A inteligência artificial generativa vai matar o software? Essa pergunta já vinha alimentando acaloradas discussões no mercado. Mas esse debate pegou fogo, de fato, em janeiro deste ano, quando a americana Anthropic, uma das protagonistas dessa onda, anunciou novos recursos da sua plataforma.

Entre outras questões, o lançamento reforçou os argumentos de que a IA generativa cria um atalho para que qualquer usuário desenvolva seus próprios sistemas, o que derrubaria as barreiras de entrada e, consequentemente, colocaria em xeque a sobrevivência das empresas do setor.

Muito além das palavras, os efeitos se traduziram numa queda brutal das ações das companhias de software nas semanas seguintes. O que trouxe reflexos, inclusive, no mercado brasileiro de capitais. Em particular, para a Totvs, principal player local do setor, que viu suas ações chegarem a cair mais de 10%.

“Isso é uma bobagem. Eu considero a visão do mercado nesse momento completamente errada”, diz Dennis Herszkowicz, CEO da Totvs, em entrevista ao NeoFeed, quando questionado sobre a possibilidade de um fim de linha para os softwares.

“Não dá para falar de software de maneira geral. É como falar do mercado de saúde, onde tem o plano de saúde, o hospital, o médico, a indústria farmacêutica, com dinâmicas completamente diferentes entre si. E o software é a mesma história.”

Ao rebater a narrativa de que as empresas de software respiram por aparelhos, ele cita o caso da própria Totvs e o seu segmento de atuação nesse “quadrado” – os softwares de gestão empresarial, mais conhecidos como ERPs. Bem como as vantagens que a companhia tem dentro de casa.

“As proteções que a Totvs sempre teve continuam absolutamente intactas”, afirma, citando, por exemplo, o fato de que a base de clientes da empresa representa um quarto do PIB brasileiro. “Como alguém consegue replicar isso simplesmente através de Vibe Coding?”

Na conversa, entre outros temas relacionados, ele dá mais detalhes de como a Totvs, avaliada em R$ 21,6 bilhões, está enxergando e se preparando para esse cenário. Confira:

A IA generativa vai matar o software?
Não, isso é uma bobagem. É evidente que não. Existe uma visão muito rasa em momentos de mais nervosismo de que o negócio de software é um business de criar código. Seria a mesma coisa que dizer que o business de carros é o aço do veículo. O código é um insumo. E, na prática, até hoje, todas as vezes que ele ficou mais barato e mais fácil de ser desenvolvido, quem mais se beneficiou disso foram exatamente as empresas de software. Então, para nós, não vai ser diferente agora.

Como você avalia a queda recente das ações do setor a partir dessa tese, inclusive da Totvs?
Eu considero a visão do mercado nesse momento completamente errada e vou além. Nós anunciamos um programa de recompra da nossa ação que é o maior da história da Totvs. Então, estamos colocando, a preço de tela de hoje, praticamente R$ 800 milhões em recompra. Ou seja, não é só o discurso, o nosso bolso está efetivamente suportando essa nossa visão. E tem outro aspecto que é importante.

Qual?
Não dá para falar de software de maneira geral. Esse também é um erro. É como falar do mercado de saúde, onde tem o plano de saúde, o hospital, o médico, a indústria farmacêutica, com dinâmicas completamente diferentes entre si. E software é a mesma história. É um mercado trilionário, gigantesco e com características completamente diferentes, prateleiras diferentes entre produtos. E sim, alguns softwares estão mais sujeitos ao risco.

"Existe uma visão muito rasa em momentos de mais nervosismo de que o negócio de software é um business de criar código. Seria a mesma coisa que dizer que o business de carros é o aço do veículo"

Em quais vertentes de software você entende que poderá haver mais impactos?
Quanto mais simples e menos crítico ele é, ou seja, quanto mais fácil de você implantar, de operar e menos consequente for um erro, naturalmente há mais risco de alguma coisa diferente surgir. Mas isso não é algo que surgiu com a IA. Já é assim desde o dia que o software apareceu. E isso vale para tudo. Se o que você faz é muito simples, é mais fácil te substituir.

E quanto ao ERP, especificamente. Quais são os riscos embutidos nessa onda?
Francamente, eu vejo poucos riscos para o mercado de ERP. O maior que nós temos, e eu tenho falado isso para os investidores, é o risco normal de uma empresa ser complacente ou incompetente. Mas esse é um risco que eu acho bom de ser comprado, porque a Totvs não nasceu ontem, ela tem 43 anos não sendo complacente e muito menos incompetente. E eu não tenho a menor dúvida de que o ERP, onde a Totvs está, é a melhor prateleira dentro desse mercado.

Por quê?
Exatamente porque ele tem uma amplitude, uma cobertura dentro do cliente, que é incomparável. Não existe nenhuma aplicação que tenha o perímetro de cobertura que o ERP tem e, ao mesmo tempo, não é só esse perímetro, é a criticidade. Tudo que é feito dentro do ERP é crítico, você não pode errar. Então, isso naturalmente dá uma relevância para o ERP que nenhum outro software de mercado tem.

