Quando criança, talvez a nossa primeira curiosidade seja olhar para o alto e perguntar o que existe acima das nuvens. Alguém, então, responde que é o céu. Depois, algumas religiões ensinam que o céu é um lugar sagrado para onde vão os bons e os justos. A professora aprofunda o tema e diz que lá existem outros planetas, as estrelas e o Sol. O poeta arremata: as estrelas que vemos à noite somos nós que passamos a brilhar depois de mortos.
A ciência, por sua vez, costuma responder, a grosso modo, que quase nada sabemos sobre o que tem além das nuvens — na verdade, da estratosfera. Em uma Terra saturada de abusos ambientais e onde quase nada mais resta a ser conhecido, sobra aos cientistas e físicos se voltarem para o que existe no chamado espaço sideral para manter vivo o interesse humano por novas conquistas. E, quando o fazem, buscam também um sentido maior para a vida neste planeta.
O professor Neil deGrasse Tyson e a jornalista Lindsey Nyx Walker, especializados em cosmologia, encontraram uma forma de tornar o tema ainda mais encantador e acessível, com o livro Ao infinito e além — Uma jornada de descobertas cósmicas, que sai agora no Brasil pela Record.
É uma daquelas obras candidatas a best-sellers que esclarecem os segredos das ciências, um segmento editorial que tem crescido bastante nas últimas décadas e colocado muitos títulos entre os mais vendidos.
Tyson é astrofísico e diretor do Planetário Hayden, no Centro Rose para a Terra e o Espaço do Museu de História Natural de Nova York. Autor de mais de uma dezena de livros e apresentador do aclamado podcast StarTalk, da National Geographic, indicado quatro vezes ao Emmy, e da série documental televisiva Cosmos, vencedora do Emmy, ele recebeu 21 doutorados honorários, bem como a Medalha de Distinção em Serviço Público da NASA. Walker é a produtora sênior e roteirista-chefe do mesmo StarTalk.
Como eles explicam, ainda não sabemos de praticamente nada do que existe lá fora, uma vez que não passamos fisicamente da Lua e há enormes limitações tecnológicas para irmos mais longe.
A não ser o que se pode perceber por meio de telescópios gigantes, sondas espaciais e cálculos de física e matemática.
A conclusão é de que o universo observável tem cerca de 13,8 bilhões de anos e aproximadamente 93 bilhões de anos-luz de diâmetro. Estima-se que existam entre 100 bilhões e 2 trilhões de galáxias, cada uma com centenas de bilhões de estrelas.
É algo tão impressionante que apenas a nossa Via Láctea pode abrigar entre 100 bilhões e 400 bilhões de estrelas. Observações do telescópio Kepler indicam que há ao menos um planeta por estrela. Ou seja, seriam centenas de bilhões de planetas só na galáxia onde vivemos.
Até hoje, mais de 5 mil exoplanetas já foram confirmados e isso é quase nada. Em termos de composição, o cosmos é formado por cerca de 5% de matéria comum, 27% de matéria escura e 68% de energia escura, segundo dados da NASA e da Agência Espacial Europeia (ESA).
Mas, o que se esconde por trás de tudo isso? Estamos “próximos” de descobrir planetas-irmãos até mesmo em nossa galáxia? E quando isso acontecerá?
No início da obra, Tyson e Walker buscam responder sobre o que existe além da Terra, com explicações míticas até a ciência moderna. Eles destacam como as civilizações antigas olhavam para o céu e criavam histórias sobre estrelas e cometas e como a invenção da telescopia e dos métodos científicos revolucionou essa visão.
Por isso, a busca pelo cosmos é uma constante do homem e a ciência substituiu, gradualmente, as explicações mitológicas por evidências observacionais concretas.
Para os autores, a exploração do espaço com foguetes e sondas começou com o desafio básico de escapar da gravidade terrestre: desde os primeiros experimentos com balões até reis da aerodinâmica, para chegar aos foguetes que carregavam sondas e humanos para além da atmosfera.
A história das sondas Voyager, por exemplo, lançadas na década de 1970 e que atualmente ultrapassam os limites do Sistema Solar, é usada para ilustrar o avanço tecnológico e científico e como esses equipamentos representam as esperanças e sonhos da Terra rumo às estrelas.
Uma parte significativa do livro faz uma “visita guiada” pelo Sistema Solar. Começa pela própria estrela central: o Sol. Os autores explicam a natureza do vento solar, a extensão da influência solar e como são os planetas interiores, como Mercúrio, um lugar difícil de explorar por causa de sua órbita rápida, e Vênus, com atmosfera tóxica e efeito estufa extremo.
Tudo isso foi revelado por sondas, cálculos e observações. “Essa história ajuda a mostrar que cada planeta tem um caráter único e ensina como a ciência confrontou e corrigiu ideias antigas sobre o cosmos”, afirmam.
Menos árido e mais divertido é quando os autores exploram como filmes de Hollywood retratam o espaço, com acertos ou erros, e usam isso para ensinar a física real. Tyson, com seu humor característico, comenta cenas de filmes como Gravidade (2013) e Interestelar (2014), clássicos contemporâneos da ficção científica, para separar o que é “sci” de “fi”.
Ele usa essas referências culturais para explicar conceitos como buracos negros, a distorção do tempo e do espaço e como a ciência atual encara essas entidades cósmicas e torna a complexidade acessível, mesmo para quem não tem formação científica.
Tyson e Walker apresentam também as fronteiras mais “selvagens” da astrofísica, como são chamados os universos paralelos, a estrutura em grande escala do cosmos, buracos negros supermassivos, a natureza do espaço vazio e os limites do que a tecnologia atual pode observar.
Eles enfatizam que, embora tenhamos descoberto muito, a maior parte do universo ainda é um território desconhecido, com teorias que continuam desafiando a compreensão humana. Até quando? Viveremos para ter alguma resposta?