Você pode até sair de uma guerra, mas a guerra jamais sairá de você. Experiências assim costumam deixar marcas por toda a vida. E foi o que aconteceu com Celso Furtado (1920-2004), um dos mais influentes economistas do Brasil, ministro dos governos de João Goulart e de José Sarney e autor de Formação econômica do Brasil, um dos livros capitais para compreender a história do país.
Furtado foi um dos 25.334 “pracinhas”, homens e mulheres, integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutaram ao lado dos Aliados, a partir de 1942, quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo, liderados pela Alemanha nazista. As experiências do oficial Celso Furtado em missões na Itália, entre fevereiro e setembro de 1945, estão reunidas no recém-lançado O Tenente — Cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial.
Com seleção de fotos e documentos históricos, além de introdução e notas da jornalista, editora e tradutora Rosa Freire d’Aguiar, viúva do economista que tem se dedicado a organizar e publicar as obras de Furtado, o livro traz textos de gêneros variados — contos, cartas e breves ensaios nos quais ele narra o dia a dia no front, a camaradagem entre os soldados, o encontro com pessoas devastadas pelo conflito e os impactos pessoais e políticos da guerra.
Por ter participado do Tiro de Guerra, na Paraíba, em 1937, Furtado se tornou reservista de primeira categoria. Na época em que o conflito se aproximava, ele cursava o terceiro ano da faculdade de direito do Rio de Janeiro, e a convocação militar tornou-se uma possibilidade concreta — embora só viesse a ocorrer três anos mais tarde.
Quando o governo criou a FEB, planejara inicialmente enviar até 100 mil soldados, organizados em três divisões. Contudo, o número foi reduzido, e o País acabou enviando apenas uma divisão com pouco mais de 25 mil.
Na idade de ser convocado, Furtado decidiu que seria melhor atuar como aspirante a oficial e ingressou no CPOR — Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. Seu domínio do inglês, aprendido ainda na Paraíba com o professor Mr. Vance levou os superiores a designá-lo como oficial de ligação com a missão norte-americana no Brasil e, posteriormente, na Itália.
A preparação militar coincidiu com intenso esforço acadêmico e profissional. O chamado aconteceu nos últimos meses do conflito, em fevereiro de 1945, quando ele viajou na posição de comando, como segundo-tenente. Ele próprio relatou que esteve na linha de frente em posição privilegiada, quando observou o andamento dos combates com mais clareza do que os soldados nas trincheiras.
Sua experiência na Segunda Guerra Mundial ganhou livro já no ano seguinte, em 1946, quando Furtado publicou De Nápoles a Paris: Contos da vida expedicionária, um dos primeiros livros escritos por um pracinha — dezenas seriam publicados nas décadas seguintes. O conteúdo — que foi integralmente incluído em O Tenente — é essencialmente autobiográfico, ambientado no conflito.
Em seis narrativas, ele descreveu o dia a dia entre os militares, o desafio de se adaptar ao frio europeu, as viagens para as cidades próximas, as festas nos períodos de folga, as mulheres que conheceu pelo caminho, os museus que conheceu, o contraste entre brasileiros, americanos, italianos e alemães e a reflexão sobre identidade nacional, etnia e cultura.
As histórias, contadas na primeira pessoa do plural, parecem ter sido vivenciadas por seu pelotão. No texto Dois cigarros, sobre uma ida a Módena, ele contou: “Pedimos que nos esquentassem a ração, que nos fornecessem água quente para passar o café e que nos deixassem provar o melhor vinho branco da casa. Calados, bebíamos metodicamente. Cada um sabia que os outros estavam a recordar a sua terra”.
Em Um intelectual em Florença, mostrou a diferença de formação que havia entre os soldados. Furtado temperava suas histórias com refinamento literário: “Mário levantava aquelas mãos grandes, que me pareciam complicadas como bordados antigos, e de dentro do seu macacão enodoado de graxa e malcheiroso queria me explicar certos aspectos sutis da decomposição social italiana”.
Mario se destacava dos colegas de farda por possuir uma sólida formação intelectual, que se manifesta nas reflexões complexas sobre cultura, política e história. O soldado que operava máquinas era leitor de Dante, Goethe e Horácio. Ao retratar Mário como um “intelectual” em meio à brutalidade da guerra, ao que parece, Furtado buscou romper com a imagem simplista do pracinha ingênuo, revelando a complexa composição cultural da FEB, formada por indivíduos de origens e níveis de instrução diversos.
Em O Tenente, ele detalhou como se expôs ao perigo quando esteve em missões na Toscana e em Nápoles, no posto de oficial de ligação junto aos Aliados. Seus primeiros escritos, não podia ser diferente, foram cartas enviadas a familiares e amigos, cujos envelopes traziam o carimbo “Aberto pela censura”, por causa do estado de guerra em que o Brasil se encontrava.
São essas correspondências inéditas, divididas em “enviadas” e “recebidas”, que fecham o livro. Em 14 de março de 1945, por exemplo, ele escreveu a Beatriz Marques de Sousa, com o olhar do economista:
“Vai esta mensagem para dizer do contraste de vida aqui, no coração da Toscana. Vai esta mensagem como um grito de espanto diante do que tenho visto aqui — a cabal decomposição de uma sociedade. Toda a estrutura econômica da vida urbana esfacelada: milhares de criaturas sem programa de vida, sem escala de valores, guiadas pelo medo que lhes traz o estado de insegurança".
Um dos grandes intérpretes do Brasil, com uma obra que transformou a história do pensamento econômico latino-americano e permanece relevante até hoje, Furtado nasceu em 1920, em Pombal, na Paraíba. A partir dos anos de 1950, atuou por dez anos como economista da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Criou e dirigiu a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) até 1964.
Enquanto era ministro do Planejamento do governo João Goulart, com o golpe militar, teve de se exilar. Foi para o Chile, os Estados Unidos e a França, onde deu aulas na Universidade Sorbonne. Ao voltar, a partir de 1985, tornou-se ministro da Cultura de José Sarney. Por vinte anos lecionou em universidades na Europa e nos Estados Unidos e escreveu cerca de trinta livros sobre teoria, política e história econômicas.
Agora, O Tenente mostra um lado pouco conhecido de um dos mais influentes economistas do Brasil — o intelectual que, como pracinha, viveu o conflito mais devastador de todos os tempos.