No Brasil, 55% da população afirma entender pouco – ou nada – de economia e educação financeira, segundo estudo do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE). Ao mesmo tempo, em um mundo quase paralelo, um grupo de jovens brasileiros se consagrou, neste ano, o ganhador global da Olimpíada Internacional de Economia (IEO), à frente de 54 outros países.
O feito pode parecer isolado, mas não é. Esta é a quinta vez que o País leva medalha de ouro na competição, graças a um projeto em específico, a Olimpíada Brasileira de Economia (Obecon). Criada há oito anos, a organização sem fins lucrativos já impactou mais de 70 mil alunos, sendo 35% de escolas públicas e 65% de instituições particulares, em todos os estados do Brasil.
“O nosso objetivo é gerar impacto social e educação financeira para a sociedade, além de ajudar a formar grandes talentos e mantê-los no Brasil”, diz Raphael Zimmermann, presidente da Obecon e idealizador do projeto, ao NeoFeed.
Para atingir essa meta, a competição se divide em cinco fases, que vão desde conhecimentos gerais, em uma prova online e gratuita, passando por uma avaliação presencial em grupo, que seleciona os 15 melhores desempenhos. Esses alunos passam por cinco meses de treinamentos e provas para que, no fim, sejam selecionados os cinco destaques, que irão representar o Brasil na competição mundial.
Para os alunos olímpicos, como são chamados os selecionados para o evento internacional, a Obecon vai além do campeonato e se transforma em um facilitador para outros projetos. Isso porque, ao longo dos anos, o grupo construiu parcerias com universidades como FGV, Insper e Ibmec, para a aprovação de alunos por meio de olimpíadas, algo inédito no Brasil.
Além disso, pela alta exigência de conhecimento da olimpíada, a participação se tornou uma chancela também para universidades internacionais de renome, como a Universidade Duke, na Carolina do Norte, e a Wharton School, da Universidade da Pensilvânia.
Oportunidades na carreira
Esses foram os casos de Lucas Rivelli e Manuela Buesa. Rivelli conta que estudava em uma das piores escolas de sua cidade, Varginha, em Minas Gerais, onde tinha acesso quase nulo a oportunidades acadêmicas. Com a descoberta da Obecon, a partir de pesquisas online, ele viu uma oportunidade de acessar lugares até então improváveis.
“O Obecon me chamou atenção por ser um processo genuinamente meritocrático: bastava estudar muito e me dedicar para ir bem”, diz Rivelli.
Em sua primeira participação, em 2023, ele foi selecionado para a IEO e fez parte do time ganhador da medalha de ouro. “Foi um ponto de virada na minha vida. A competição me expôs a um novo mundo: mudei de escola, conheci pessoas extraordinárias, desde outros estudantes até lideranças como o Roberto Campos Neto (ex-presidente do Banco Central) e o Roberto Sallouti (CEO do BTG Pactual), e passei a enxergar possibilidades que eu nem sabia que existiam”, afirma.
Ele avalia a olimpíada como o principal fator para a sua aprovação na Duke. “A olimpíada não só transformou minha trajetória acadêmica como também ampliou minha visão de futuro”, complementa.
A paulista Manuela Buesa passou por situação semelhante. Ela foi a segunda mulher na história a representar o Brasil em uma olimpíada científica mundial, conquistando bronze em 2023 e ouro em 2024.
Com a competição, a jovem conseguiu um estágio de inverno na Dahlia Capital, gestora fundada por Sara Delfim, Felipe Hirai, José Rocha, Felipe Leal e Alessandro Arlant. Sara acabou se tornando uma mentora e exemplo a ser seguido para Buesa.
“Essa experiência na Obecon foi tão importante para a minha jornada educacional que motivou que eu fizesse, depois, uma pesquisa independente, acompanhada por uma PhD de Harvard. A pesquisa foi sobre o impacto do Pix na acessibilidade de crédito para brasileiros de baixa renda, publicada recentemente na Harvard International Review”, diz a jovem.
Atualmente, ela está cursando economia em Wharton e continua incentivando a Obecon, que hoje conta com 52% de mulheres participantes.
Empresas bancam projeto
Na visão do presidente da Obecon, nada seria possível sem o apoio de instituições privadas patrocinadoras. A lista conta com nomes como B3, BTG Pactual, Verde Asset, Ripple, Dahlia Capital e Bain & Company.
Além do financiamento, essas companhias têm participação ativa nas provas presenciais e, algumas delas, chegam a contratar os destaques da competição para oportunidades de trabalho.
No caso da B3, o apoio vem como uma oportunidade de ajudar a capacitar futuras gerações de profissionais. “Os resultados da competição, especialmente nas olimpíadas internacionais, inspiram os estudantes a se dedicarem e a sonharem grande”, diz Marina Naime, gerente de projetos educacionais da B3.
Apesar do suporte, o financiamento ainda é o maior problema da Obecon. Segundo Zimmermann, há um aumento no número de interessados na olimpíada, mas a organização sempre passa por questões de caixa, terminando o ano no zero a zero. “Esse é, sem dúvida, o nosso maior desafio. E ele não deve ser solucionado tão em breve”, diz.
Para ele, o impacto da Obecon é gigante, não só no Brasil, mas também fora, o que torna o negócio cada vez mais eficiente: “No fim do dia, nós estamos mostrando que conseguimos jogar bola no mesmo nível que o resto do mundo, apesar de não ter a mesma tradição de ensino de economia que países como os Estados Unidos e China têm".