Quinze anos de qualquer coisa é um marco que convida à reflexão. Mas quando você dedica esse tempo a investir em empresas que se propõem a resolver problemas reais na vida de pessoas reais, isso é ainda mais especial.

Ao longo desse período, vi surgir milhares de empresas e acompanhei de perto algumas dezenas delas, participei de conselhos, apoiei empreendedores e vi diversas empresas darem errado. Destas histórias, tem uma em particular que me marcou bastante: a de duas apostas que fizemos no mesmo tema – inclusão financeira – com desfechos radicalmente diferentes.

Começo com Dona Maria da Coxinha. Ela vendia salgados na porta de uma escola no interior do Ceará. Quando a conheci em uma visita de campo promovida pela Avante, uma das maiores fintechs de microcrédito do Nordeste, ela tinha acabado de receber seu primeiro empréstimo: R$ 1.700, sem garantia, sem aval solidário.

Com o dinheiro, comprou uma fritadeira nova e aumentou o estoque de ingredientes. Seu faturamento subiu. Meses depois, renovou o crédito. E subiu de novo...

Na metade da década passada, falar em inclusão financeira no Brasil significava algo muito concreto: levar dinheiro e serviços básicos a milhões de pessoas que não tinham acesso a praticamente nada do sistema financeiro formal. O Brasil tinha mais de 10,5 milhões de pequenas empresas com no máximo cinco funcionários, a maioria informal. Entre elas, 94% não usavam crédito.

O propósito de ampliar o acesso a serviços financeiros de qualidade nos levou a investir na Avante em meados de 2014. Ela era uma fintech de microcrédito que enviava agentes com tablets para visitar microempreendedores no Ceará, Maranhão, Pernambuco e Paraíba, em uma época em que a maior parte dos processos de empréstimo eram morosos e feitos com papel e caneta.

Esse mesmo propósito nos levou à segunda aposta, no final de 2018, na Celcoin. A empresa tinha sido fundada em 2016 com a ideia de criar uma conta digital para desbancarizados. Não funcionou como planejado – 90% das transações vinham de 5% da base.

Com medo de que esse dado fosse um indicador de fraude, os empreendedores foram a campo e descobriram que pequenos comerciantes estavam usando o aplicativo não para si mesmos, mas para oferecer o serviço de pagamento de contas aos seus clientes.

No jargão de startups, eles “pivotaram”. Transformaram em um aplicativo que permitia que qualquer lojinha de bairro se tornasse um posto de atendimento bancário, com pagamento de contas, recargas, saques. Parece estranho hoje, mas naquela época mais de dois terços das transações financeiras no Brasil eram liquidadas em dinheiro físico.

Para ambas, investimos também em medir o impacto com rigor. Na Avante, a avaliação publicada no Journal of Policy Modeling com análise de mais de 240 mil registros identificou que o acesso a crédito aumentava quase 5% o faturamento e os lucros dos empreendedores, com efeito maior para quem acessava por mais tempo. Na Celcoin fizemos, o Insper Metricis identificou que, nas cidades com a plataforma, as pessoas gastavam 11 minutos e R$ 4 a menos por semana para pagar suas contas.

A Avante atendeu mais de 56 mil tomadores entre 2016 e 2019 – talvez o quarto ou quinto maior programa de microcrédito privado do país. A Celcoin, no mesmo período, já tinha milhares de agentes espalhados por todas as regiões do Brasil, servindo milhões de consumidores. O impacto de ambas era real, documentado, publicado.

O choque de março de 2020

A pandemia de Covid-19 foi, para o ecossistema de inclusão financeira no Brasil, uma força ao mesmo tempo destrutiva e transformadora. Para a Avante, foi devastação. Os empreendedores que ela servia – em sua maioria comerciantes informais, vendedores ambulantes ou donos de pequenas barracas – perderam renda do dia para a noite com as políticas de distanciamento social.

A inadimplência da carteira sofreu choques profundos. A empresa que, apesar de ter crescido de forma impressionante e estar atendendo dezenas de milhares de empreendedores, ainda era uma startup que queimava caixa e buscava sustentabilidade para seu modelo de negócio (realidade da imensa maioria das startups).

Sem um colchão de capital para absorver o impacto, a carteira de crédito e o negócio como um todo foram absorvidos por um conglomerado financeiro. Os fundadores e sócios seguiram para outras atividades e o negócio “deu errado”. O impacto nos empreendedores foi real. O veículo que o entregava não sobreviveu.

Mas a mesma pandemia, que foi a “pá de cal” para a Avante, foi força radicalmente transformadora para a Celcoin. Quando o governo precisou distribuir o Auxílio Emergencial a milhões de trabalhadores informais sem conta bancária, a Caixa Econômica Federal promoveu a maior onda de bancarização da história do país (e talvez um dos maiores movimentos de inclusão financeira do mundo).

Toda a infraestrutura tecnológica que a Celcoin havia construído para os agentes da Rede Celcoin – as APIs no jargão da tecnologia – passou a ser oferecida aos bancos digitais, varejistas e fintechs que precisavam de serviços financeiros básicos para acessar essa população de forma a conseguir construir suas ofertas sobre essa infraestrutura.

A tecnologia da Celcoin foi crucial para permitir que novos empreendedores competissem em pé de igualdade com os grandes bancos e, hoje, a Celcoin processa dezenas de bilhões de reais por mês, conecta centenas de fintechs e bancos digitais e é uma das maiores infratechs financeiras da América Latina.

As lições das escolhas

Olhando para essas duas histórias lado a lado – mesmo propósito, mesmo choque externo, desfechos opostos – um aprendizado se destaca depois de quinze anos nessa agenda.

Investir com propósito dá certo. A Avante teve impacto incrível nos empreendedores que serviu. Pode não ter sido um bom investimento financeiro, mas deixou um legado: evidências robustas de que o microcrédito funciona, levando o Brasil para periódicos científicos internacionais.

E o mesmo motor de propósito que nos levou à Avante nos levou também à Celcoin – que é hoje uma das razões pelas quais o nosso segundo fundo se encontra no topo dos retornos globais da indústria de venture capital. Propósito não é oposto de retorno. Muitas vezes, é o que te leva a enxergar oportunidades que outros não veem.

O Brasil deu passos gigantescos na última década. Bancarizamos milhões. Criamos o Pix. Temos fintechs de classe mundial. Mas ainda não respondemos uma pergunta que me persegue todo dia: como garantir que o acesso a produtos e serviços básicos chegue – e continue chegando – a quem mais precisa. As histórias da Avante e da Celcoin mostram que propósito é a melhor bússola para investir e dão pistas de como perseguir uma resposta.

*Gilberto Ribeiro de Oliveira Filho é mestre em Economia pelo Insper e há quinze anos atua como sócio e chefe de investimentos da Vox Capital, gestora pioneira em investimentos de impacto no Brasil.