A casa de campo de pau-a-pique e sapê, cantada por Elis Regina, ajudou a moldar o imaginário coletivo do chalé escondido no mato, isolado do mundo, cuja marca registrada era a rusticidade. O modelo, sonho de consumo forjado nos anos 1970, pode ter sobrevivido por décadas, mas ficou datado.
Para começar, a palavra chalé foi substituída por cabana. Nessa versão atualizada, a rusticidade até se revela nos materiais naturais e nas estradinhas de terra que dão acesso, mas não passa da página dois.
Recheadas de luxos, elas têm projetos arquitetônicos ousados e tarifas na casa dos quatro dígitos. Esse tipo de hospedagem tomou impulso na pandemia, quando se popularizou a expressão “turismo de isolamento”, e não arrefeceu desde então. Pelo contrário, nunca esteve tão em alta.
Dados da plataforma Booking.com, levantados com exclusividade para o NeoFeed, mostram que as buscas por cabanas cresceram 30% entre 1 de fevereiro e 21 de agosto de 2025, em comparação com o mesmo período do ano passado.
Urubici, no alto da Serra Catarinense, aparece como uma das mais hypadas para o turismo de isolamento, com 39% de aumento nas buscas. São Bento do Sapucaí, no interior paulista, na Serra da Mantiqueira, é a vice-campeã, com 34%, seguida de Monte Verde, em Minas Gerais, com 28%, e Campos do Jordão, também em São Paulo, com 11%.
Arquiteta pós-graduada em mercado de luxo, a catarinense Naindry Rodrigues, 33 anos, descobriu que as cabanas são um filão e tanto.
No escritório de Florianópolis, ela emprega 16 pessoas e tem clientes do Sul ao Nordeste, sem contar os internacionais — há cabanas com sua assinatura em Sapanca, na Turquia; em Yungai, no Peru, e em Nova York.
“Depois que projetei a primeira, em 2021, virou uma loucura. Já passei dos 150 projetos concluídos e tenho uns 40 em andamento”, conta a arquiteta que, não por coincidência, nasceu em Urubici. Só na cidade e arredores, ela já implantou cerca de 60 unidades.
Originalidade e privacidade
Se os chalés do passado se multiplicavam em um mesmo terreno, um ao lado do outro, as cabanas da moda têm identidade. Prezam pela originalidade (não têm cópias) e pela privacidade (nada de vizinhos próximos), recebem nomes próprios e têm perfis no Instagram.
Também mudou a natureza dos empreendimentos. Segundo Naindry, investidores individuais são 80% da clientela — gente que adquire lotes rurais a partir de 20 mil metros quadrados (m²), constrói uma casa para uso próprio e ergue cabanas ao redor para aluguel de temporada.
“Alguns são investidores pequenos, que empenham tudo o que guardaram na vida para construir a primeira cabana. Logo passam para a segunda e a terceira, porque o retorno é rápido. Dependendo do projeto, vem em menos de um ano.”
As cabanas mais em conta, com sua assinatura, saem por R$ 165 mil. É um modelo compacto de 22 m², que chega pronto em cima de um caminhão. A partir daí, o céu é o limite.
Sua mais recente criação, uma planta de 70 m² que gira no próprio eixo para que os hóspedes aproveitem melhor a paisagem, será lançada na feira ConstruirAí, em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, que acontece de 16 a 19 de setembro. Custa R$ 900 mil e já foi vendida — em breve, terá um chão para chamar de seu em Campos do Jordão.
Em entrevista ao NeoFeed, Naindry contou que a madeira ainda é o método construtivo de maior sucesso entre os investidores, pelo visual rústico e natural. Paredes de alvenaria são raridade. Elas lembram casas comuns da cidade grande, quando tudo o que esse tipo de hóspede quer é fugir da rotina.
Apesar de caros, os perfis metálicos também estão em alta, porque prometem agilidade na construção e, consequentemente, retorno mais rápido do investimento. Mas tem cliente que gosta de ousar sem pensar no cronograma.
Dona de uma imobiliária em Bombinhas, no litoral catarinense, Andreza Amaral frequentava Urubici como turista quando decidiu investir em uma cabana, em 2020. Terreno comprado, conversou com “seis ou sete” arquitetos para explicar seu sonho: queria um iglu ao estilo finlandês. “A Naindry foi a única que se empolgou e disse que dava para fazer.”
A estrutura arredondada da cabana Benta Rosa, de perfis metálicos e vidro, raramente está vazia, como Andreza conta ao Neofeed. A diária chega a R$ 2,2 mil na alta temporada, mas a taxa de ocupação, de janeiro a dezembro, gira em torno dos 90%. A média de permanência é de dois dias, ou cinco, se for lua de mel.
“Projetos autorais fazem com que o turista queira conhecer aquela cabana em particular. Recebo gente que vem do Nordeste e nem se preocupa em conhecer a cidade.”
A alta procura pelo iglu estimulou Andreza a construir uma segunda cabana em formato triangular, ou A-frame. O modelo, cujo telhado se prolonga até o chão, é comum nos Estados Unidos e, no Brasil, ficou conhecido como chalé suíço. De novo, Andreza fugiu do lugar-comum. Trocou a madeira por metal e vidro e, no recanto da jacuzzi, até o teto é transparente. De dentro d’água, é possível admirar as araucárias.
A Bolha
Ainda mais ousada é a cabana Bolha, que Naindry construiu para ela mesma, em Urubici. De poliuretano termoplástico, é inteiramente transparente. As cortinas ao redor da cama não chegam ao teto — dorme-se vendo as estrelas, acorda-se com os raios de sol, sombreados pelas copas das árvores. A diária custa entre R$ 850 e R$ 1,2 mil.
Cama queen ou king size, calefação e banho com padrão de hotel cinco estrelas são itens obrigatórios. O colchão mais caro, com massageador embutido, pode chegar a quase R$ 20 mil. “A régua do conforto está lá em cima”, afirma a arquiteta.
Amplas áreas construídas, ambientes sofisticados, piscina de fundo infinito... O que faz uma cabana de luxo ser considerada uma cabana, e não uma mansão?
A resposta está na perfeita integração com o meio ambiente. Ela aparece nos deques suspensos, nas varandas escancaradas para as montanhas, nas paredes envidraçadas e nos ambientes externos caprichados, com fogueiras e ofurôs.
Casas de alto luxo também precisam de ambientes de serviço, como lavanderia e garagem, o que uma supercabana não tem.
A cozinha, em compensação, deve ser tão equipada quanto a de um chef profissional — o isolamento é estímulo extra para que os hóspedes prefiram cozinhar a buscar um restaurante para comer.
Já existe até influenciador 100% dedicado ao tema. Amanda e Matheus Czechowski, do perfil @umacabana, se hospedam e registram suas experiências em fotos e vídeos.
É fácil notar que fogo e água são os elementos que mais geram engajamento. Lareiras, fogueiras e momentos de contemplação na jacuzzi são infalíveis para fisgar os seguidores — e receita certeira de milhares de likes.