Um dos argumentos dessa tese é de que a IA vai derrubar barreiras de entrada. Como fica a Totvs nesse contexto?
As proteções que a Totvs sempre teve continuam absolutamente intactas e vão continuar. São aplicações absolutamente críticas. Qualquer erro no ERP custa dinheiro para o cliente. E temos uma base de clientes que representa um quarto do PIB brasileiro, e com um nível de relacionamento brutal. Se alguém me disser que isso vai ser substituído, que me explique como. Eu realmente não consigo ver.

Quais outras barreiras permanecem intactas?
Estamos falando de todos os dados gerados exatamente por esse um quarto do PIB trafegando diariamente nos últimos 43 anos pela Totvs. O que dá um conhecimento que não é público. Que não está disponível na internet para ser consumido por outros. É o conhecimento dos processos não apenas da empresa A ou B, mas do setor como um todo. E temos uma plataforma de distribuição que cobre o Brasil inteiro. Como alguém consegue replicar isso simplesmente através de Vibe Coding?

"Um investidor me perguntou o que a Totvs estava fazendo para se defender da IA. E a minha resposta foi: não estamos fazendo nada para nos defender. Estamos fazendo para aproveitar e atacar com IA"

Mas você não enxerga nenhuma ameaça para a Totvs com a IA?
A IA não é uma ameaça. Ao contrário. Um investidor me perguntou o que a Totvs estava fazendo para se defender da IA. E a minha resposta foi: não estamos fazendo nada para nos defender. Estamos fazendo para aproveitar e atacar com IA. Essa é a maior oportunidade que tivemos em vários anos.

Por quê?
Quando alguém contrata o nosso ERP, precisa ter uma quantidade "x" de pessoas para operar esse software. O dinheiro gasto com isso é brutalmente maior do que a própria aplicação. Então, uma empresa que fatura R$ 1 bilhão vai gastar, se muito, R$ 2 milhões por ano nesse software que controla tudo nela. Só que ela gasta 15, 20 vezes mais com os usuários para desempenhar as tarefas. O que a IA traz para nós - e essa é a grande jogada - é essa habilidade, por meio da construção de agentes. Estamos falando aqui de um mercado endereçável 15 a 20 vezes maior.

Qual é o espaço a empresa quer ocupar nesse cenário de mudanças trazidas pela IA generativa?
Nós não somos uma empresa que vai disputar capacidade computacional de IA, modelo de LLM e chip para IA. Esses são papéis para meia dúzia de empresas no mundo inteiro. É uma briga trilionária que evidentemente não é nossa. A nossa briga e nos tornarmos o maior fornecedor de agentes que desempenham tarefas para melhorar a performance do nosso cliente. Essa é a nossa visão de AI. E a LYNN é um resultado direto dessa visão.

A LYNN veio embalada em uma abordagem de IA especializada. O que é, de fato, esse conceito?
Quando você está falando do uso de AI pela pessoa física, para fazer um resumo de um texto, preparar um e-mail, usar um modelo generalista te ajuda. Agora, no mundo corporativo, no CNPJ, se eu estou criando um agente que vai, por exemplo, ajudar a recolher corretamente os impostos da empresa, o inverso é verdadeiro. Se esse modelo tiver dentro dele respostas de como se frita um ovo ou o que vai acontecer na guerra do Irã, isso é um problema.

E quanto ao modelo de software como serviço (SaaS), que também tem levantado dúvidas nesse contexto, como você enxerga o futuro desse formato?
Na nossa cabeça, o formato de SaaS vai continuar absolutamente válido para a aplicação e a nuvem. Agora, nós estamos criando uma nova modalidade que chamamos de TaaS, que é o Task as a Service. Mas, para nós, ela se soma ao SaaS.

E quanto aos M&As, outra frente pela qual a Totvs é conhecida. Eles seguem no escopo?
Sem dúvida. Inclusive, assumimos a Linx recentemente, que é um exemplo de M&A que não foi feito por causa de IA, mas que se beneficia integralmente de todo esse investimento que estamos fazendo, inclusive da LYNN, porque ela tem exatamente as mesmas vantagens competitivas que a Totvs.

E quais são os próximos passos da integração da Linx agora com a empresa dentro de casa?
Nós conhecemos a empresa, sempre tivemos algum grau de proximidade, mas é óbvio que a operação passou cinco anos na mão da Stone. Então, tem um trabalho cuidadoso de entender exatamente como estão as coisas e quem são as pessoas. Esse é o primeiro trabalho, o foco maior. A partir desse dessa aproximação, uma série de decisões e ações vão começar a ser tomadas. Mas é certo que a Linx não vai ser uma empresa independente e que será totalmente integrada no nosso business de gestão.