Marrakech - Danielle Brooks e Lewis Pullman anunciam na quinta-feira, 15 de janeiro, o que Bill Kramer, o CEO da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, promete ser uma seleção “diversificada e global” de filmes indicados ao Oscar.
Isso significa que mais produções de língua não inglesa terão chances de concorrer em várias categorias, como é o caso de “O Agente Secreto”, com a esperada indicação de Wagner Moura, como melhor ator.
“É importante ouvir as vozes do mundo e os diferentes pontos de vista. Agora, todos os anos temos filmes não americanos espetaculares brigando por vários Oscars. Nossos membros da Academia, mesmo os baseados em Hollywood, os devoram”, contou Bill Kramer, em uma de suas últimas aparições públicas antes do anúncio dos indicados ao próximo Oscar, o 98º da história.
O CEO foi um dos convidados da 22ª edição do Festival Internacional du Film de Marrakech, conhecido como FIFM, que teve cobertura do NeoFeed.
Em encontro com público e imprensa no Marrocos, Kramer reforçou a diversidade da seleção de filmes indicados (como resultado da globalização da própria Academia), como uma de suas principais missões no cargo, ocupado desde 2022.
“O foco da organização costumava ser Hollywood. Mas isso está mudando. Hoje, quase 25% dos nossos 11 mil membros não são dos EUA. E esse número continuará crescendo, com a entrada de 150 a 200 novos membros internacionais a cada ano”, disse o CEO, de 57 anos, no palco do centro cultural Meydene, de Marrakech.
“Como vivemos em uma sociedade global agora, os horizontes se abrem para filmes do Oriente Médio, da África e da América do Sul, como foi o caso do brasileiro ‘Ainda Estou Aqui’, na seleção do ano passado”, afirmou ele, referindo-se ao fato de o drama histórico de Walter Salles ter disputado, além do prêmio de melhor filme internacional (conquistado), o Oscar de melhor filme e de melhor atriz, com Fernanda Torres.
Alguns fatores ajudaram a levar a essa internacionalização do Oscar, incluindo o “boom” do streaming e a mudança de hábitos com a pandemia, segundo Kramer.
“De cinco anos para cá, o público passou a assistir em casa a filmes que normalmente não veria. As fronteiras entre filmes clássicos e contemporâneos, entre filmes internacionais e de seu país e entre documentários e animação simplesmente desapareceram.”
Outro motivo para as mudanças no Oscar, não mencionado pelo CEO, foi a controvérsia causada pelo #OscarsSoWhite (#OscarsTãoBrancos). O movimento surgiu nas redes sociais em 2015, acusando a Academia de racismo e pedindo mais diversidade na premiação.
Toda a polêmica contribuiu para a vitória do sul-coreano “Parasita”, que fez história na 92ª edição do Oscar, em 2020. Ele foi o primeiro longa-metragem não falado em inglês a conquistar a estatueta de melhor filme. “Quando ganhou o prêmio, o diretor Bong Joon-ho disse que as pessoas não tinham mais medo de legendas. E é verdade”, lembrou Kramer.
A inclusão de novas categorias na premiação também ajuda o CEO a reforçar a ideia de que a Academia acompanha os novos tempos, como uma organização “viva e pulsante”. A próxima cerimônia do Oscar, agendada para 15 de março, em Los Angeles, será a primeira a reconhecer a melhor direção de elenco.
“O prêmio vai ajudar as pessoas a entenderem como é o processo de seleção de elenco, o que ainda é um mistério para a maioria’’, afirmou Kramer, acrescentando que a intenção da Academia é “elevar essa disciplina”. “Trata-se de uma forma de arte, mesmo que um ator, presente em set de filmagem na Hungria, faça uma reunião com um diretor de elenco em Los Angeles, por Zoom.”
Para a festa do 100º Oscar, em 2028, a Academia vai adicionar um prêmio de melhor direção de dublês. “Quase toda produção tem algum tipo de acrobacia, e não estou falando apenas de filmes de ação”, disse o CEO, lembrando que, ao levar a proposta ao conselho administrativo, ele apresentou um clipe com trechos de filmes independentes.
“Um deles foi ‘Anora’ (último vencedor do Oscar de melhor filme), em função da cena de luta na casa”, contou Kramer, referindo-se à invasão da mansão do personagem russo. Ao abandonar a sua esposa na casa, ele a deixa à mercê dos capangas do pai, culminando com muita pancadaria. “Tudo aquilo foi altamente coreografado”, destacou.
Antes de encerrar o encontro, Kramer foi questionado sobre os momentos mais polêmicos e embaraçosos da entrega do Oscar. Como a gafe cometida na cerimônia de 2017, com o anúncio equivocado, devido a uma troca de envelopes, de “La La Land: Cantando Estações” como melhor filme, quando o vencedor da noite era “Moonlight - Sob a Luz do Luar”. Mais recentemente, em 2022, Will Smith ainda deu um tapa no comediante Chris Rock, por não gostar da piada sobre a cabeça raspada de sua mulher, Jada Pinkett Smith, que sofre de alopecia.
“Como somos um programa de TV ao vivo, tudo pode acontecer. É parte da emoção”, afirmou o CEO, completando que a Academia está mais preparada para esses momentos, “após ter aprendido muito nos últimos anos”.
“Vale lembrar que não censuramos nossos artistas, quando eles sobem ao palco. Eles podem abrir o coração, caindo, às vezes, no discurso político. O mais importante é deixá-los viver o seu momento no nosso palco, onde alcançam um público de mais de 50 milhões de pessoas ao redor do mundo. Mais do que isso até, já que esses momentos são eternizados, assistidos e reassistidos no YouTube”, disse ele.