O uso do GLP-1 vem provocando um processo de transformação nos hábitos alimentares da população brasileira. E, diante do uso das canetas emagrecedoras, toda a cadeia de varejo alimentar se viu obrigada a se adaptar aos efeitos do Ozempic e do Wegovy.
No Assaí, a opção foi acompanhar a demanda por produtos mais ligados a esses hábitos e ir além dos alimentos, seja oferecendo serviços conectados a essa tendência como ampliando a oferta de bens duráveis, não ficando presa ao mundo de alimentos.
Há dois anos, o Assaí passou a contar com açougue nas lojas, para atender a crescente demanda da população por proteína, sendo um dos maiores vendedores de carne da América Latina, segundo Belmiro Braga, CEO da companhia. Já as vendas de carboidratos e açúcar apresentaram queda.
O Assaí também está começando a instalar farmácias nas lojas, aproveitando o projeto de lei 2.158/2023, que autoriza a venda de medicamentos em supermercados mediante estrutura e farmacêuticos exclusivos.
“Por que estou colocando farmácias em lojas? Porque farmácia puxa a parte de saúde, e na medida que a pessoa emagrece tem-se o consumo de suplementos, vitaminas”, disse Braga nesta quarta-feira, 28 de janeiro, durante a Latin America Investment Conference (LAIC) 2026, promovida pelo UBS e o UBS BB. “Esses medicamentos estão provocando uma revolução.”
Em paralelo, o Assaí vem trabalhando para ampliar o leque de produtos. Braga conta que a companhia já se tornou o maior vendedor de pneus do Brasil e está trazendo mais produtos, como motos elétricas. “Nós estamos ampliando para atingir novos share of wallet”, disse.
Pelo lado do produtor de alimentos, a M. Dias Branco vem revisando seu portfólio, buscando adicionar produtos que possuam mais proteínas e mais identificados com hábitos saudáveis. E esse movimento não tem sido tão difícil, segundo Mateus Alencar, vice-presidente comercial da companhia.
“Tem muita proteína na casa do trigo, então é só ajustar um pouco a produção”, disse. “Começamos com uma linha de produtos saudáveis e estamos adicionando proteínas e cereais, que são ricos em fibras, algo que também tem sido tendência.”
Essa necessidade de adaptação vem dos efeitos que as canetas têm nos hábitos alimentares das pessoas. Segundo Isabella Wanderley, ex-CEO da Novo Nordisk no Brasil, esses medicamentos reduzem de 20% a 30% a ingestão calórica, fazendo com que as pessoas não consigam comer comidas gordurosas.
E considerando o fim das patentes sobre esses medicamentos no Brasil, mais a estimativa de que existam dez a 15 diferentes tipos de remédios no pipeline de desenvolvimento do setor farmacêutico, esses tratamentos vieram para ficar, assim como a busca por hábitos saudáveis.
“O aumento do acesso e a redução de preço vai fazer com que as pessoas entendam isso como tratamento crônico”, disse Wanderley. “Com o acesso melhorando, as pessoas vão ficar mais tempo em tratamento.”
Isto, porém, não significa o fim das indulgências, as famigeradas “guloseimas”, nem que hábitos alimentares regionais serão completamente transformados, segundo Alencar.
“Não é que as pessoas querem parar de comer, mas elas querem comer em porções menores, provar mais coisas”, disse. “É preciso tomar cuidado para nem subestimar ou superestimar a estratégia.”