Qual cantor, cantora ou grupo que não gostaria de fazer parte de uma lista de 66 faixas que melhor representam a canção em seu país? Ou a indústria musical nos EUA? E o que dizer se essa escolha viesse de ninguém menos que Bob Dylan, o maior nome da música norte-americana no século 20 e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2016?

A playlist cuidadosamente justificada por ele com textos saborosos, inteligentes, cheios de estilo e emoção, compõe o volume A filosofia da música moderna (Companhia das Letras) – lançado nesta semana no Brasil.

Dylan destrói a ideia de que a indústria musical americana controla o mercado com canções feitas e gravadas de modo descartável, voltadas apenas para o lucro fácil e rápido, em meio a um mercado promocional poderoso, com o suporte do cinema que ajudou bilhões de discos ao longo do século 20.

Com conhecimento raro e sensível sobre o assunto, ele argumenta que há algo além dessa capacidade de entreter. E pode até fazer pensar, refletir, sonhar, morrer de amor, além de embutir os momentos mais felizes da vida americana, principalmente no período que ele recortou, entre as décadas de 1940 e 1980.

De Elvis Presley selecionou duas – assim como de nomes que podem causar espanto, por serem “populares demais”, como Bob Darin, Willie Nelson, Little Richard, Ray Charles e Johnny Cash. Apaixonado por música afro-americana – não por acaso, começou como cantor de folk e blues –, metade de suas escolhas são de artistas ou grupos negros.

O que pode causar estranheza é que ele só incluiu quatro mulheres, que se juntaram a 62 discos. São elas: Cher (quem poderia imaginá-la na lista?), Judy Garland, Nina Simone e Rosemary Clooney.

De qualquer modo, de música, ele entende, pois é conhecido como um profundo pesquisador do folclore americano. Tudo isso ele digeriu e espalhou por seus 39 álbuns de estúdios, lançados em 61 anos de carreira e mais de 125 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.

Em seu conjunto, o livro funciona como uma aula magistral sobre a arte e o ofício da composição e do canto, pois este é um detalhe fundamental para ele em parte das escolhas.

O detalhismo das anotações permite mergulhar em sua sensibilidade para perceber aspectos nas entrelinhas das canções, como fugir da armadilha das rimas fáceis, o impacto de uma única sílaba em uma letra, estabelecer as relações do gênero musical bluegrass com o heavy metal etc.

Ouvir essas músicas durante a leitura redimensiona o livro e traz saudades de uma época que a maioria de nós não viveu e, sem dúvida, o quanto a música americana teve e tem valor.

A mais óbvia de todas as escolhas é Frank Sinatra com Strangers in the night, que fecha a lista – e o livro. Ou Bing Crosby com Whiffenpoof song e Eddy Arnold, em You don't know me. De Perry Como, ele escolheu Without a song. Escreve que o artista viveu cada momento de cada canção que cantou.

“Ele nem precisava ser o autor da canção. Talvez tenha acreditado mais nas canções que cantou do que as pessoas que as compuseram. Quando ele se levantava para cantar, virava o dono da canção e a partilhava, e nós acreditávamos em cada palavra que ele cantava. O que mais se pode esperar de um artista?”.

Sobre o rock and roll pioneiro do esquecido Jimmy Wages, optou por Take me from this garden of evil: E diz: “Não há nada artificial nessa canção, nada é fabricado ou planejado, não há maquiagem nem plástica. Ela é genuína e não está no mapa, sem nenhuma linhagem genética. Essa canção não é brincadeira”.

Willy the wandering gypsy and me, na voz de Billy Joe Shaver, recebe de Dylan esta observação: “Essa canção é um enigma: quanto mais você insiste, mais estranha ela fica, parece ter segundas intenções. É o tipo de canção imprevisível, até que acerta você em cheio. Não é fácil compreender essa canção, não há nada que aponte a direção certa. É só você, o Willy e o cigano errante”.

