Nova York — O cartaz é uma referência à mensagem clássica de Nova York: “I ❤ NY”. Mas ali falta o coração vermelho. A ausência do ícone é proposital, para causar estranheza.
Este é um dos anúncios da campanha publicitária que há um ano circula no sistema de transporte da cidade, incluindo vagões do metrô, por onde passam diariamente 4 milhões de pessoas. Criado pela agência de publicidade DeVito/Verdi, o slogan é direto: “Life. Pass it on” (“Vida. Passe adiante”), sublinhando que um doador pode salvar até oito vidas.
Nos três primeiros meses de veiculação, a agência ainda espalhou mensagens nas mídias sociais, outdoors, páginas de jornais e em painéis digitais móveis que zanzaram de carro por Nova York. Na época do Natal, criaram peças memoráveis como “O melhor presente é de segunda mão” ou “Um presente que alguém está morrendo para ganhar”.
A campanha gerou um tráfego inédito de visitantes no site do anunciante, a LiveOnNY, organização de captação de órgãos (OPO, na sigla em inglês), designada pelo governo federal para a região metropolitana de Nova York.
Nos Estados Unidos, mais da metade da população já se manifestou como doadora em seus documentos de identidade. No entanto, somente dois em cada dez pacientes que dão entrada nos hospitais da cidade constam como doadores de órgãos.
Para chamar atenção para essa que é uma das menores taxas de doadores do país, a DeVito/Verdi criou outra mensagem: “Apenas 20% dos nova-iorquinos são doadores de órgãos. Infelizmente, o restante os levará às suas sepulturas”.
Aos 80% restantes, cabe à família enlutada tomar a decisão. E, para isso, a campanha traz outro cartaz: “Você nunca evitaria que um ente querido recebesse um órgão que salva vidas. Por que impedir que ele doasse um?"
Com isso, a agência cobriu os principais gargalos da doação de órgãos. Atualmente, há cerca de 100 mil pessoas na lista nacional de espera por um órgão, sendo 8 mil delas em Nova York.
Fundada em 1978, a LiveOnNY trabalha com hospitais doadores e centros de transplante, atendendo a uma área populacional de 13 milhões. Além disso, os agentes educam o público e os profissionais de saúde sobre o tema, promovem o registro de doadores no Donate Life e supervisionam a lista de receptores.
Depois da pandemia, a organização criou um trabalho de engajamento comunitário por meio da educação, com foco em comunidades com baixa taxa de doação, como as negras e as asiáticas, e ainda coletou aprendizados com pessoas que se tornaram doadoras.
O objetivo era equilibrar as doações e transplantes entre as diversas comunidades e etnias. A iniciativa resultou em um aumento de 50% nas doações entre 2021 e 2024. A partir do ano passado, lançou a ação publicitária no transporte de Nova York para alcançar ainda mais potenciais doadores.
Segundo a agência de publicidade, o impacto da campanha quintuplicou o número de indicações de órgãos provenientes de hospitais e escalou em 60% o número de doadores e de receptores de órgãos nas comunidades negras e asiáticas de Nova York.
No Brasil e na Espanha
No Brasil, o Sistema Nacional de Transplantes, criado em 1997, é considerado um dos programas de saúde que melhor funcionam no país.
“Este sistema garante critérios rigorosos, transparência e equidade na distribuição de órgãos, tornando praticamente impossível furar a fila”, diz Eduardo Rocha, professor de nefrologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista ao NeoFeed.
“O sucesso da doação de órgãos depende da adaptação à cultura, à estrutura de saúde e à governança de cada país. Precisamos de organização do sistema de saúde, continuidade e informação de qualidade, incluindo a participação da imprensa formal, contando casos de sucesso”, completa ele.
No Brasil, a abordagem às famílias é central no processo de doação. Aqui, não existe a opção de registrar a vontade de doar em documentos oficiais. Independentemente do desejo manifestado em vida, a decisão final cabe sempre aos familiares, a partir da notificação de morte cerebral do possível doador.
Rocha diz que uma abordagem bem feita aumenta significativamente a taxa de aceitação, mesmo em situações delicadas.
“As diferenças entre os modelos de doação estão diretamente ligadas ao sistema de saúde de cada país. A Espanha lidera o ranking mundial de doações, e o sistema é organizado pelo governo, por intermédio do Órgão Nacional de Transplantes”, explica o médico, que já atuou naquele país e também nos Estados Unidos.
Na Espanha, os hospitais não precisam do consentimento familiar para doação, mas ainda assim o fazem por respeito à família.
A métrica utilizada internacionalmente é o número de doadores por milhão de habitantes, calculado anualmente. Ela permite comparar regiões dentro de um país e também países com sistemas de saúde distintos. Na Espanha, há 50 doadores por milhão de habitantes. Nos Estados Unidos, este número é de 44 por milhão.
“No Brasil, o programa de doação de órgãos é vinculado aos governos estaduais. O coordenador estadual é nomeado pelo secretário de Saúde, indicado pelo governador. Trata-se de um cargo político. Quando a doação de órgãos não é vista como prioridade, porque 'não dá voto', o programa perde força e as doações caem”, alerta.
Isso ajuda a explicar a heterogeneidade significativa das taxas de doação no país. “Há estados brasileiros com desempenho semelhante ao da Espanha, como Santa Catarina e Paraná, ultrapassando 40 doadores por milhão de habitantes, enquanto outros permanecem com índices próximos de zero”, afirma.
O nefrologista aponta que, ao contrário dos Estados Unidos, onde profissionais das OPOS atuam fora dos hospitais, na Espanha eles trabalham dia e noite dentro dos hospitais, sendo que 70% são médicos e 30% são enfermeiros, o que resulta em alto desempenho.
Entre 2011 e 2014, Rocha foi o coordenador-geral do Programa Estadual de Transplantes (PET) da Secretaria de Estado da Saúde (SES) do Rio de Janeiro. Nesta época, ele importou modelos americanos e espanhóis, criando um modelo híbrido para a cidade.
“Hospitais com maior potencial de doação passaram a contar com coordenadores 24 horas por dia nas unidades, monitorando CTIs e emergências”, conta o médico.
“Os hospitais de menor potencial passaram a ser acompanhados ativamente por uma central estadual que atua como uma OPO, entrando em contato diariamente e enviando equipes quando necessário. Essa mudança aumentou significativamente a notificação de potenciais doadores”, comemora.
O resultado foi surpreendente: em 2008, a taxa na cidade era de 4,4 doadores por milhão de habitantes. Após mudanças estruturais no programa, esse número subiu para 17 por milhão em 2014. Hoje, o estado gira em torno de 20 doadores por milhão.
“Trata-se do chamado ‘ciclo da doação e do transplante'”, afirma ele. “Tudo começa com a sociedade: quanto mais conscientizada ela estiver sobre a importância da doação de órgãos, melhor o sistema vai funcionar.”