A trajetória do etanol de milho no Brasil pode ser resumida em uma história de superação, que elevou uma cultura antes limitada a um mercado restrito ao patamar de gigante do setor bioenergético. O milho (ainda sem o subproduto etanol) começou a ganhar relevância décadas atrás como “safrinha da soja”, alternativa de cultivo fora da época tradicional da soja, a grande commodity do agronegócio brasileiro.
Há dez anos, ainda de forma tímida, a expressão etanol de milho começou a se consolidar mais como sinônimo de concorrência americana ao nosso etanol de cana, exemplo mundial de biocombustível sustentável que impulsionou a revolução dos carros flex no Brasil.
Mas o jogo mudou de forma radical mais recentemente. A produção de etanol de milho primeiro invadiu o Centro-Oeste e agora começa a avançar na região do Matopiba, nova fronteira do agronegócio, e por tabela no Nordeste, onde há um mercado gigantesco de combustível para carros flex para explorar.
Com base na produção e nos preços médios do combustível, estima-se que o mercado de etanol de milho movimente anualmente cerca de R$ 31 bilhões. O setor deve receber R$ 40 bilhões em investimentos na próxima década, de acordo com estimativa da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).
No total, são 25 biorrefinarias de etanol de milho no País. Além disso, mais 16 unidades têm autorização de construção, conforme a Unem, que mapeou ainda outros 16 projetos em planejamento. O custo de construção de uma usina de etanol é estimado pelo mercado entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões.
Empresas como Inpasa, FS e Usimat – nomes pouco conhecidos fora do mundo agro – estão impulsionando o crescimento do setor, batendo seguidos recordes de produção e de investimentos. Essas três gigantes poderiam até ser chamadas de “Big Corns”, a versão brasileira dos grandes produtores do etanol de milho, numa referência às Big Techs americanas, as multibilionárias empresas de tecnologia com lucros recorde.
“A produção de etanol de milho no Brasil só ganhou força a partir de 2017-2018, inspirada pelo modelo americano”, afirma Martinho Seiiti Ono, CEO da SCA Brasil, empresa que presta serviços de consultoria e inteligência de mercado para gigantes do setor.
Segundo ele, o Centro-Oeste foi escolhido por ser grande produtor de milho, o que reduziu custos de logística, já que o frete para exportação do grão bruto era muito caro. “O crescimento foi exponencial, suprindo a demanda que o etanol de cana, com área de plantio estagnada desde 2015, não conseguia mais atender sozinho.”
De lá para cá, o etanol de milho protagonizou várias pequenas revoluções no agronegócio brasileiro, não só expandindo a produção – que cresce 30% ao ano – como abrindo mercados mundo afora para outros subprodutos.
Um deles é o óleo de milho, amplamente utilizado na alimentação humana, agora com potencial crescente como matéria-prima para SAF (Combustível Sustentável de Aviação) e HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado), substituto direto para o diesel, posicionando-se na transição energética de combustíveis.
Outro subproduto – que cresceu tanto que também passou a ser considerado produto principal – é o DDGS (Grãos Secos de Destilaria com Solúveis), usado para produzir ração animal, atendendo pecuária, avicultura e até ração para pets.
De alto valor nutricional e sem conservantes, o DDGS contém cerca de 25% a 30% de proteína bruta e é rico em gordura e fibras digestíveis, além de ser mais barato que fontes tradicionais de proteína, como farelo de soja.
Por ser seco, ter boa durabilidade e facilidade de armazenamento e transporte, o DDGS foi responsável por uma das maiores transformações na história recente do meio rural - a expansão dos sistemas de confinamento bovino, especialmente no Brasil e nos EUA.
O confinamento de gado liberou pastagens degradadas para o plantio de soja e milho, beneficiando produtores - que tiveram aumento de produtividade e renda - e agregando valor à commodity, que antes era exportada como matéria-prima bruta.
“Além de ter gerado esse ciclo virtuoso, a produção de etanol de milho tornou-se cerca de 30% mais barata que a de cana, devido ao baixo preço do milho e à alta competitividade por terras para o plantio de cana”, diz Ono.
“As usinas de cana priorizaram a produção de açúcar devido aos melhores preços internacionais, reduzindo a oferta de etanol de cana e abrindo mais espaço para o milho”, acrescenta, lembrando que, embora o etanol de cana tenha uma pegada de carbono melhor, a molécula de ambos os etanóis é idêntica para o consumidor final.
A participação do etanol de milho na produção total de etanol no Brasil saltou de 2% em 2019 para 20% em 2024. Este ano, deve fechar em 10 bilhões de litros, o equivalente a 23,6% do etanol nacional. A projeção para 2034 é de 24,7 bilhões de litros, igualando a produção atual de etanol de cana.
