A Amazônia não é só floresta. Esse é o ponto que o debate público insiste em ignorar. A região tem algo que nenhum outro território tem: acesso direto ao maior repositório de biodiversidade do planeta, com ativos que o mundo inteiro quer entender, comprar e replicar.
Frutos, compostos para a indústria farmacêutica e de cosméticos, soluções para bioeconomia, tecnologias de conservação com retorno financeiro real. O ativo existe. O que ainda falta é uma estrutura mais madura para transformá-lo em negócios escaláveis.
Esse é um problema que conheço bem, mas de outro ângulo. Cresci numa zona rural, numa casa sem energia elétrica, e levei anos tentando empreender até acertar com uma empresa que alugava geradores. E ainda hoje vejo regiões cheias de fundadores com potencial real, mas sem o suporte para ir além.
Estive recentemente em uma imersão liderada pela Endeavor no Norte do país, e essa percepção ficou ainda mais nítida.
Minha trajetória ilustra bem o que acontece quando o suporte certo chega na hora certa. Quando achei que já tinha chegado num bom tamanho, a Endeavor entrou na minha vida e me fez entender que eu podia sonhar muito maior, que eu podia fazer um IPO, que eu não precisava vender a empresa antes da hora.
Fui de engenheiro eletricista a engenheiro financeiro. Aprendi que quem vende cresce. Quem cresce, contrata. Quem contrata, estrutura.
Esse ciclo, que demorei anos para descobrir, pode chegar muito mais rápido para quem está construindo um negócio no Norte do Brasil.
E esse ambiente está nascendo na região, ainda de forma incipiente, mas com consistência. Há centros de bioeconomia funcionando, incubadoras em operação, startups resolvendo problemas reais com tecnologia e criatividade.
O que falta não é iniciativa. Falta escala. Falta o tipo de conexão que liga quem está construindo algo em Manaus com mentores, capital e mercados que estão em São Paulo, em Lisboa ou em Nova York.
A Endeavor e o Sebrae juntos têm poder catalisador real para isso. Ambientes de confiança são os verdadeiros motores do crescimento. Mentorias, trocas genuínas e o empurrão para quem está achando que o tamanho que tem já é suficiente.
Quando esse suporte chega para quem vive à beira dos rios e nas periferias de Manaus, Belém e outras grandes cidades, o efeito se multiplica, passa para a próxima geração e cria um ciclo virtuoso que nenhuma política assistencialista consegue replicar.
O Fundo Amazônia, arquitetado pelo Fundo de Impacto Estímulo, o qual sou um dos fundadores, surge como um dos caminhos para levar mais prosperidade financeira aos empreendedores da região. Essa iniciativa busca criar oportunidades especialmente para quem vive nos centros urbanos da Amazônia, impulsionando a economia local.
O ponto central é simples: a floresta vai ficar em pé desde que o povo que mora nela fique em pé, com dignidade e com renda.
A árvore em pé tem valor crescente no mercado global. Mas esse valor precisa chegar para quem vive na região. E a única forma sustentável de fazer isso é pelo empreendedorismo de alto crescimento e alto impacto.
O mundo está de olhos para a Amazônia. Já passou da hora de o fomento ao empreendedorismo também estar.
Wilson Poit, ex-secretário municipal de São Paulo, co-fundador do Fundo Estímulo, mentor da Endeavor Brasil e conselheiro do Sebrae e da FIESP.