Olinda - São inúmeros os figurinos vistos ao longo das quase 2h40 de duração de O Agente Secreto, mas uma peça em particular, uma camiseta amarela vestida por Wagner Moura durante um curto espaço de tempo, virou objeto de desejo e um sucesso de vendas.
O item em questão é uma reprodução da camisa lançada no fim dos anos 1970 pela agremiação carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos, de Olinda (PE).
Para muita gente – afinal, o filme de Kleber Mendonça Filho (o mesmo de Aquarius e Bacurau) já bateu mais de um milhão de espectadores, somente no Brasil – o nome Pitombeira talvez soe desconhecido. Mas, em Pernambuco, a Pitombeira dos Quatro Cantos é uma verdadeira instituição do carnaval.
Trata-se de uma das mais longevas e tradicionais troças carnavalescas de Olinda, com quase 80 anos de existência, e que desde 2023 é reconhecida pelo governo como Patrimônio Vivo do estado.
Como ocorre com muitas agremiações do carnaval, a Pitombeira surgiu de forma despretensiosa. No carnaval de 1947, um grupo de amigos estava bebendo num bar de um dos locais mais célebres de Olinda, os Quatro Cantos, o cruzamento das ruas Prudente de Morais, Bernardo Vieira de Melo e Ladeira da Misericórdia, que já era um reduto da boemia local.
Era dia 17 de fevereiro, e os amigos resolveram sair pelas ruas, sem camisa, batendo em latas e pandeiros, enquanto cantavam e carregavam um adereço inusitado: galhos de uma pitombeira que havia por perto. Foi o ponto de partida da Troça Carnavalesca Mista Pitombeira dos Quatro Cantos.
Poderia ter sido apenas uma brincadeira do momento, mas já no ano seguinte o grupo se organizou como agremiação carnavalesca e passou a atrair cada vez mais gente para a brincadeira.
O hino da troça, hoje uma das músicas mais conhecidas do carnaval de Olinda, começou a tomar forma já em 1947, e chegou à sua versão final por volta de 1950, de autoria de Alex Caldas, um dos fundadores:
Nós somos da Pitombeira
Não brincamos muito mal
Se a turma não saísse
Não havia carnaval
(Trecho do Hino da Pitombeira)
É também a partir do início dos anos 1950 que a troça ganha os primeiros ares do arrojo que viraria marca dos seus desfiles. Foi quando os integrantes passaram a vestir fantasias padronizadas e feitas especialmente para a ocasião.
Ainda nessa década, a Pitombeira deu início à tradição de desfiles temáticos, numa estrutura similar ao que é feito até hoje pelas escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, com enredo, alas, destaques e carros alegóricos. No carnaval de 1964, por exemplo, o tema foi Roma Antiga, e as fotos da época mostram até um folião fantasiado de soldado romano em uma biga carregada por um cavalo.
Esse formato de desfile suntuoso continuou na década seguinte, mas foi se esvaindo ao longo dos anos e, a partir dos anos 1980, foi ficando mais próximo do formato que temos hoje nas agremiações de rua, com desfile acompanhado por orquestras, passistas de frevo e as fantasias sendo algo restrito quase que exclusivamente aos porta-estandartes.
Como acontece com as maiores agremiações, a Pitombeira hoje desfila com mais de uma orquestra, já que um único grupo não dá conta da multidão que acompanha o cortejo. Então, nos desfiles do carnaval, são duas orquestras, com em média 30 músicos cada uma, que levam o frevo aos foliões nas ruas e ladeiras de Olinda.
Importante dizer que a Pitombeira, assim como outras agremiações de Olinda, tem atividades no ano inteiro, e não apenas no carnaval. A sede funciona como espaço de eventos e local de aulas de música e de dança do frevo, e a troça vai sempre às ruas bem antes do período carnavalesco.
Desde 2001, a Pitombeira dos Quatro Cantos inicia seus ensaios para o carnaval com um cortejo que sai no dia 7 de setembro. Informalmente, acabou virando uma espécie de abertura das prévias carnavalescas de Olinda, que a partir desse mês começam a se intensificar.
E quem quiser ver de perto a Pitombeira passar, os próximos cortejos da troça serão em breve, nos dias 16 e 17 de fevereiro, sendo este segundo no aniversário da agremiação.
No embalo do sucesso de O Agente Secreto, e já reforçando a torcida pelo Oscar, desfile deste ano será dedicado ao premiado longa-metragem, que já levou os prêmios de melhor diretor e melhor ator no Festival de Cannes, além dos recém-conquistados Globos de Ouro de melhor ator e melhor filme estrangeiro.
