Seja na vida pessoal, seja na profissional, todos nós atravessamos momentos de dificuldade — alguns mais, outros menos, ninguém passa ileso. Mas, independentemente dos desafios, alguém já enfrentou impasses semelhantes e pode ensinar como superar as adversidades. É o que propõe o investidor-anjo, podcaster e escritor best-seller Tim Ferriss no livro Tribo de Mentores — Conselhos de vida dos melhores do mundo, recém-lançado no Brasil.
Ele convidou 100 personalidades — nomes de destaque em suas áreas de atuação — para falar sobre fracasso, sucesso, propósito, mudança de vida e práticas de bem-estar. O resultado é um manual divertido e inspirador, repleto de boas histórias de quem enfrentou obstáculos espinhosos.
As entrevistas seguem o formato pingue-pongue, ou seja, pergunta e resposta, com cada uma precedida por um breve perfil do convidado. E reúnem sugestões práticas capazes de oferecer novas perspectivas e apontar caminhos possíveis a quem deseja alcançar melhores resultados, superar entraves ou dar uma guinada na própria trajetória.
Ferriss conhece o assunto como poucos. Aos 48 anos, é um fenômeno em conselhos sobre desenvolvimento pessoal e alta performance.
Seu primeiro livro, Trabalhe 4 horas por semana, lançado em 2007, ficou por anos nas listas dos mais vendidos dos jornais The New York Times e The Wall Street Journal. É de sua autoria também 4 horas para o Corpo e Ferramentas dos Titãs que, embora não tenham repetido o estrondo do primeiro, foram muito bem-sucedidos.
O podcast The Tim Ferriss Show, desde 2014, soma mais de 1 bilhão de downloads. Como investidor-anjo, em que também se revelou um ás, tendo apostado em empresas como Facebook (atual Meta), Uber, Alibaba, Shopify, Duolingo e Evernote, quando elas ainda estavam em estágio inicial.
Agora, em Tribo de Mentores, ele dá voz a figuras como o investidor Ray Dalio, a ex-tenista Maria Sharapova, o cineasta David Lynch (1946-2025), o apresentador e ator Jimmy Fallon, a ex-jogadora profissional de pôquer Annie Duke, o curador do TED Chris Anderson e o cofundador do Facebook Dustin Moskovitz, entre outros.
Tido como o guru de Wall Street, Dalio retoma de forma objetiva os princípios que fizeram do Bridgewater Associates o maior hedge fund do mundo: ambientes de trabalho onde predominam a transparência radical e o feedback honesto. Doe a quem doer, encarar os fatos como eles são (e não como gostaríamos que fossem) permite corrigir erros mais rápido e acelerar o aprendizado.
Na entrevista a Ferris, o investidor indica os três livros que mais recomenda: Tao Te Ching, um dos textos mais antigos da filosofia chinesa atribuído a Lao-Tsé; A Revolta de Atlas, romance de 1957 que mistura ficção e filosofia escrito pela russo-americana Ayn Rand; e Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, do israelense Yuval Noah Harari, sumidade na análise de como as ideias, a tecnologia e o poder moldam as sociedades contemporâneas.
O ator Terry Crews, por sua vez, conta a Ferris como um arremesso mal feito em jogo decisivo de basquete no ensino médio — pelo qual foi duramente criticado — se transformou em ensinamento. O fracasso em quadra lhe ensinou a assumir riscos e responsabilidades. É sempre preferível falar por conta própria do que deixar sua vida nas mãos de outros, defende o astro da comédia As branquelas e do seriado Todo mundo odeia o Chris.
Para o investidor-anjo indiano-americano e filósofo Naval Ravikant, mais importante do que jogar bem é escolher qual jogo vale a pena jogar. E treinar a mente para ficar em silêncio, indica ele, melhora drasticamente a capacidade de tomar decisões.
O ator de cinema e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger recomenda que se defina um objetivo grande e trabalhe persistentemente para ele: “Sem visão clara, o esforço não leva longe”. Já para a escritora Arianna Huffington, sucesso sustentável depende de sono, saúde e equilíbrio — não apenas de trabalho intenso. Jimmy Fallon acredita que entusiasmo e humor tornam o trabalho mais prazeroso e estimulam a criatividade.
Alguns depoimentos chamam atenção justamente por serem inusitados ou contraintuitivos. O futurista e escritor Kevin Kelly apresenta uma “lista anti-objetivos” de prioridades: em vez de focar apenas no que deseja alcançar, “liste também o que você nunca quer que aconteça em sua vida; isso ajuda a tomar decisões mais claras”.
Investidor de risco e empreendedor, Chris Sacca defende que o êxito muitas vezes depende mais de recusar oportunidades do que de aceitá-las. E a escritora Maria Popova propõe que se organize uma “biblioteca de ideias”: anotar frases e conceitos marcantes de leituras para criar conexões entre áreas diferentes do conhecimento.
O humorista e diretor de cinema Ben Stiller afirma que, na área criativa, testar ideias rapidamente e descartar as ruins acelera o caminho até algo realmente bom. Treinar o desconforto, por outro lado, é a dica de Amelia Boone. A atleta de corridas de obstáculos recomenda fazer coisas difíceis para aumentar a resiliência mental.
A ideia para o livro surgiu em 2017. Ao completar 40 anos, Ferriss relembrou dificuldades do passado e refletiu sobre sua trajetória. Diante dessas experiências, passou a questionar seus objetivos, prioridades e propósito de vida, buscando entender se seus desejos eram realmente próprios ou apenas influenciados por expectativas sociais.
Em meio a dúvidas pessoais, o autor tentou respondê-las com perguntas anotadas em seu diário. Mas sentiu que precisava de mais. Percebeu que poderia simplificar problemas se pedisse conselhos a pessoas experientes com base em 11 perguntas. Assim ele criou a “tribo de mentores”.
Mas qual é a sugestão dele? Ferris recomenda que se façam perguntas melhores. Muitas decisões, diz, melhoram simplesmente ao se reformular a pergunta. Um exemplo? “Como isso seria se fosse fácil?”