A RSM Brasil, empresa contratada para realizar a auditoria da Arandu (ex-Reag Investimentos), emitiu opinião com ressalvas sobre o último balanço divulgado pela companhia, referente ao ano de 2024. A demonstração financeira foi enviada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apenas em janeiro deste ano, com quase um ano de atraso.

De acordo com a auditoria, não foi possível realizar os procedimentos necessários para avaliar a “efetividade das políticas, procedimentos e controles internos implementados pela companhia relacionados à prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento ao terrorismo”, de acordo com os documentos que o NeoFeed teve acesso

A justificativa da RSM para se abster da anuência de tais procedimentos ocorre em meio às investigações do Ministério Público, em que a Reag foi apontada como uma das engrenagens para a lavagem de dinheiro do crime organizado.

Segundo a RSM, não foi possível auditar tais processos pelo fato de a auditoria ter sido contratada somente após o encerramento do exercício financeiro findo em 2024.

“Consequentemente, não obtivemos evidência de auditoria apropriada e suficiente sobre a conformidade e a eficácia desses processos, bem como sobre os saldos contábeis oriundos de transações financeiras que poderiam estar sujeitos a tais riscos”, diz a RSM.

A Arandu era a marca de uma gestora que estava dentro do guarda-chuva Reag e investia em pequenas e médias empresas. Após a operação da Polícia Federal, os executivos da empresa compraram o que restou da Reag e aprovaram em assembleia a mudança de marca, uma vez que a empresa estava operacional

O Banco Central, por sua vez, decretou apenas a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., um dos braços da antiga Reag. Na bolsa de valores, por exemplo, o ticker da companhia mudou de REAG3 para ARND3.

De acordo com os documentos da empresa na CVM, a RSM foi contratada pela Arandu em 27 de outubro, já depois de ter sido alvo de busca e apreensão no âmbito da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, em agosto de 2025.

A antiga auditora era a PwC, sendo que o último balanço auditado por ela foi o do terceiro trimestre de 2024, quando concentrava apenas as atividades da GetNinjas, comprada pela Reag para a listagem do grupo via IPO reverso.

Em outubro daquele ano, a empresa concluiu a operação que tornou a GetNinjas subsidiária da estrutura e ascendeu o grupo Reag à bolsa de valores. Desde então, a empresa vinha adiando sucessivamente as divulgações de balanço, sendo que, até hoje, os números de 2025 seguem ocultos.

No ano passado, o diretor de relações com investidores da Reag, Dario Tanure, justificou que a troca de auditoria ocorreu “por razões estratégicas, tendo o Antigo Auditor manifestado sua anuência com referida mudança”.

A RSM também aponta um “desvio de prática contábil” ao antecipar no balanço de 2024, divulgado com atraso, uma informação que só foi concretizada em 2025.

Trata-se da participação no fundo Reag Master Feeder FIC FIDC, tratada como “ativo mantido para venda”, sendo que, segundo a RSM, “em 31 de dezembro de 2024, não havia evidências ou intenção formal da administração quanto à realização desse ativo”. As cotas foram vendidas em julho de 2025.

Segundo a RSM, também não foi possível ter acesso ao resultado da auditoria independente realizada sobre o fundo Reag Master Feeder FIC FIDC referente ao exercício findo em dezembro de 2024.

A última demonstração financeira auditada do fundo disponível na CVM é referente ao exercício de 2023. De acordo com o documento, que teve auditoria da PwC, os principais investimentos do fundo eram em outros FIDCs da própria Reag. Em 2023, o fundo fechou com patrimônio líquido de R$ 544,64 milhões.

Do valor total, R$ 390,49 milhões estavam alocados no Reag High Yield FIDC, R$ 113,59 milhões no Reag Recebíveis FIDC Aberto, R$ 2,1 milhões no Reag Cedentes FIDC e o restante espalhado entre os FIDCs Condocash II, SOS Bolso, Reag Agro, Webcash e Estácio.

A auditoria também joga luz à concentração do lucro em atividades descontinuadas da Arandu. Segundo o balanço, essas operações tiveram lucro de R$ 40,36 milhões, enquanto as operações em continuidade registraram prejuízo de R$ 30,35 milhões em 2024.

Em 2025, a companhia também realizou a alienação de empresas do segmento de Asset e Wealth Management.

Pelo atraso na divulgação do balanço anual de 2024 e das demonstrações financeiras do primeiro e segundo semestre, a CVM está processando a ex-CFO da empresa Fabiana Franco.

Franco, que atuou por quase 10 anos em estruturas ligadas à Reag, deixou a empresa em renúncia conjunta com João Carlos Mansur, CEO da companhia, em 7 de setembro, pouco mais de uma semana após a Operação Carbono Oculto.

Procurada, a Arandu informou que não irá se manifestar sobre os apontamentos feitos pela auditoria.