Num momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avança sobre as reservas de petróleo na Venezuela - minando, por tabela, o fornecimento do combustível fóssil para a China, um evento internacional que terá início na terça-feira, 13 de janeiro, em Riad, na Arábia Saudita, lança luz sobre a verdadeira batalha geopolítica do século 21.
Trata-se da disputa por minerais críticos e terras raras, insumos indispensáveis para viabilizar as tecnologias emergentes da nova economia energética global, da fabricação de telas de smartphones a turbinas eólicas, passando por baterias recarregáveis de carros elétricos, redes inteligentes e até mísseis.
O Future Minerals Forum (FMF) 2026, que vai até quinta, 15 de janeiro, é considerado o principal evento mundial de articulação entre governos, empresas, investidores e organismos multilaterais em torno do futuro da mineração, dos minerais críticos e da segurança das cadeias globais de suprimento.
O Brasil está enviando uma delegação de mais de 100 pessoas, incluindo integrantes do governo e de empresas dos setores de mineração, energia, siderurgia e infraestrutura, refletindo o peso do País no debate global sobre minerais críticos e transição energética.
O País concentra cerca de 19% das reservas globais de terras raras - conjunto de 17 elementos químicos da tabela periódica, essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos e aplicações de defesa -, além de aproximadamente 74 milhões de toneladas de grafita, insumo-chave para baterias e sistemas de armazenamento de energia.
Soma-se a isso sua posição de destaque em manganês e níquel, o avanço acelerado da produção de lítio - especialmente no Vale do Jequitinhonha - e uma matriz elétrica majoritariamente renovável, fator decisivo para a produção de minerais com menor intensidade de carbono.
Essas credenciais justificam a estimativa do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que prevê um pipeline de investimentos em projetos de minerais críticos no País de cerca de R$ 100 bilhões até 2029, a maior parte com aportes de fora.
Outros dois estudos divulgados recentemente, um da consultoria PwC e outro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), reforçam o potencial de inserção estratégica do Brasil em cadeias globais de abastecimento de minerais críticos e estratégicos.
Para Carlo Pereira, CEO da Gin Capital - plataforma de investimentos voltada para as áreas de mineração e datacenter -, o Brasil tem potencial de atrair novos investidores em Riad, à medida que os minerais críticos e as terras raras ganham cada vez mais relevância na transição energética e na economia como um todo. Parte desse apetite se deve à constatação de que o mundo está sedento desses minerais críticos, com uma demanda de três a quatro vezes maior que o volume atualmente ofertado.
Segundo ele, o diferencial do Brasil neste momento vai além do volume de recursos naturais em seu subsolo. “O debate global deixou de ser apenas sobre oferta de minério, mas de quem oferece previsibilidade, governança, descarbonização e alinhamento geopolítico”, afirma Pereira. “O Brasil reúne esses atributos e o FMF é o palco onde isso se traduz em capital e parcerias concretas.”
Ele cita o fato de o potencial mineral do Brasil ser subestimado - detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, por exemplo, apesar de ter mapeado apenas 23% de seu subsolo. Além disso, a segurança jurídica e a estabilidade regulatória do País são atrativos em comparação com outros mercados emergentes, como a República Democrática do Congo, que lidera produção global de cobalto e as reservas de cobre.
“O Future Minerals Forum é o espaço onde essas vantagens se conectam diretamente ao capital global e às decisões geopolíticas que estão redesenhando as cadeias produtivas”, afirma Pereira, que não esconde a expectativa de intermediar negócios com fundos de investimento dos países do Golfo, atentos ao movimento de diversificação e transição energética global.
A Gin Capital organizou um evento na Embaixada do Brasil em Riad na segunda, 12, para aproximar brasileiros e sauditas e apresentar o potencial mineral do País, levando empresas com mandato para captar e formar parcerias.
Segundo ele, investidores árabes rejeitam a abordagem de “caixa eletrônico”, limitada a pedidos de aportes. “Preferem parcerias com investimento e presença recíproca; o Brasil pode atrair capital e desenvolver cadeias locais via joint ventures, plantas e transferência tecnológica”, acredita.
