Juros nas alturas, crédito caro, dívidas elevadas e consumidores com o bolso cada vez mais apertado. Essa equação tem cobrado uma fatura indigesta de boa parte do varejo brasileiro, expressa em um volume crescente de empresas vivenciando crises de liquidez e recorrendo a recuperações judiciais.

A Loungerie está seguindo, porém, na contramão desse “modo sobrevivência” do setor. Depois de passar os últimos 15 meses mergulhada em suas finanças, a rede de moda íntima feminina está pronta para sair dos bastidores e estampar na vitrine um novo plano.

Essa nova etapa tem como ponto de partida um reposicionamento da varejista, que passa por movimentos como a remodelação das lojas e do site da marca, além da expansão do seu portfólio. E que tem como destino um mercado endereçável de R$ 21 bilhões.

“É como se nós tivéssemos passado os últimos 15 meses dentro de casa. Agora, estamos iniciando um novo ciclo e vamos começar a mostrar o que fizemos”, diz Juliano Ohta, CEO da Loungerie, ao NeoFeed. “Com esse reposicionamento, nossa meta é dobrar de tamanho em quatro anos”.

Ele não revela números consolidados da operação - os últimos dados públicos disponíveis apontam para um faturamento de R$ 350 milhões da Loungerie em 2022. O novo projeto também vinha sendo guardado a sete chaves.

Fruto de um trabalho de mais de nove meses em parceria com FutureBrand e que envolveu entrevistas com mais de mil clientes, essa virada está sendo marcada por um rebranding da companhia, que passa a adotar uma nova identidade visual e a assinatura “Você faz a ocasião”.

“A mulher de hoje tem uma relação muito mais ampla com a lingerie. Ela busca produtos que ofereçam conforto e também sensualidade, e usa a lingerie inclusive para mostrar, como moda, até por fora da roupa”, diz Ohta. “Então, estamos saindo das ocasiões especiais para qualquer momento da vida dela”.

Essa transição vai se refletir em uma gama maior de produtos, o que explica o salto no mercado endereçável da rede, até então, de R$ 14 bilhões. Em direção à nova cifra, além de coleções de lingerie para diferentes ocasiões, a Loungerie vai reforçar sua oferta nas categorias de pijamas e loungewear.

Assim como as outras iniciativas do plano, essa ampliação do portfólio será gradual. Mas, no curto prazo, o calendário de lançamentos dá uma medida do que vem pela frente. Até o fim de 2026, estão previstas mais de 45 coleções, um crescimento de mais de 50% em relação ao que a rede vinha fazendo.

Esse apetite, entretanto, não se estende à entrada em novas categorias. Ao menos, não no curto prazo. “Essa é uma tentação muito grande, mas uma tentação perigosa”, diz o CEO. “Então, nosso foco nos próximos dois anos vai ser o fortalecimento dos segmentos de lingerie, pijamas e loungewear”.

Ohta também adota a mesma postura mais cautelosa quanto aos investimentos na divulgação da nova marca e do reposicionamento da rede, que serão mais comedidos e irão acompanhar gradativamente a evolução desse processo.

“Eu não acredito em fazer big bang no varejo e em grandes campanhas de virada de marca”, afirma. “Acho que faz mais sentido que a cliente perceba de verdade no dia a dia e na experiência direta com a marca. Por isso, estamos direcionando os recursos para melhorar em todos os pontos de contato”.

Uma dessas frentes é o novo site da marca. Com uma navegação mais intuitiva e poucos cliques, ele traz vídeos, calculadora de tamanhos e filtros de cor, estilo e modelo, além da possibilidade de combinar produtos e checar os descontos disponíveis de acordo com cada “carrinho” escolhido.

A partir de novembro, essa nova roupagem também começará chegar às lojas físicas, em um projeto também desenvolvido com a FutureBrand. E que vai se traduzir em estratégias para comunicar melhor a ampliação do escopo da varejista nos pontos de venda.

Com uma base atual de 121 lojas, sendo 47 próprias e 74 franquias, a Loungerie prevê inaugurar mais três unidades ainda em 2026. O plano para 2027 ainda não está fechado. Mas a ideia, a princípio, é acelerar as inaugurações e o principal caminho para viabilizar essa expansão já está definido.

A rede vai priorizar o formato box, com tamanhos que variam entre 50 e 69 metros quadrados, e que demandam um investimento inicial entre R$ 400 mil e R$ 500 mil. Esse é o modelo considerado como ideal por Ohta para ampliar a presença nas capitais e chegar a cidades menores.

Apesar da intenção de dar maior velocidade a essa expansão, o CEO não ignora as projeções de um cenário macro ainda mais desafiador à frente. E ressalta que, nesse contexto, a Loungerie tem sido bastante rigorosa e seletiva tanto na escolha dos franqueados como nos pontos de venda.

“Queremos acelerar, mas se não acharmos ótimos franqueados e ótimos pontos, não vamos fazer. No limite, vamos abrir zero lojas”, diz Ohta. “Não estou disposto a fazer expansão a qualquer custo. Eu não trabalho com palavras separadas. E a palavra de ordem aqui é crescimento rentável”.

Lição de casa

É justamente essa ótica que guiou os primeiros passos de Ohta à frente da Loungerie – o executivo assumiu o comando da rede em maio de 2025. E que agora permitem que a varejista tenha uma situação mais confortável para fazer esse reposicionamento.

Nesse intervalo, além de readequar a equipe e a reformular a cultura da empresa, a prioridade do CEO foi melhorar a liquidez da operação. Um dos focos foi a “limpeza” dos estoques, eliminando coleções antigas e investindo em peças de maior saída, o que trouxe um ganho de 46% no giro de produtos.

Em uma outra medida, ainda em curso e agora turbinada pela inteligência artificial (IA), a Loungerie passou a investir na clusterização de suas lojas, por meio de filtros como tamanho, perfil de cliente e localização, para adequar o mix de cada unidade.

A varejista também negociou prazos maiores com fornecedores e reduziu em cerca de 20% o ciclo de recebimento dos pagamentos das clientes. Além de sair de algumas categorias, especialmente em acessórios, e de encerrar o projeto do The Lounge, seu marketplace, visto como uma “distração”.

Embora não revele números consolidados, Ohta diz que, a partir desse pacote, a Loungerie reduziu seu capital de giro em 40% e, sua dívida, em 51%, sem recorrer a qualquer alavancagem financeira externa. E acrescenta, reforçando o mantra da rentabilidade:

“Nós fizemos a lição de casa, mas isso não significa que vamos esquecer tudo e crescer absurdamente”, afirma. “Temos essa meta de crescimento em quatro anos, mas se não dobrarmos o faturamento nesse intervalo e multiplicarmos o resultado por quatro, eu estarei muito mais satisfeito”.