Este ano estivemos no Slush, em Helsinque — talvez o evento mais consistente da Europa para quem vive tecnologia, empreendedorismo, inovação e venture capital. Ali, em um pavilhão escuro, lotado de stands e movido a milhares de latas de bebida energética, circulam os principais fundos, LPs, CVCs, executivos de grandes corporações, hubs de inovação e, sobretudo, uma massa vibrante de empreendedores.

Mas o que mais impressiona não está nos palcos nem nas agendas oficiais. É um “zeitgeist” — de mobilização no inconsciente coletivo — em torno do fortalecimento do ecossistema europeu. A Europa parece ter finalmente entendido algo simples: ou constrói sua própria musculatura de inovação, ou continuará exportando valor para os Estados Unidos e a Ásia.

Historicamente, a Europa foi berço de descobertas que outros souberam transformar em impérios industriais. Para não nos alongarmos muito, citamos apenas dois dos mais recentes, cujas feridas abertas estão presentes em todo canto.

O primeiro carro elétrico do mundo surgiu na Hungria em 1828. Holanda, Escócia e França logo avançaram — bateria recarregável, miniveículos, locomotivas elétricas — e em 1884 a Inglaterra colocou no mercado o primeiro modelo produzido em linha de montagem.

Cento e vinte anos mais tarde, a Europa também liderou infraestrutura e regulação, com amplas redes de carregamento elétrico e nas metas de banir a venda de novos automóveis movidos a combustíveis fósseis até 2035 — se nada mudar…

Mesmo assim, o valor econômico dessa revolução tem sido capturado primariamente pela norte-americana Tesla, pelas inúmeras montadoras chinesas e pela CATL, hoje com 37% do mercado global de baterias — um golpe duro nas ambições europeias e no sonho da Northvolt.

A IA moderna nasceu de ideias europeias: Turing, em 1936 e 1950, a base teórica da computação e o famoso Teste de Turing. Mas, novamente, o valor migrou.

Décadas mais tarde, o DeepMind surge em Londres, mas em 2014 é comprado pelo Google, deslocando o centro de gravidade para os Estados Unidos.

Só para lembrar, a OpenAI é de 2015.

Hoje, praticamente todos os países europeus têm a mão do Estado impulsionando seus ecossistemas. A iniciativa “top-down”, parte do chamado Plano Junker de 2014, por meio do qual o programa Invest EU comprometeu € 30 bilhões em investimentos alocados em parceiros nacionais europeus.

O resultado? Mais de 350 investimentos totalizando € 293 bilhões mobilizados.

Não há um modelo único — varia em mecanismos, eficiência e ambição —, mas o vetor é claro: fortalecer a inovação local.

Ecossistemas fortes, capitalizados e integrados

Reino Unido, França, Itália, Espanha, Portugal, Estônia: oferecem incentivos fiscais para quem investe em startups ou fundos de venture capital. Eles podem chegar a 65% para investidores anjo.

Itália: fundos de pensão que eram obrigados a alocar 3% na classe de ativos terão de elevar esse patamar para 5% em 2026; o percentual sobe para 10% em 2027.

Portugal: em discussão um grande Fundo de Fundos dedicado à inovação, além do fato de os fundos de VC serem uma maneira de obtenção do “golden visa”.

Há falhas? Sim. Há riscos de capturas políticas? Sempre.

Mas o resultado é visível: ecossistemas tecnicamente cada vez mais fortes, mais capitalizados e mais integrados. Mais startups financiadas e, por fim, mais interesse e presença dos grandes fundos americanos no ecossistema.

Lovable, Legora, n8n, Framer, Synthesia são só alguns exemplos concretos dessa nova realidade.

Reparem que a foto que acompanha este artigo, tirada na entrada do Slush 2025, não celebra a Finlândia. Celebra a Europa como um todo.

O contraste entre Europa e Brasil revela algo incontornável: os europeus começam a colher o fruto de terem escolhido a classe de ativos como um vetor estratégico e apontam um cenário que deve colher bons frutos.

Enquanto isso, no Brasil

Por aqui continuamos operando em modo “bootstrap”: fazemos muito com pouco, temos menos investimento em venture capital per capita do que a média mundial.

E mesmo assim entregamos retornos competitivos com fundos devolvendo resultados no topo do quartil global, e empresas de referência na nova economia como Nubank, Omie, Wellhub, JusBrasil, Cayena, Gabriel, Tractian, Unico… para citar alguns logos em uma lista que segue crescendo ao longo dos anos.

O venture capital, quando bem organizado, não é apenas uma classe de ativos: é infraestrutura de desenvolvimento.

É a força que cria empregos qualificados, acelera cadeias produtivas, revitaliza setores inteiros e gera empresas que pagam impostos e dinamizam a economia.

Aqui as grandes empresas de tech globais possuem algumas de suas principais bases de usuários. Somos, paradoxalmente, um dos mercados que mais consomem tecnologia e um dos que menos investem em produzi-la.

Mas há um ponto de virada possível — e necessário.

Reconhecer o venture capital como um vetor estratégico de desenvolvimento pode acelerar a transformação da nossa vocação de modo exponencial. Temos empreendedores experientes, operadores de elite, investidores com track record e uma demografia de consumo que poucos países do mundo conseguem replicar.

O que falta ao Brasil não é capacidade. É investimento.

Daniel Chalfon é general partner da Astella

Martino Bagini já foi sócio da Astella e COO da Docebo na Itália, hoje investe como anjo atuando no Brasil e na Europa