Não há dúvidas de que o presidente da Venezuela, capturado pelos Estados Unidos, no sábado, 3 de janeiro, é um ditador execrável que fraudou as eleições de 2024 para se manter no poder, onde está desde 2013, quando Hugo Chávez morreu.

Durante esse período, um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) trouxe detalhes sobre os abusos de Maduro, acusando-o de assassinatos, tortura, violência sexual e detenções arbitrárias contra opositores políticos.

Com a instabilidade econômica e política do país desde os tempos de Chávez (que assumiu como presidente pela primeira vez em 1999), estima-se que 15% da população venezuelana deixou a Venezuela em busca de uma vida melhor nos países vizinhos, especialmente na Colômbia e no Brasil.

Nada disso, no entanto, justifica a operação dos Estados Unidos que capturou Maduro sob a acusação de narcotráfico e terrorismo. O real interesse, como Donald Trump deixou claro, sem meias palavras, são as gigantescas reservas de petróleo do Venezuela, as maiores do mundo. Até porque o discurso de enfrentar o narcoterrorismo não se sustenta quando o próprio Trump deu indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado nos EUA no ano passado a 45 anos de cadeia por tráfico de drogas.

A ação dos Estados Unidos burla também as leis internacionais e a própria legislação americana, que prevê autorização do Congresso para operações militares desse porte. Trump volta aos tempos da Doutrina Monroe e do “Big Stick” (o Grande Porrete, em tradução livre) em pleno século XXI.

A Doutrina Monroe, criada em 1823 pelo presidente James Monroe, era uma política externa dos EUA que estabelecia que qualquer intervenção europeia no continente americano seria vista como hostil, mas evoluiu para justificar o intervencionismo na América Latina, com o objetivo de consolidar sua influência e hegemonia na região. Já o Big Stick era o estilo de diplomacia usado pelo presidente Theodore Roosevelt Jr. (entre 1901 e 1909) e é autoexplicativo.

Donald Trump declarou que os Estados Unidos vão “administrar a Venezuela” até que uma transição apropriada ocorra. A frase soa como um eco de tempos coloniais, quando potências decidiam o destino de nações soberanas. A pergunta inevitável é: Trump teria a mesma coragem de fazer isso com a Arábia Saudita ou com o Catar, que são regimes autoritários? A resposta é óbvia: não. Quando interesses econômicos e geopolíticos se alinham, a retórica da “libertação” desaparece.

A ação na Venezuela inaugura uma nova era sombria para as relações internacionais e para a região latino-americana. Do lado global, as superpotências podem se considerar no direito de intervir em qualquer país. A Rússia, por exemplo, pode se considerar empoderada para tomar de vez a Ucrânia. E a China, que realizou recentemente exercícios com armamento real próximo a Taiwan, pode tomar coragem para invadir o país que Pequim considera uma província rebelde.

Do lado latino-americano, a doutrina de Trump abre um precedente perigoso e dá margem para que o presidente dos Estados Unidos possa interferir em nações soberanas da região. O próximo alvo pode ser Cuba, a Nicarágua ou, quem sabe, o Brasil.

O cientista político Ian Bremmer, presidente do Grupo Eurasia e um dos nomes mais influentes na análise de cenário internacional, deixou claro, em vídeo, que o recado de Trump, ao intervir na Venezuela, vai além da Venezuela. Para ele, ao demonstrar capacidade de remover um governo indesejado, os Estados Unidos tornam “as soberanias nacionais muito mais vulneráveis”, especialmente em seu entorno regional.

“Se Trump não gosta de um líder e acha que pode removê-lo, ele vai fazer isso”, afirma Bremmer no vídeo. E conclui: “Isso é a lei da selva”. A ação de Trump deixa o planeta mais instável. E isso não é bom para ninguém no mundo ou no Brasil – seja você de direita ou de esquerda.