O “celeiro do mundo” também está se tornando um centro de desenvolvimento em biotecnologia e soluções baseadas na natureza, gerando uma “revolução verde” que o Fundo Soros de Desenvolvimento Econômico (SEDF, na sigla em inglês) quer fomentar.
Braço de investimento de impacto da Open Society Foundations, rede de filantropia fundada por George Soros, o SEDF pretende ampliar sua presença no Brasil. A avaliação é de que o País oferece algumas das oportunidades mais promissoras na interseção entre clima, natureza e desenvolvimento econômico, prato cheio para investimentos de impacto.
“O Brasil é um celeiro de agtechs sustentáveis, de agricultura regenerativa. Isso é muito mais desenvolvido aqui do que em outras partes do mundo”, afirma Anita Fiori, diretora do fundo, ao NeoFeed. “Vemos muitas oportunidades para apoiar a revolução verde da agricultura brasileira.”
Convidada para falar no South Summit Brazil, evento que acontece de 25 a 27 de março em Porto Alegre e do qual o NeoFeed é parceiro de mídia, Fiori destacou que o fundo está atento a temas como agricultura sustentável, bioinsumos e restauração.
A avaliação é de que o País apresenta oportunidades que exemplificam como soluções baseadas na natureza e políticas industriais verdes podem apoiar mercados mais justos, eficientes e sustentáveis.
“É preciso aproveitar o que o Brasil tem de diferencial, que tem a ver com a questão de commodities e de natureza”, diz Fiori. “O Brasil tem como mostrar ao mundo como avançar nesses temas da maneira correta, com o maior impacto possível positivo para a sociedade.”
Criado em 1997, o SEDF já investiu mais de US$ 550 milhões em empresas e plataformas ligadas às missões da Open Society, incluindo conservação ambiental, acesso à energia, direitos reprodutivos da mulher e mídia independente.
O fundo aplica até US$ 100 milhões por ano, com cerca de um quarto destinado a soluções baseadas na natureza. Desde 2024, comprometeu US$ 35 milhões em bioeconomia na América Latina.
No Brasil, a atuação ainda é tímida, mas deve crescer. Fiori, que se juntou ao fundo em 2024 após passagens pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pelo International Finance Corporation (IFC) braço do Banco Mundial dedicado ao desenvolvimento do setor privado em mercados emergentes, BID e IFC e vem com a missão de aumentar a presença do SEDF no País.
Entre os aportes recentes estão US$ 15 milhões no Fundo de Biodiversidade da Amazônia (ABF) em 2023 e US$ 8 milhões no fundo III da SP Ventures em fevereiro, voltado a biofertilizantes e bioinseticidas.
Fiori conta que o SEDF está para finalizar um investimento numa plataforma para iniciativas de reflorestamento e avalia, mais para frente, atuar com minerais críticos e terras raras, com foco em mineração sustentável e respeito aos direitos humanos.
“Como somos uma organização irmã de uma ONG de direitos humanos, vemos muitos abusos na produção desses minerais. Estamos vendo se conseguimos usar o nosso capital para financiar mineração sustentável, que leve essa questão de direitos humanos a sério”, afirma.
Segundo Fiori, o momento é oportuno para investimentos de impacto, mesmo com volatilidade e juros altos. Segundo ela, enquanto os investidores tradicionais estão neste momento mais avessos a tomar riscos por conta da volatilidade dos mercados, dos juros altos e da ambiguidade que tomou conta da geopolítica, aqueles que atuam com impacto seguem aportando e encontrando boas oportunidades.
O diferencial está na visão de longo prazo, o que permite tomar riscos. “Não temos medo de risco, estamos acostumados. Nesses momentos, nos tornamos ainda mais importantes. Nós ficamos com o ativo durante muito tempo”, afirma Fiori.
Ela aproveita para rebater críticas sobre retorno financeiro, lembrando que no BID a carteira apresentou retorno médio de 12% a 13% em dólar em dez anos. Para ela, é uma questão de como fazer e lembra que se tratam de investimentos complexos.
“É mais baixo que 20% que outros apresentam? É mais baixa, mas existe todo o impacto social, ambiental e econômico que elas estão provendo. Não é um app”, diz. “Estamos falando de mudanças de longo prazo sociais e ambientais, e isso dá retorno, um bom retorno. Mas tem que saber fazer.”