vídeos Vicente Miceli, Arthur Miceli, reconhecido judicialmente como o filho socioafetivo de Harley. Mas ter o filho como potencial herdeiro aparentemente não favorece Suzuki, que cortou relações com Arthur, acusando-o de “traidor”.
O que mais salta aos olhos ao longo do documentário são as diferentes versões para cada questão levantada. Praticamente tudo apresentado é contestado por terceiros, seja pelo “outro lado” da história ou por amigos e familiares de Harley. E enquanto isso, à revelia da empresária, a sua intimidade é escancarada, por mais que a herdeira tenha ficado conhecida como a “dama discreta do varejo”.