Com menos de um ano de track record e criada por dois amigos sem grande experiência no mercado financeiro, a gestora catarinense Quantimatics passaria despercebida pela maioria dos investidores.

Mas a capacidade de execução que, até agora, seus modelos quantitativos têm apresentado foi suficiente para atrair a atenção da Falcon Capital, uma firma de Londres, com € 300 milhões sob gestão e € 4 bilhões administrados.

Em vez de investir pesado apenas em análise própria - como é de praxe nesse mercado -, a Falcon aposta alto em gestoras emergentes ao redor do mundo. Para isso, criou o multi-manager programme, um acelerador de assets que, assim como startups, recebe um cheque para mostrar do que são capazes.

Apenas 15 gestoras foram selecionadas no mundo, sendo a Quantimatics a primeira brasileira a receber o aporte dos ingleses. O primeiro fundo apoiado pela gestora britânica iniciou com R$ 10 milhões sob gestão. Desse valor, a Quantimatics captou apenas R$ 1 milhão, enquanto a Falcon entrou com os 90% restantes.

A Falcon também se comprometeu a realizar novos aportes nessa mesma proporção para as próximas captações da Quantimatics. Com o aporte, a gestora, que tinha apenas R$ 2 milhões sob gestão, catapultou seu patrimônio para próximo de R$ 12 milhões.

“Nossos resultados são muito bons, mas não somos o J.P. Morgan, não viemos de fundos famosos. Então temos que conquistar nosso espaço”, diz João Guilherme Cruz, CEO e cofundador da Quantimatics, ao NeoFeed.

"Muitos gestores no Brasil fazem um bom trabalho, mas não sabem que é possível fazer esse tipo de captação. É uma forma de fazer o track record com um fundo grande", complementa ele, que criou a empresa junto com João Victor Fernandes, que é o CIO e CTO da gestora.

Engenheiros, os cofundadores se conheceram há seis anos e se tornaram amigos. Na época, cada um tinha sua própria startup: Cruz, a Tiffins, e Fernandes, a DieselBank. Ambas foram vendidas. Com o dinheiro, em 2023, decidiram empreender no ramo de gestão de recursos.

Sócios-fundadores da Quantmatic: João Guilherme Cruz, CEO; e João Victor Fernandes, CTO e CIO

Antes de abrirem a gestora, Cruz e Fernandes decidiram se aprofundar no modelo de negócio. Com gestoras multimercados sofrendo resgates de centenas de bilhões de reais no Brasil e com poucos fundos quantitativos conseguindo bons resultados no mercado local, a decisão foi olhar para fora.

Entre 2024 e 2025, a dupla montou a operação fora do país e se aprofundou nos modelos quantitativos voltados ao mercado internacional.

Com as estruturas registradas nas Ilhas Cayman e nas Ilhas Virgens Britânicas, o primeiro fundo da Quantimatics começou a operar há cerca de oito meses. Foram feitas cerca de 2 mil operações no período, sem que nenhuma tivesse intervenção humana.

“Usamos uma estratégia chamada scalping. Fazemos cerca de 25 operações por dia e, em cada uma delas, ficamos de 20 a 30 minutos na posição. Não é um trade de alta frequência. Mas também não é pouco”, diz o CEO.

A estratégia tem dado certo. Entre junho de 2025 e janeiro de 2026, o fundo rendeu, em dólar, 19,4%, operando apenas o par euro e dólar, no mercado de câmbio. A decisão de se especializar apenas nesses ativos, segundo Cruz, se deve ao alto volume de negociação, que supera US$ 2 trilhões por dia. “É praticamente 'imanipulável'”, diz ele.

Nos planos está a expansão das negociações para o mercado de commodities. “Isso ajudaria a diversificar a carteira. Não queremos ficar concentrados apenas em uma paridade. Em algum momento, faremos a negociação de vários pares de moedas. Mas precisamos de tempo e recursos para investir.”

Enxuta, a gestora tem apenas dois funcionários, além dos cofundadores: um analista, que acompanha o funcionamento do algoritmo durante as operações noturnas, e um estagiário que auxilia Fernandes na montagem de modelos. Todos trabalham remotamente.

O plano quando estiverem maiores, diz o CEO, é montar uma estrutura física em Florianópolis. A expectativa é que, com a aceleração da Falcon, esse objetivo esteja mais próximo.

O convite para participar do programa veio pelo LinkedIn. “Essa é uma indústria fechada e que ficou muito manchada no passado. Então, passei a criar muito conteúdo sobre o que é ser gestor de fundo e acabaram me chamando para bater um papo.”

“Para alguém que nunca geriu fundos profissionalmente, focado só em inteligência, ser aceito por um fundo estratégico com mais de R$ 1 bilhão sob gestão é uma superconquista.”

Uma mão lava a outra

O fundo originado da parceria, embora gerido pela Quantimatics, fica sob a tutela da Falcon Capital e é distribuído apenas na Europa e no Reino Unido. Cruz afirma, no entanto, que toda a proteção intelectual dos algoritmos fica restrita à sua gestora.

O programa First Loss (Primeira Perda, na tradução literal), para o qual a Quantimatics foi selecionada, prevê o pagamento de uma taxa de administração de 2,5% para a Falcon sobre o montante do fundo e a repartição da taxa de performance de 25% sobre todo o rendimento do fundo.

Nesse primeiro momento, toda perda da operação é da Quantimatics. Portanto, se o fundo cair 10%, a Quantimatics perde todo o dinheiro investido e a Falcon resgata os 90% por ela aportados. Caso dê lucro, 75% da taxa de performance vão para a Quantimatics e 25% para a Falcon.

“Estamos alavancados em Londres. É uma operação mais agressiva. Então, os fundos não costumam passar de US$ 10 milhões nesses programas. Nesse fundo, que começou a rodar em 2 de fevereiro, queremos ter entre R$ 10 milhões e R$ 25 milhões”, disse Cruz.

A expectativa do CEO é alcançar a segunda etapa desse programa, destinada aos fundos que conseguirem bater pelo menos 15% de retorno dolarizado em 12 meses.

Caso atinja o objetivo, a Quantimatics se tornaria apta a receber novos investimentos da Falcon sem a necessidade de aportar recursos próprios, além da garantia de um aporte extra de R$ 25 milhões a R$ 60 milhões.

Quanto à divisão dos fees, Cruz afirma que ainda não foram definidos os termos para a segunda etapa do programa.

Além de ser uma alternativa para captar em um momento ainda desafiador para fundos multimercados, o CEO vê o programa como uma chance de ganhar mais visibilidade no exterior.

Cruz conta que um dos objetivos deste ano é levantar US$ 1 milhão em uma rodada seed para aumentar a estrutura da Quantimatics. Sem qualquer acordo de exclusividade com a Falcon, o CEO segue mantendo conversas com potenciais investidores internacionais, além de buscar recursos para seus fundos via family offices.

A pretensão é chegar a R$ 35 milhões sob gestão até o fim do ano, considerando tanto sua estrutura original como a criada em parceria com a Falcon.