Camiseta de 1978, filme ambientado em 1977 e o sucesso de vendas
A breve aparição da camisa vintage da Pitombeira no filme-sensação levou a troça a fazer uma reedição do modelo, lançado em 1978. Aliás, na prática, seria uma pequena discrepância histórica, já que a trama é ambientada em 1977.
Por isso, a réplica utilizada por Marcelo, o personagem de Wagner Moura, tem sutis diferenças em relação à original, que traz estampada o ano de 1978 logo abaixo do nome da troça. Outra diferença significativa é que a camiseta que serviu de referência para o filme era branca, não amarela.
O padrão adotado no filme pode ter como inspiração justamente a primeira reedição da camiseta histórica de 1978, que foi lançada como modelo retrô em 2019, porém numa versão amarela, já que hoje o bloco tem estabelecidas como suas cores o amarelo e o preto.
Inclusive, há uma história curiosa sobre como o amarelo e o preto acabaram virando as cores da troça. Nos anos 1970, a empresa responsável pela impressão de um lote de camisetas da Pitombeira fez uma confusão com outra encomenda, para as camisetas de um sindicato, que seriam nas cores amarela e preta.
As cores acabaram trocadas: o pedido do sindicato veio nas cores verde e branca, que seriam o padrão da camiseta da Pitombeira, e a troça recebeu as camisas nesse padrão, que acabou agradando e se consagrou depois.
Segundo o presidente da troça, Hermes Neto, a decisão de reeditar o item há alguns anos levou em consideração não apenas o visual icônico do modelo, mas um aspecto sentimental: a lembrança de seu pai, que também presidiu a Pitombeira, vestindo aquela camiseta. Também em 1978, foi lançado o primeiro disco compacto da troça, que traz a mesma arte da vestimenta.
Se em 2019 o relançamento teve relativo sucesso, a aparição da camiseta amarela da Pitombeira em cena despertou o interesse de muitos pelo modelo retrô.
Desde a estreia de O Agente Secreto, no início de novembro de 2025, a Pitombeira vendeu 2,3 mil camisetas, que esgotaram rapidamente a cada reposição. Uma nova tiragem com mais de duas mil unidades ficará pronta em breve, e deve aplacar temporariamente a fila de espera pela cobiçada vestimenta, que também vem sendo alvo de pirataria.
Mais do que itens que carregam o nome e o brasão da troça, as camisetas representam uma importante fonte de renda para a Pitombeira, o que também vale para outras agremiações, que todos os anos lançam novos modelos, no intuito de arrecadar recursos para viabilizar os desfiles.
Segundo estimativa do presidente da Pitombeira, cerca de 40% dos recursos do clube vêm da venda de artigos como camisetas, bonés, copos etc. É um modelo de financiamento que vem de longa data.
Hermes explica que as camisetas de 1978 eram vendidas por quem desfilava do bloco, e o valor arrecado era revertido na compra das fantasias. E havia, inclusive, uma competitividade entre os revendedores. “Quem mais vendia, saia com as fantasias de maior destaque”, diz Hermes Neto.
As diferenças entre troça, clube e bloco
Ainda que seja comum, mesmo em Olinda, referir-se à Pitombeira como bloco, ela é, na verdade, uma troça. Em Pernambuco, as agremiações de frevo estão organizadas, essencialmente, em três tipos: troça, clube e bloco.
As troças, como a Pitombeira, têm origem informal. O próprio nome, que vem do verbo troçar (brincar, zombar), dá pistas sobre esse tipo de agremiação, que geralmente surge de forma despretensiosa, como um grupo de amigos ou familiares que saem organizados para curtir o carnaval.
Um exemplo é a troça John Travolta, criada em 1979 por um grupo de fãs do ator. Geralmente desfilam durante o dia e acompanhadas de orquestras que tocam frevos de rua. Em alguns casos, a brincadeira pode ganhar uma proporção maior e atrair uma multidão.
Os clubes costumam ter origem mais antiga, datam sobretudo do século 19, e realizam desfiles mais luxuosos, geralmente à noite, com fantasias elaboradas e orquestra que toca também frevos de rua. Ter uma sede própria é outra característica, como ocorre com o Clube das Pás, no Recife, o mais antigo em atividade no estado, tendo sido criado em 1888.
Já o termo bloco, ainda que seja uma generalização utilizada para praticamente todo grupo carnavalesco, diz respeito a uma organização que difere significativamente das troças e dos clubes.
São agremiações que não têm os tradicionais estandartes, mas, sim, flabelos, que têm função similar, mas uma estrutura diferente, rígida. A música também é mais lenta, o chamado frevo de bloco, acompanhado por coral feminino e instrumentos de pau e corda. Um dos maiores expoentes é o Bloco da Saudade, do Recife.