Nos últimos dois anos, a indústria de fundos brasileira tem passado por uma das transformações regulatórias mais significativas de sua história. Os gestores de fundos correram para cumprir o prazo da CVM 175, uma revisão de processos que modernizou nosso arcabouço regulatório e garantiu maior alinhamento com os principais mercados internacionais.

As mudanças criaram um ecossistema mais conectado e transparente, e com mais de 80% das empresas operando em conformidade com a CVM 175, estamos entrando em uma nova era, definida pela velocidade e agilidade das operações.

Esse ritmo coincidiu — e provavelmente também contribuiu — com uma erosão global da tradicional abordagem de buy and hold, à medida que os investidores respondem a ciclos de juros, volatilidade macroeconômica e eventos globais. Em 2016, o período médio de holding de um fundo de ações era de sete anos. Em 2024, caiu para apenas quatro anos, uma redução de 40%.

A tendência é especialmente pronunciada entre fundos globais de ações e títulos, que tiveram seu período médio de detenção reduzido pela metade. O resultado é um aumento nos volumes globais de negociação. Na rede da Calastone, observamos um crescimento de 80% entre 2018 e 2024. É uma tendência que está cada vez mais acentuada no Brasil, e os fundos precisam agir para facilitar essa nova abordagem.

Há um custo associado a essa mudança de comportamento. Quando os investidores mantinham um fundo por sete anos, os custos operacionais eram distribuídos ao longo de um período maior. Quando esse mesmo investidor realoca seus ativos com mais frequência — a cada quatro anos, todo ano ou até várias vezes ao longo de um ano — esses custos operacionais se multiplicam.

Processos manuais como troca de e-mails, planilhas, ordens redigitadas e ciclos em lote não escalam com volume.

Se o back office de um fundo intervém manualmente em cada operação, um aumento de 80% no volume de operações não corresponde a um aumento proporcional de 80% na carga operacional. Além disso, ineficiências e possibilidades de atrasos, inconsistências ou erros se multiplicam. A ineficiência de processos manuais é fixa, mas seu impacto é exponencial.

E, como a CVM 175 exige que as taxas sejam detalhadas e divulgadas, não é mais possível camuflar a ineficiência das operações de gestão de fundos em modelos de cobrança pouco transparentes. Com a chegada da CVM 175, investidores conseguem ver exatamente pelo que estão pagando, e a ineficiência operacional se torna um problema para os gestores, corroendo as margens e freando o crescimento do fundo.

Investidores digitais, infraestrutura tradicional

É aí que o investidor brasileiro moderno entra em conflito com a infraestrutura antiquada. Apesar de termos observado progresso ao longo dos últimos anos, a dependência de processos manuais continua enraizada no setor. Qualquer pessoa que já trabalhou ou trabalha na indústria de fundos brasileira sabe o quão comum é ainda ver operações chegando por e-mail ou digitadas manualmente em portais.

As transações feitas por e-mail são propensas a erros e exigem o upload manual de planilhas, comprometendo o processamento direto (STP). Esses sistemas em batch podem levar a horas de arrasto, o que, para um investidor acostumado a liquidação em tempo real em suas operações financeiras diárias, é inaceitável.

Embora a CVM 175 tenha modernizado o arcabouço regulatório, a verdadeira transformação depende da atualização do modelo operacional.

Já enxergamos em outros mercados os benefícios para fundos que adotaram o processamento direto desde cedo. No Reino Unido, cerca de 95% do roteamento de ordens a fundos é automatizado, uma mudança que trouxe eficiências significativas. A infraestrutura desses fundos absorve, de forma fluida, os picos de ordens gerados por volatilidade no mercado: os custos permanecem estáveis, os erros operacionais permanecem baixos e as operações escalam sem pressão.

Para o Brasil, a automação de processos vai além da economia de custos: ela permite que os fundos desbloqueiem todos os benefícios da CVM 175. As novas regras possibilitam investimentos transfronteiriços tanto para clientes de varejo quanto institucionais. Esses fluxos, no entanto, são mais complexos e a gestão manual carrega riscos operacionais e financeiros.

Ao automatizar o ciclo de vida da negociação, composto pelo roteamento de ordens, execução, liquidação, reconciliação e relatórios, as instituições financeiras conseguem proteger margens, reduzir erros manuais e, de forma crucial, entregar a velocidade e transparência que os investidores digitais passaram a esperar.

O próximo salto

A CVM 175 proporcionou ao Brasil o arcabouço regulatório necessário para competir com os principais mercados globais de fundos. No entanto, a regulação, por si só, não garante competitividade. À medida que os investidores passam a negociar com maior frequência, o arrasto operacional gerado pelo processamento manual tende a se tornar o principal fator limitante da capacidade de crescimento de um fundo.

A próxima fronteira é o que chamamos de "alfa operacional": o valor gerado pela adoção de processos e procedimentos mais eficientes. Gestores que adotam a automação e operam no ritmo do mercado moderno conseguem reduzir custos e oferecer uma experiência melhor ao investidor, superando aqueles que ainda dependem de uma infraestrutura manual e ultrapassada.

A indústria brasileira de fundos já fez o trabalho mais difícil ao promover a transformação regulatória. Agora, há oportunidade de construir uma infraestrutura à altura da ambição e do ritmo dos investidores que ela atende.

Nelson Eduardo Pinto Pereira é head da Calastone para o Brasil