Desde o anúncio de resultados do quarto trimestre de 2025 e do consolidado do ano, no dia 16 de março, a Natura viu suas ações subirem mais de 8%. Mais do que a confiança do mercado, o indicador foi um sinal de que o período de turbulência ficou para trás. A alavancagem, relação dívida líquida medida pelo Ebitda, que chegou a ser de 7,83 vezes, em 2022, hoje está em 1,31 vez. O lucro no ano alcançou R$ 486 milhões.
Agora, diante desse cenário, um novo desenho que acaba de ser proposto por seus acionistas deve fazer os papéis da companhia avançarem ainda mais e destravar um valor represado. A Advent, gestora de private equity dos Estados Unidos, se prepara para montar uma posição de 8% a 10% no capital da Natura, pagando um valor de R$ 9,75 por ação.
No total, a Advent deve desembolsar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,34 bilhão para comprar as ações que estão no mercado nos próximos meses. Não é a primeira vez que a gestora busca entrar em uma companhia de capital aberto. Ela fez isso no Fleury e na Yduqs da mesma forma. Mas não é algo corriqueiro. Afinal, ela é conhecida por entrar em empresas de capital fechado e depois levá-las à bolsa para realizar o lucro.
A gestora hoje tem participação majoritária na Skala, que se fundiu com a Lola from Rio em junho de 2025. A avaliação é que, se a Advent pretende entrar, é porque provavelmente está enxergando potencial valorização em papéis, que estão descontados.
Indagada pelo NeoFeed, a gestora mandou a seguinte declaração: “O potencial investimento na Natura reflete a confiança da Advent no plano estratégico da companhia, na qualidade de sua gestão e no mercado global de cosméticos, higiene e beleza.”
Essa tese é sustentada por analistas do mercado financeiro. O Santander, por exemplo, disse que a Natura “apresentou resultados melhores do que o esperado”, enxerga um preço-alvo de R$ 9,70 para os próximos 12 meses. Nesta segunda-feira, 30 de março, a ação fechou a R$ 9,24.
Para o BTG Pactual, a empresa registrou “progressos louváveis na simplificação da estrutura corporativa”, com resultados operacionais também acima do previsto. Mais otimistas, os analistas enxergam uma valorização de 39% para os próximos 12 meses, com um preço-alvo de R$ 12.
Além de um possível investimento estratégico, o segundo anúncio da companhia é emblemático. Trata-se da transição no conselho de administração. Os três fundadores, Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, deixam o board para integrar um novo conselho consultivo (leia a carta que eles escreveram aos stakeholders).

“Compreendemos que, neste momento de transição de um ciclo de simplificação para um ciclo de aceleração e inovação, um ajuste vigoroso e de renovação em nossa governança fazia-se necessário”, disseram os fundadores, na carta.
“Eles já vinham demonstrando o desejo de fazer essa transição, mas entenderam que era necessário esperar o momento ideal, com a empresa mais estruturada”, diz ao NeoFeed Fábio Barbosa, atual presidente do Conselho, que também deixará a função atual para fazer parte deste mesmo conselho consultivo.
“A companhia viveu um ciclo de simplificação e agora quer entrar em um ciclo de aceleração. Já faz tempo que a Natura entendeu que deveria voltar a se concentrar na América Latina e adotar a linha back to basics”, completa.
Com a ida de Barbosa para o conselho consultivo, o novo chairman da Natura será Alessandro Carlucci, que já foi CEO da empresa entre 2005 e 2014, e que desde abril de 2025 ocupa uma cadeira no conselho de administração. O CEO, João Paulo Ferreira, segue à frente da operação.
Seabra está indicando Luiz Guerra, que vem de seu family office; Pedro Passos está designando seu filho Guilherme Passos; e Guilherme Leal apontou Pedro Villares, que vem de seu family office Maraé Investimentos.
Além deles, mais duas novas conselheiras vão se juntar ao grupo nos lugares de Bruno Rocha, cofundador da gestora Dynamo, e Gilberto Mifano, ex-presidente da antiga BM&FBovespa, atual B3, que vai permanecer como líder do comitê de auditoria e finanças.
As duas novas integrantes são Gabriela Chaves Schwery Comazzetto, ex-diretora-geral do TikTok na América Latina, e Flávia Buarque de Almeida, ex-CEO da Península Participações e atual membro do conselho da Ultrapar. Uma com perfil mais digital e a outra com um histórico financeiro.
A assembleia do conselho que deve referendar as mudanças na governança da Natura está prevista para o dia 29 de abril. A Advent, por sua vez, terá seis meses para confirmar sua intenção de formar a posição na Natura.
“O nosso conselho deixa de ter um perfil mais financeiro e passa a ter um perfil com um foco maior no digital. Tudo isso sob a liderança do João Paulo e do Alessandro, que conhecem muito bem a empresa”, explica Barbosa.
Segundo Barbosa, a Advent pretende comprar ações que hoje estão em circulação. Os fundadores controladores, que hoje têm 38,8% de participação acionária, irão manter suas posições acionárias pelos próximos dez anos como assinado em um novo acordo de acionistas. Entre os demais acionistas relevantes da Natura estão a Dynamo, com 8,84%; a Aikya, com 5,11%, e a Pzena, com 5,37%.
As conversas com o representante da gestora de private equity começaram no fim do ano passado. “A gente está muito entusiasmado em ter conseguido tirar da frente muitas complicações e o caminho ficou pavimentado.”
As “pendências” vencidas pela Natura, na avaliação do chairman, foram a conclusão da venda da Avon Internacional, em dezembro do ano passado; a concretização da venda da Avon na Rússia, em fevereiro deste ano; e a concretização da comercialização da Avon na América Central, em setembro de 2025.

Se a Advent conseguir montar a posição acionária que pretende, a gestora terá direito a indicar dois membros adicionais para compor o conselho, e ainda participar de comitês de assessoramento do órgão colegiado.
“É justificável que tenham uma participação no conselho. E, para nós, interessa ter uma representação no conselho que nos complemente, para esta nova fase que vamos viver”, explica Barbosa.
A aproximação com a gestora americana ocorreu no momento que a decisão pela saída dos fundadores do conselho já estava madura. “Isso [saída dos fundadores] aconteceria de qualquer forma, independentemente da chegada da Advent.”
Para o ainda presidente do conselho, a ida de Seabra, Leal e Passos para um novo conselho, sem uma função deliberativa e como um espaço de aconselhamento aos executivos, não significa, na prática, um afastamento da empresa, e sim uma “preservação do legado e cultura da Natura”.
Os fundadores resolveram sair agora que viram que todos os passos da reestruturação haviam sido concluídos. Sem mais nenhuma “nova pedra no caminho” da companhia, com um balanço limpo, os três enxergaram que era o momento de trazer sangue novo com uma visão de futuro.
João Paulo Ferreira, o CEO da Natura, enxerga agora que a companhia está pronta para aprimorar sua operação de forma mais digital. “Inovação, para nós, está em produtos e conceitos, modelos de negócios e na digitalização da rede. E vamos criar uma maior conexão entre três milhões de consultoras e 150 milhões de consumidores na América Latina”, diz Ferreira ao NeoFeed. “O foco está nas pessoas e na organização. Essa é nossa prioridade número um.”
Em 2026, as ações da Natura na B3 acumulam valorização de 28,3%. A companhia está avaliada em R$ 12,7 bilhões.