O empresário Nelson Tanure, que teve o celular apreendido pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quarta-feira, 14 de janeiro, passou a ser investigado de forma mais aprofundada por seu papel na rede de influências associada ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Antes da operação, Tanure foi alvo de investigação na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ao lado do Banco Master, por um suposto esquema para inflar o preço das ações da Ambipar, que está recuperação judicial.
Fundos administrados pelo Master, como o Vexor e o Texas FIA, também tinham participação na companhia. No fundo Texas, inclusive, a Rioprevidência - investigada por investir quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do Master - havia feito um aporte de R$ 100 milhões.
No fim do ano passado, o fundo tinha cerca de 90% da carteira exposta às ações da Ambipar, com o restante dividido entre Emae e Alliar, empresas também relacionadas a Nelson Tanure.
Tanure fazia também parte relevante de suas movimentações a partir de fundos geridos pela MAM Asset, gestora do grupo de Vorcaro. Foi por meio do fundo Bordeaux FIP Multiestratégia, gerido pela MAM Asset, que Nelson Tanure venceu o leilão da Copel Telecomunicações, com uma oferta de R$ 2,5 bilhões.
Nos formulários de referência, o Bordeaux aparece, atualmente, ao lado do fundo Garonne como os únicos sócios da companhia, ambos geridos pelo Banco Master. No mesmo documento, os fundos são atribuídos ao empresário Nelson Tanure e a Artur Martins de Figueiredo.
Figueiredo é diretor responsável pela Banvox, investigada na Operação Carbono Oculto, que apurou a ligação entre o mercado financeiro e esquemas de lavagem de dinheiro atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele também foi diretor da Trustee, administradora de parte relevante dos fundos vinculados a Tanure.
As ligações de Nelson Tanure com a Banvox também aparecem em outro fundo do empresário gerido pela MAM Asset, o Estocolmo. No veículo — que já foi utilizado por Tanure para assumir uma posição agressiva na Gafisa —, R$ 386 milhões estão alocados em debêntures da Banvox.
Outros R$ 232 milhões do fundo Estocolmo estão investidos em participações no Bordeaux Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, veículo com patrimônio de R$ 2,6 bilhões que concentra os investimentos na Bordeaux Participações, que levou o leilão da Copel Comunicações.
Na Bordeaux Participações, documentos oficiais apontam que o responsável pelas operações é Silvio Barreto da Silva, procurador de Tanure em outros negócios. Um outro veículo gerido pelo Master, o fundo Opus FIP Multiestratégia RL, tem cerca de R$ 1 bilhão em debêntures da Bordeaux.
A posição no fundo Bordeaux é compartilhada com o Ilha Patmos FIM CP IE, que é o maior fundo gerido pela MAM Asset, com R$ 3,12 bilhões de patrimônio. Sua maior exposição é no fundo Phoenix FIP Multiestratégia RL, com R$ 2,2 bilhões alocados. A estrutura é a mesma que Tanure utilizava para ter exposição à EMAE.
O Ilha Patmos também possui R$ 87 milhões de exposição ao fundo Savana FIP Multiestratégia e R$ 18 milhões no Fonte Saúde FIP Multiestratégia, que investe em ações da Alliar. Outros R$ 983 milhões do fundo estão alocados em posições lançadas de opções da PRIO e R$ 675 milhões em posições titulares em opções da PRIO.
Impossibilitados de avaliar
Na última demonstração financeira do fundo Ilha Patmos, dos exercícios de 2023 e 2024, a RSM, responsável pela auditoria, se recusou a dar uma opinião sobre suas operações por não terem sido entregues as demonstrações financeiras dos fundos investidos.
“Desta forma, mesmo tendo realizado determinados procedimentos de auditoria, ficamos impossibilitados de avaliar a existência de possíveis distorções sobre os registros contábeis dos Fundos Investidos, as quais, se existentes, afetariam os valores das cotas dos Fundos Investidos e, consequentemente, o valor do investimento do Fundo e o resultado por eles gerados”, diz a RSM em relatório de auditoria.
A conclusão é semelhante à de outras auditorias feitas em fundos geridos pelo Master e relacionados a Nelson Tanure.
No fundo Bordeaux, por exemplo, a auditoria BKR afirmou que “não nos foi possível obter evidência de auditoria apropriada e suficiente para fundamentar nossa opinião de auditoria sobre essas demonstrações financeiras”. A razão, afirmaram, foi a falta de demonstrações financeiras auditadas da investida Bordeaux Participações.
O desfecho também se repetiu no fundo Estocolmo, cuja consultoria Bakertilly se absteve de dar uma opinião por falta de informação do fundo Bordeaux e da Banvox, na qual tinha exposição via debêntures.
“Essas debêntures não são caracterizadas como ativos financeiros de alta liquidez e não possuem garantias reais quanto à sua efetiva realização”, diz a Bakertilly.
“Até a emissão deste relatório, a auditoria das demonstrações financeiras de 31 de dezembro de 2024 da companhia emissora das debêntures não havia sido concluída, o que impossibilitou a obtenção de evidência de auditoria suficiente e apropriada sobre o referido investimento”, concluiu a auditoria do fundo Estocolmo.
Em nota enviada ao NeoFeed, sua defesa afirmou que Tanure não tem "qualquer relação de natureza societária com o Banco Master, do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que é igualmente atendido por outras instituições financeiras conhecidas do mercado".
"O empresário Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure informa que a única medida que lhe foi imposta se resumiu à apreensão de seu aparelho de telefone celular, de modo que com isso o empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação", diz a nota.