Projetos andando
O Brasil já conta com projetos de mineração de terras raras em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas. Esses projetos são financiados por companhias tanto brasileiras quanto internacionais (EUA, Austrália e China).
Os três principais projetos têm empresas estrangeiras à frente. O Colossus, liderado pelas australianas Viridis Mining e Minerals Limited em Poços de Caldas (MG), com investimento de R$ 1,35 bilhão, possui as mais altas taxas globais de recuperação de elementos raros, solidificando o projeto como um líder mundial na recuperação de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
O projeto da australiana Meteoric Resources, também na cidade mineira, tem investimento de R$ 1 bilhão voltado para extração de argila iônica. A expectativa é de geração de 700 empregos.
Por fim, o projeto tocado pelas americanas Denham Capital e Minerals Group, em Minaçu, Goiás, tem aporte de R$ 855 milhões direcionado à unidade operacional do grupo Serra Verde, a Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM). O objetivo é fortalecer a produção de elementos fundamentais para a transição energética, como ímãs, baterias e turbinas eólicas.
Os relatórios recentes, por sua vez, são detalhistas sobre onde os investidores estrangeiros podem obter retorno no Brasil.
A PwC, por exemplo, afirma que o Brasil aparece com reservas medidas e indicadas de cerca de 1,3 milhão de toneladas de lítio, cerca de 5% do total global; 74 milhões de toneladas de grafita (26% do total global) e 21 milhões de toneladas de terras raras, além de reservas menores de níquel, manganês e vanádio.
O maior gargalo, de acordo com relatório, está no refino e transformação química, ou seja, conversão dos concentrados em compostos industriais puros (óxidos, carbonatos ou metais). Grande parte do que é extraído é exportada em forma bruta ou concentrada para refino em países como China e Coreia do Sul.
“O lítio extraído no Brasil até recentemente era exportado como concentrado de espodumênio com baixo valor agregado”, aponta o relatório.
O estudo do Cebri, divulgado em novembro, também vai nessa linha. Mas destaca a necessidade de criação de políticas públicas. “Para que o Brasil potencialize a extração e o aproveitamento de seus recursos minerais críticos e estratégicos, é imprescindível estabelecer políticas que integrem mineração, inovação e sustentabilidade”, diz o relatório do Cebri.
Neste aspecto, os avanços ocorrem, mas ainda são lentos. Desde 2024, o Congresso Nacional debate a criação de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, visando incentivar a exploração e o beneficiamento de minérios como lítio, terras raras e grafite, essenciais para a transição energética e tecnologia.
Os dois projetos de lei em tramitação - o PL 2780/2024 na Câmara dos Deputados e o PL 4443/2025 no Senado – devem convergir em um, com o da Câmara mais cotado para concentrar as medidas. Também são esperadas iniciativas como um fundo do BNDES de financiamento a baixo custo e a aprovação de um Plano Nacional de Mineração-2050 para aumentar a competitividade do setor.
EUA x China
A necessidade de acelerar o processo se deve à janela de oportunidade aberta com a disputa entre Estados Unidos e China pelos minerais críticos e estratégicos. O poderio militar inigualável dos EUA apregoado por Trump não consegue desequilibrar a correlação de forças das duas superpotências econômicas mundiais em reservas, produção e refino de muitos desses minerais críticos.
A China responde por mais de 50% da produção de 18 minerais críticos, além de controlar grande parte do refino e processamento de terras raras, grafita, vanádio e etapas intermediárias de lítio e cobalto. E tem usado esse domínio como arma estratégica na guerra comercial com os Estados Unidos.
Em 2023, a China implementou restrições à exportação de grafita refinada e gálio – insumos estratégicos para baterias e semicondutores – em resposta a disputas comerciais com os Estados Unidos e a União Europeia. Em 2025, as restrições chinesas em resposta às novas tarifas americanas foram sobre a exportação de terras raras – essenciais para produção de tecnologias de ponta –, cujo refino em 2024 se concentrou em 91% na China, tornando-se pauta estratégica das negociações entre Estados Unidos e Brasil.
Isso evidencia como o controle sobre etapas mais avançadas da cadeia mineral pode se converter em alavanca geopolítica – uma lição que o Brasil precisa aprender e rápido.