Recentemente, uma reportagem relatando uma disputa interna em uma companhia impulsionada por venture capital cita o fundador sugerindo que fez milagres ao levantar dinheiro dos "bobos" de VC. O lamentável comentário explora a maior virtude da indústria e sua maior fragilidade: a confiança como bússola.

A confiança no improvável permite investimentos em uma empresa de foguetes cuja ambição era colonizar Marte e que hoje está redefinindo as telecomunicações, ou em um laboratório que buscava desenvolver inteligência computacional acima da humana - algo que parece tão corriqueiro atualmente.

Talvez valha a reflexão sobre o conceito principal do venture capital: quando uma oportunidade parece óbvia, ela parece óbvia para muitos, E a chance de grandes retornos é substituída pelo medo de ficar fora, um sentimento perigoso. Por isso, chegar cedo e acreditar no que parece improvável são essenciais.

A execução do que parece improvável gera resultados que parecem impossíveis. Quem diria, há dez anos, que o Nubank, uma startup de cartões de crédito, iria brigar de igual para igual com gigantes do setor bancário brasileiro, como o Itaú, ou que o Mercado Livre seria uma das companhias mais valiosas da região enquanto o GPA luta pela sobrevivência? Loucos, ou bobos, fizeram essas apostas, que valorizaram mais de 30 vezes no período.

Nos Estados Unidos, as estatísticas falam por si. De acordo com um estudo do professor Ilyia Strebulaev, de Stanford, atualizado pela Volpe Capital, mais de 80% do valor de mercado da bolsa vem de empresas impulsionadas por VC; 90% do valor das patentes, idem; e assim como cerca de 70% dos impostos pagos por empresas listadas.

Em Israel, o programa Yozma de impulsão da indústria de VC, lançado pelo governo em 1993, catalisou o ecossistema. Hoje, tech representa 20% do PIB, elevando o país de uma posição mediana nos anos 1990 para um dos líderes globais em PIB per capita.

No Brasil, temos a sorte de uma indústria de venture capital bem formada, com profissionais excelentes. Como em grandes famílias, grandes portfólios trazem felicidades e desafios. Esse episódio não é o primeiro nem o último.

Os pioneiros nessa indústria trouxeram visibilidade para o país e investimentos em soluções para grandes problemas locais: da inclusão financeira às possibilidades de emprego na gig economy - que virou a maior fonte de empregos - e à forte expansão do empreendedorismo.

Dados compilados pela Spectra para fundos com atuação no Brasil (apesar de amostra limitada) mostram retornos medianos superiores à mediana dos Estados Unidos, segundo dados da carta da gestora. IPOs de empresas impulsionadas por VC devem liderar a próxima janela de liquidez no Brasil.

Com a forte expansão dos investimentos em IA nos últimos anos, a única convicção que temos é que viveremos anos de muita volatilidade. Por um lado, o grande sucesso da IA coloca em dúvida indústrias inteiras: da prática médica e do software à indústria financeira.

Por outro lado, pouco sucesso seria punitivo para os grandes investimentos feitos nesse espaço. Serão quase US$ 700 bilhões de investimentos em tecnologia esperados para este ano pelos hyperscalers (Amazon, Google, Meta, Microsoft e Oracle), constituindo o maior investimento da história em um único programa — equivalente a três vezes o investimento no programa Apollo que levou o homem à Lua, ajustado pelo percentual do PIB americano daquela época e de agora. Os dois cenários, sucesso e insucesso, geram volatilidade.

Impulsionadas por IA, diversas empresas no nosso portfólio crescem mais rápido do que o Mercado Livre crescia em sua fase de hipercrescimento, algo impensável anteriormente e que nos deixa confiantes sobre o impacto transformador da tecnologia.

Qualidade brasileira

Não professamos o futuro - até porque o macro tende a impactar menos o dia a dia do VC -, mas traçamos cenários. Um deles é que a IA leve a grandes saltos de produtividade, gerando um colapso da inflação e, consequentemente, das taxas de juros mundiais e locais.

Países com maior débito de tecnologia e engenharia, mas com economias altamente digitalizadas como o Brasil, podem ser grandes beneficiários. De repente, décadas de subinvestimento em matemática, ciências da computação e engenharia ficarão irrelevantes.

Nesse cenário, ativos longos, como venture capital - onde as startups são as melhores candidatas para se beneficiarem da IA - ou até mesmo aquele Renda+ 2065 com IPCA+7%, tornar-se-ão óbvios. Nessa hora, a oportunidade de grandes retornos terá se exaurido e inflação + 7% parecerá um sonho distante.

Os empreendedores no Brasil são de excelente qualidade. Enquanto os fundos tomam risco diversificado em muitas companhias, os empreendedores tomam risco altamente concentrado e dedicam suas carreiras a construir esses sonhos, e temos orgulho de apoiá-los.

Temos uma nova geração de empreendedores, mais preparada, que entende que a falha também pode fazer parte da jornada e não precisa de atalhos questionáveis.

Em VC, temos no Brasil talvez uma das menores taxas de fraude do mundo, até em comparação com os Estados Unidos e muito melhor do que no Sudeste da Ásia e outros emergentes.

Talvez a “bobagem” seja não acreditar que podemos ter grandes empreendedores no Brasil, até que fique óbvio. Certamente ficaríamos felizes de estar na companhia dos "bobos" que viram oportunidades onde outros viram o improvável.

*André Maciel é fundador e sócio da gestora de venture capital Volpe Capital