“Sem o consolo do passado, sem a confiança no futuro, o africano esquece o presente saboreando, à sombra dos algodoais, o caldo da cana-de-açúcar; e como essas plantas cansadas de produzir, acaba definhando a duas mil léguas de sua pátria, sem nenhuma recompensa por seus serviços menosprezados.”

Talvez seja difícil imaginar quem escreveu essa frase. É provável que cause estranheza descobrir que o autor é o artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Sim, o mesmo que desembarcou no Rio de Janeiro no século 19 e se tornou célebre pelo álbum Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, obra que cristalizou parte do imaginário visual do período do Império. Suas imagens, presentes em aberturas de novelas, livros didáticos e desfiles de carnaval, retornam ciclicamente, pedindo, a cada aparição, um novo exame.

A oportunidade da vez é a mostra Debret em questão — olhares contemporâneos, em cartaz no Museu Paulista com curadoria de Gabriela Longman e Jacques Leenhardt. A iniciativa integra a Temporada França–Brasil 2025 e foi apresentada em versão mais sucinta na Maison de l’Amérique Latine, em Paris, entre abril e outubro deste ano.

Autor do livro Rever Debret, ponto de partida da exposição, Leenhardt, ao lado de Longman, propõe um olhar renovado sobre o que as imagens mostram sobre o século 19 — e sobre como o próprio artista compreendeu essa produção.

“Se você observa a obra de outros artistas viajantes, negros e indígenas raramente ocupam o centro da composição. Não apenas como figuras, mas como trabalhadores”, explica Leenhardt, em conversa com o NeoFeed. “Para o Debret, era essencial dar visibilidade a quem trabalhava. Ele repete isso inúmeras vezes: ‘quem trabalha no Brasil são os negros; o português não gosta de trabalhar.”

O artista escreveu isso nos textos que acompanham as famosas gravuras — textos que, embora pouco lembrados, são parte indissociável do projeto. “O próprio Debret diz que a imagem não é suficiente, que é preciso o suporte da palavra”, comenta o curador.

Segundo ele, é justamente essa articulação entre texto e imagem que torna o álbum um caso singular: “É a primeira vez — e talvez o único exemplo na história editorial — em que imagens recebem um texto permanente, extenso e preciso do próprio autor. E nem sempre é apenas comentário; às vezes é um pequeno conto”.

A mostra traz trechos da produção escrita o que nos ajuda a revisitar imagens já tão batidas com um frescor inesperado. Um exemplo é Primeira saída de um velho convalescente. No primeiro plano, vemos um homem branco — descalço, como quem cumpre uma penitência — subindo as escadas de uma igreja. Carrega nos braços um fardo de velas, seguido por uma mulher e outro homem. Logo atrás, um jovem negro acompanha a família, equilibrando outro volume sobre a cabeça.

Ao fundo, porém, algo quase se perde: uma mulher negra segura apenas uma vela. E é ela quem oferece uma esmola a uma pessoa em situação de vulnerabilidade diante da igreja. “Essa verdadeira compreensão da caridade cristã observa-se diariamente na classe indigente”, critica Debret, observando que, muitas vezes, são justamente aqueles que menos têm que ajudam os mais necessitados.

“Essa construção em camadas permite que a complexidade da cena apareça”, aponta Leenhardt. “O que está no primeiro, no segundo, no terceiro plano reflete uma divisão social. Ele usa a profundidade do espaço para revelar a complexidade das relações.”

"O velho convalescente", em "Viagem pitoresca e histórica ao Brasil", 1835 (Foto: Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin — Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo)

"Espera da reza pro bater do tambor", de 2024, da série “Radiola de promessa”, de Gê Viana (Foto: Acervo da artista/Cortesia da Lima Galeria)

"Loja de barbeiro", em "Viagem pitoresca e histórica ao Brasil", 1835 (Foto: Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin — Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo)

"Marcado por uma imagem de infância", da série “Demérito ao Debret”, de Bruno Weilemann Belo, de 2021 (Foto: Cortesia Aura Galeria)

"Feitores castigando negros", em "Viagem pitoresca e histórica ao Brasil", 1834 (Foto: Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin — Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo)

"Passistas no desfile da escola de samba dos Acadêmicos do Salgueiro", de Marcel Gautherot, 1959 (Foto: Acervo Instituto Moreira Salles)

"Assentar um naturalista e folhas", de 2019, de Dalton Paula (Foto: Coleção Buarque Leite)

Leenhardt lembra que o álbum se chama Viagem pitoresca e histórica ao Brasil — e que esse “histórica” merece atenção. Debret viveu no país por quinze anos, o que o torna muito mais do que um viajante. “Existe o impacto da vivência direta”, observa Gabriela Longman ao NeoFeed. “É muito diferente estar na França, sabendo que em algum lugar distante existe uma sociedade baseada no trabalho escravo, e vivenciar isso de perto.”

Debret, frequentemente revisitado por artistas contemporâneos, também recorria à citação para tensionar narrativas sobre o Brasil. Um exemplo é sua apropriação da gravura Forêt Vierge du Brésil, de Charles de Clarac (1777-1847). O ambiente da mata e a travessia sobre um tronco permanecem, mas a cena idílica dá lugar a uma mais dura.

Em uma sequência de duas imagens, ele amplia o grupo de personagens, aproxima o foco e revela duas mulheres indígenas amarradas, carregando crianças e sendo escoltadas por homens armados. Ele mantém quase intacto o título da primeira imagem — Florestas virgens, margens do Paraíba —, mas escancara a realidade no segundo: Selvagens civilizados, soldados índios de Curitiba conduzindo prisioneiros.

O "artista-antropólogo"

Os registros textuais e imagéticos de Debret o colocam nesse lugar de “artista-antropólogo”: alguém que observa, descreve e interpreta o mundo ao redor. “O Debret usa a imagem para pensar, não para impor uma realidade. São imagens que pensam”, afirma Leenhardt.

Talvez seja justamente essa postura que explique por que sua obra segue sendo escolhida por tantos artistas contemporâneos para refletir sobre um passado brasileiro que, de alguma forma, insiste em retornar. A mostra atrualiza os debates apresentados por Debret com trabalhos de mais de vinte nomes, entre eles Anna Bella Geiger, Jaime Lauriano, Rosana Paulino e Tiago Sant’Ana (veja algumas dessas obras na sequência de imagens acima).

O artista também foi tema do samba-enredo da Acadêmicos do Salgueiro no Carnaval de 1959, episódio registrado pelo fotógrafo Marcel Gautherot (1910–1996).

“Debret retratou essa sociedade tão dividida entre senhores e escravos, entre quem serve e quem é servido”, destaca Longman. “E, historicamente, sabemos que o Carnaval acabou se tornando um momento de dissolução temporária dessas fronteiras, um instante em que essas figuras coexistem.”

Esse cortejo abre caminho para os artistas que, 200 anos depois, continuam dialogando com o olhar do francês. É o caso da maranhense Gê Viana, que em sua série Atualizações Traumáticas remove personagens brancos e reposiciona pessoas negras em situações de dignidade, lazer e descanso. Um gesto que reescreve papéis e desloca a memória.

“Vivemos em um mercado de arte contemporânea em que tudo parece surgir do zero, por geração espontânea. E aqui é o contrário”, ressalta Longman. “Há um trabalho profundo desses artistas de pesquisa iconográfica e histórica. Em nossa sociedade, somos bombardeados por imagens o tempo todo. A exposição é um convite para que a gente se detenha para olhar com calma, com tempo.”