Ao testemunhar o nascimento e a trajetória de Tutti Frutti (1956), ele observa sobre o autor e intérprete, vítima de preconceito e racismo. “Little Richard é o mestre do duplo sentido. Tutti Frutti é um bom exemplo disso. Um frutinha, um homossexual, e ‘tutti frutti’ significa ‘várias frutas’. Também é um sorvete enjoativo. Uma garota chamada Sue e outra chamada Daisy, ambas travestis”.

E pergunta: “Você já viu Elvis cantando Tutti Frutti no programa do Ed Sullivan? Ele sabe o que está cantando? Você acha que Ed Sullivan sabe? Acha que os dois sabem?”.

Vale a pena ler o que ele fala sobre a lindíssima Poor little fool, na voz do galã Ricky Nelson, que deixava suas fãs descontroladas: “Os tolos nos proporcionaram muitas canções. (...) Ricky Nelson não era tolo, não saía por aí sem meias ou com plumas na cabeça, tinha sempre cartas na manga”.

Dylan ama os grandes cantores, cheios de bossa e que remetem a Sinatra ou Bobby Darin, de quem destaca as performances de Mack the knife e a famosa Beyond the sea, tradução do francês, originalmente composta por Charles Trenet e praticamente intraduzível.

“É uma canção sobre o mar e toda a alegoria que ele representa. Bobby Darin sabia soar como qualquer pessoa e cantar em qualquer estilo. Foi o cantor mais flexível de seu tempo”.

Não podia faltar o cantor que lá atrás tinha seus shows abertos pelos Beatles, quando a banda inglesa engatinhava: Roy Orbison, com Blue bayou, uma das grandes baladas de todos os tempos: Diz o autor:

“Alguns dos nossos discos favoritos são feitos de canções medíocres que, de alguma forma, ganharam vida durante a gravação. Aqui, temos as duas coisas. Há tristeza tanto nas palavras como nas rasantes operísticas da voz de Roy — é impossível separar o cantor da canção”.

O autor acerta até mesmo com o clássico Blue moon, na voz do subestimado dublê de cantor e ator Dean Martin: “Ele era a bebedeira sem a ressaca, a luxúria sem o castigo e o homem que tanto Sinatra como Elvis gostariam de ser.”

As escolhas inesperadas fazem a diferença na seleção dylaniana. Como The Temptations, conjunto vocal dos anos de 1970. Ele tinha uma justificativa para escolher Ball of confusion.

“Nessa canção, tudo sai dos trilhos. O eixo terrestre parece ter se inclinado um pouco, e mudanças climáticas radicais assolam o planeta. Caos por toda parte — preconceito, morte, fome, destruição. O planeta rola feito uma bola e você vai junto. (...) Seu dinheiro não tem valor nem influência sobre qualquer pessoa. Você caminha com insegurança, as pessoas dizem ‘prossiga’, e você segue a marcha”.

Se os Beatles ficaram de fora não deve ser porque vieram da Inglaterra, pois ele optou pela compatriota The Clash, com seu clássico maior, London Calling. “É provável que seja o The Clash em sua melhor forma, em sua maior relevância, no ápice do desespero. Eles sempre foram a banda que imaginavam ser”.

O que Dylan teria a dizer sobre sua escolhida Volare, cantada em italiana por Domenico Modugno e que está na sua lista? “Essa pode ter sido uma das primeiras canções alucinógenas da história, e antecede White Rabbit, de Jefferson Airplane em pelo menos dez anos. Uma melodia tão cativante quanto essa você provavelmente nunca ouvirá ou experimentará. Até sem ouvir, você ouve”.

Aos 82 anos, Dylan é o outsider, rebelde, inconformado, visionário, genial e revolucionário com um belo livro para ser consultado sempre, com uma playlist rolando.

Capa do livre "A Filosofia da Música Moderna"
Capa do livre "A Filosofia da Música Moderna"

Serviço:
A Filosofia da Música Moderna
Bob Dylan
Companhia das Letras
352 páginas
R$ 249,00