O Banco do Nordeste anunciou que rescindiu unilateralmente o acordo com a EntrePay, em meio a reclamações de lojistas sobre a atrasos no repasse de valores de vendas feitas na maquininha da empresas e indícios de alterações nas estruturas de fundos de recebíveis, conforme noticiou o NeoFeed.
Em comunicado, o banco informou que, como medida cautelar, determinou também a suspensão imediata dos serviços prestados pela Entrepay, com a vedação à realização de novas autorizações, transações ou operações com cartões vinculados à parceria.
A instituição também declarou que continuará adotando “todas as medidas administrativas, contratuais e operacionais cabíveis para resguardar seus interesses e assegurar a continuidade de seus serviços” e que está avaliando “alternativas para futura substituição da parceria”.
“O Banco esclarece que as atividades relacionadas à liquidação das transações integram a dinâmica dos arranjos de pagamento regulados, envolvendo a credenciadora e as respectivas bandeiras, observada a regulamentação vigente, permanecendo resguardado o direito de apuração de responsabilidades nos âmbitos contratual, regulatório e judicial”, diz trecho do comunicado.
Procurada pelo NeoFeed, a EntrePay declarou que foi comunicada da decisão e que respeitará os termos contratuais estabelecidos, acompanhando o tema em diálogo com as partes envolvidas.
"A companhia destaca que, ao longo dos últimos anos, a parceria com o Banco do Nordeste foi marcada por cooperação institucional e pelo desenvolvimento conjunto de soluções voltadas à organização financeira e ao fortalecimento da atividade dos microempreendedores atendidos pela instituição", diz trecho do comunicado.
A EntrePay mantinha parceria com o Banco do Nordeste para oferecer máquinas de cartão a tomadores de empréstimos do programa CrediAmigo, de microcrédito para pequenos negócios, que reúne cerca de 2 milhões de participantes.
O NeoFeed apurou que a empresa se tornou alvo de constantes reclamações relacionadas a atrasos nos repasses até o começo do mês. De 42 questionamentos que a empresa recebeu na plataforma Reclame Aqui em um ano, 36 foram feitos a partir de janeiro.
Os atrasos coincidem com as investigações da Polícia Federal (PF) sobre supostas ligações do empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, CEO do Grupo Entre, controlador da EntrePay, a suspeitas de fraudes cometidas pelo Banco Master e a alterações relevantes em FIDCs que detinham a EntrePay como cedente dos créditos.
Em janeiro deste ano, o empresário foi também alvo de uma operação de busca e apreensão na operação Compliance Zero ao lado de Julia Grasiela de Oliveira Freixo, cofundadora e diretora jurídica do Grupo Entre, Daniel Vorcaro, dono do Master, João Carlos Mansur, da Reag, e Maurício Quadrado, da Trustee.
O NeoFeed identificou, a partir de dados fornecidos pela plataforma Uqbar, quatro Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) que tiveram a EntrePay como cedente relevante em suas carteiras: o Rover FIDC, o Moriah FIDC (que posteriormente passou a se chamar Sinai Multi), FIDC Garson e o Garson Card.
Desde dezembro do ano passado, esses FIDCs sofreram uma série de alterações em suas estruturas, como trocas de administrador e gestor, mudança de nome e a inclusão, em regulamento, de novos fatores de risco relacionados aos cedentes dos créditos investidos.
Fundado em 2016, o grupo Entre cresceu por meio da aquisição de empresas de meios de pagamento e crédito, consolidando um ecossistema que afirma reunir cerca de 26 companhias e aproximadamente 700 funcionários – embora o LinkedIn da empresa tenha apenas uma dezena de pessoas diretamente relacionadas.
As ligações da família Vorcaro com o Grupo Entre não são recentes. Daniel Vorcaro e Freixo Júnior respondem juntos a um processo aberto em 2020 na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para apurar eventuais fraudes ligadas à 3ª emissão de cotas do fundo Brazil Realty.
As cotas foram subscritas pelo Master e parcialmente pagas com ativos que, de acordo com apuração da Superintendência de Registros (SRE) da CVM, tiveram laudos de avaliação fraudados.
Entre os ativos está um terreno na cidade mineira de Contagem, em nome de empresa presidida por Natalia Bueno Vorcaro Zettel, irmã de Daniel Vorcaro e esposa de Fabiano Zettel.