Quem acompanha o noticiário corporativo pode ter a falsa impressão de que a sustentabilidade perdeu o fôlego. Após um período de onipresença da sigla ESG, o tema parece ter cedido espaço para as urgências da inteligência artificial ou as oscilações macroeconômicas.
No entanto, um olhar atento aos dados mais recentes do mercado de capitais brasileiro revela um fenômeno muito mais profundo e sofisticado: a agenda de sustentabilidade não está morrendo; ela está amadurecendo e se integrando progressivamente aos mecanismos de gestão das companhias.
Os dados da 4ª edição da pesquisa Retrato da Sustentabilidade no Mercado de Capitais, realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, mostram que 80% das instituições financeiras atribuem alta importância ao tema. O que mudou, essencialmente, foi a natureza dessa relevância.
Se em 2021 vivíamos o auge do entusiasmo, hoje o movimento é de consolidação. A sustentabilidade deixou de ser a "vedete" para se tornar uma realidade operacional, inserida no radar das instituições não mais como uma tendência externa, mas como um elemento estratégico de valorização e sobrevivência.
Essa transição do aspiracional para o pragmático é visível no cotidiano das organizações. Para 85% das instituições brasileiras, a sustentabilidade já faz parte das atividades do dia a dia. Nesse cenário, as gestoras de recursos (assets) funcionam como um termômetro preciso da profundidade dessa mudança.
Representando 74% das instituições respondentes, essas casas operam em um ambiente onde o pragmatismo financeiro dita o ritmo, e os dados mostram que elas estão movendo o ESG do campo ético para o centro da tomada de decisão.
Atualmente, 78% das gestoras já consideram o impacto das questões ambientais, sociais e de governança na hora de tomar decisões de investimento. Mais do que uma escolha filosófica, essa integração é impulsionada pela gestão de riscos: para 51% das assets, esse é o principal motivo para adotar critérios sustentáveis, um avanço significativo em relação aos 45% registrados em 2021.
O mercado está compreendendo que a sustentabilidade é, em última análise, sobre a viabilidade do negócio no longo prazo e a mitigação de riscos que antes eram ignorados pelos modelos tradicionais.
A institucionalização do tema dentro das gestoras é outro sinal claro de que a agenda se tornou um elemento crítico de gestão. Mais da metade das casas (55%) já conta com documentos internos formais e políticas específicas de investimento responsável, um salto notável frente aos ciclos anteriores.
Além disso, a pauta deixou de ser restrita a comitês isolados para permear a estrutura operacional: 58% das gestoras oferecem treinamento e capacitação técnica em ESG para suas equipes, e o percentual de casas com estruturas dedicadas exclusivamente ao tema mais que dobrou em quatro anos, chegando a 13%. O engajamento ativo também ganhou corpo, com 53% das gestoras interagindo com as empresas investidas para aprofundar análises ou influenciar a gestão.
Para entender como isso opera na prática, basta observar as decisões de alocação reportadas pelas casas que já tratam o tema com maturidade. Quatro em cada dez gestoras brasileiras afirmam ter excluído ou deixado de investir em ativos específicos nos últimos 12 meses devido a fragilidades ambientais, sociais ou de governança.
Outra aplicação concreta ocorre no valuation: gestoras têm aplicado descontos no valor estimado de empresas que não apresentam planos de transição claros, tratando a inércia em sustentabilidade como uma deficiência financeira que reduz o valor justo da companhia no mercado.
Em suma, a sustentabilidade está deixando a vitrine para ocupar o seu devido lugar: o "sistema operacional" do mercado de capitais. Ao se tornar integrada aos mecanismos de gestão, ela perde o brilho efêmero das modas corporativas, mas ganha a solidez necessária para orientar o uso de recursos em um futuro complexo.
A Resolução CVM 193, que exige o relato de informações financeiras ligadas à sustentabilidade a partir de 2027, será apenas o coroamento de um processo que já está em curso dentro das salas de decisão. O barulho do noticiário pode ter diminuído, mas a integração estratégica nunca foi tão forte.
*Marcos Trindade é sócio e CEO da FSB Holding e Danilo Maeda, diretor-geral da Beon