Dois meses após se livrar oficialmente do escândalo do Banco Master, a partir da entrada da gestora Alaska no quadro societário, a farmacêutica brasileira Biomm, única fabricante nacional de insulina glargina (análogo à insulina humana), planeja um salto expressivo em seu resultado financeiro neste ano.

Em fato relevante divulgado no fim da tarde de terça-feira, 9 de junho, a companhia informou um guidance entre R$ 90 milhões e R$ 100 milhões de Ebitda em relação ao desempenho previsto para 2026.

O plano está baseado no ramp-up da fábrica em Nova Lima, Minas Gerais, inaugurada em 2024, e nos contratos vigentes de parcerias para o desenvolvimento produtivo (PDP) da glargina junto à Biomanguinhos e Fiocruz e da insulina humana com a Fundação Ezequiel Dias (Funed).

Também há o plano de expansão da marca Glargilin, medicamento injetável para tratamento de diabetes tipo 1 e tipo 2, no mercado farmacêutico privado no Brasil.

Se a empresa conseguir confirmar esse guidance, ao fim do exercício, terá alcançado um crescimento relevante sobre o do ano passado. No balanço do quarto trimestre, a companhia reportou um Ebitda de R$ 3,3 milhões, contra um indicador negativo de R$ 69,3 milhões em 2024.

Foi a primeira vez que a companhia não encerrou um exercício no vermelho. Levando em conta o cenário do ano passado e a perspectiva da companhia, a previsão apontada pela Biomm é de um crescimento de cerca de 3.000% em 12 meses.

“As projeções divulgadas neste documento são estimativas que refletem as expectativas atuais da administração e não constituem, garantem ou preveem resultados. Tais projeções dependem de fatores e condições voláteis não controlados pela Companhia”, diz o documento, assinado por Marcelo Sáfadi Álvares, CFO e diretor de relações com investidores da Biomm.

A própria divulgação do guidance já é uma mudança significativa de postura da companhia, que não revelava ao mercado este tipo de informação. A aprovação dessa divulgação ocorreu na última reunião do conselho de administração da empresa, realizada em 28 de maio.

Quando estourou o escândalo do banco de Daniel Vorcaro, que foi liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, os olhos do mercado se voltaram para a farmacêutica, justamente em razão da presença do sócio-problema, que tinha uma participação relevante, de 25,86%.

A presença de Vorcaro era por meio do Fundo Cartago de Investimentos. Documento produzido pelo Banco Central no passado e que o NeoFeed teve acesso confirmava que o Cartago integrava o conglomerado do Master, com outras 39 empresas e fundos de investimento.

Em abril deste ano, a Alaska comprou a fatia de 26,15% da companhia. A gestora adquiriu a maior parte das ações do Banco de Brasília (BRB), que havia ficado com a parte do Cartago, que também foi liquidado. A gestora também comprou as ações da Cedro Participações, que tinha 7,8%.

A empresa foi fundada em 2001 por Walfrido dos Mares Guia, que foi ministro do Turismo na primeira gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2006. Ele tem 8,24% de participação.

O BTGP Gestão tem 12,2%, seguido pelo TMG/IBR, com 7,25%. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), por meio do BNDESPar, tem 5,12%.

No meio do processo que envolvia a possível mudança de comando societário, a Biomm trocou de CEO. Guilherme Maradei assumiu no dia 1º de janeiro deste ano, após transição realizada com o executivo Heraldo Marchezini, que estava no cargo desde 2013.

Na ocasião, a empresa afirmou que a substituição já vinha sendo tratada bem antes, e que o processo de escolha do sucessor de Marchezini demorou pelo menos seis meses.

No primeiro trimestre deste ano, a farmacêutica reportou receita líquida de R$ 92,4 milhões, 133,5% acima do resultado dos primeiros três meses de 2025, de R$ 39,6 milhões. O lucro líquido foi de R$ 9,7 milhões, revertendo prejuízo de R$ 11,7 milhões no mesmo período do ano passado.

Antes de estourar o escândalo, a Biomm já tinha revelado a intenção de entrar no mercado de canetas emagrecedoras no Brasil, por atuar, de certa forma, em um setor correlato. Para isso, assinou contrato, em 2024, com a indiana Biocon para licenciar e distribuir o Ozempic similar no país. A empresa está na fila dos registros da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

No acumulado de 2026, as ações BIOM3 na B3 registram desvalorização de 5,6%. Em 12 meses, a queda é de 25%. O valor de mercado da Biomm é de R$ 917 milhões.