Gigantes do setor
Para se desdobrar nessas três frentes de negócios, o etanol de milho tem por trás histórias vitoriosas dessas “Big Corns” brasileiras, que apostaram no potencial da commodity e agora surfam com os lucros obtidos.
A Inpasa, primeira produtora de etanol de cereais na América Latina, iniciou operações em 2008 no Paraguai, país escolhido pelo empreendedor brasileiro José Odvar Lopes para dominar a tecnologia de produção a partir do milho, elevar a eficiência e compreender o mercado, antes de investir no Brasil.
Depois que iniciou as operações no Centro-Oeste, em 2019, a Inpasa tornou-se a maior produtora de etanol da América do Sul e a segunda do mundo em 2024, com 3,7 bilhões de litros, superando a Raízen (3,1 bilhões de litros). Fechou o ano passado com receita líquida de R$ 13,6 bilhões – aumento de 23% em relação a 2022.
A FS (Fueling Sustainability), primeira empresa 100% dedicada ao etanol de milho no Brasil, iniciou a operação em Lucas do Rio Verde (MT) em 2017. Controlada pela americana Summit, faturou R$ 10,7 bilhões em 2024. É a terceira maior produtora de etanol do País (de cana ou milho), atrás apenas da Inpasa e da Raízen. A FS opera três biorrefinarias no Mato Grosso e tem outra em construção.
A Usimat também foi pioneira ao criar, em 2012, uma usina “flex” em Campos de Júlio (MT) – a única da empresa -, capaz de processar cana e milho. Ao apostar na alternância entre safras e na flexibilidade industrial, virou referência nesse segmento.
No ano passado, a Usimat anunciou a autorização da ANP (Agência Nacional de Petróleo) para triplicar sua capacidade de produzir etanol de milho e de cana. Com isso, vai deixar de produzir 470 mil litros de hidratado e 200 mil litros de anidro por dia para chegar a até 1,29 milhão de litros de hidratado e 1,18 milhão de litros de anidro.
Inpasa e FS, porém, concentram 80% do mercado. Recentemente, a presidente da Petrobras, Magda Chambriand, confirmou o interesse da estatal em voltar ao mercado de produção de etanol, que tinha abandonado em 2018 – justamente quando teve início o boom do etanol de milho.
O plano seria formar joint-ventures com participação minoritária em empresas de etanol e, nas últimas semanas, surgiram rumores de que a Petrobras estaria negociando com a Inpasa e a FS.
“As duas empresas são similares em qualidade de produto e processos de produção, mas os projetos da Inpasa são de escala muito superior”, diz Ono, acrescentando que uma única usina de milho da Inpasa pode equivaler em produção a 8 ou 9 usinas médias de cana. Um exemplo é a biorrefinaria de Sinop (MT), que passou por ampliação e se transformou na maior usina de etanol do planeta, produzindo 2 bilhões de litros por ano.
Com sete biorrefinarias no País (distribuídas por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Maranhão) e outras duas no Paraguai, a Inpasa está usando parte dos R$ 13 bilhões investidos nos últimos cinco anos na construção de duas novas unidades industriais, uma em Luís Eduardo Magalhães (BA) e outra em Rio Verde (GO).
Com previsão de inauguração no primeiro semestre de 2026, a usina de Luís Eduardo Magalhães, no Oeste baiano, consolida a entrada da empresa no Nordeste. Com investimento de R$ 1,3 bilhão, a planta tem previsão de produzir 470 milhões de litros de etanol, 245 mil toneladas de DDGS e 23 mil toneladas de óleo vegetal.
Já a construção da unidade de Rio Verde, recém-iniciada, tem planos ainda mais ousados: produção de 1 bilhão de litros de etanol, 490 mil toneladas de DDGS e 47 mil toneladas de óleo vegetal, com investimento total de R$ 2,4 bilhões.
Gustavo Mariano Oliveira, vice-presidente de trading da Inpasa, afirma que parte do crescimento rápido da empresa – em especial após o boom das commodities pós-pandemia - se deve à aposta na diversificação, indo além da produção do etanol de milho.
“Hoje, a Inpasa responde por mais de 95% da exportação brasileira de DDGS e, no óleo de milho, nosso diferencial é a estrutura própria de refino, atendendo clientes com padrões específicos, como a indústria de SAF e HVO”, diz.
A forte demanda do exterior pelo DDGS impulsionou a exportação de seus três principais produtos para 42 países em quatro continentes, com foco especial na Ásia. Para sustentar essa expansão, a Inpasa abriu um escritório comercial em Genebra, na Suíça.
Apesar do grande potencial do DDGS e do óleo de milho, o etanol é visto pela Inpasa como o produto com maior capacidade de expansão.
“As oportunidades incluem maior mistura na gasolina, produção de SAF a partir do etanol e, principalmente, o uso do etanol em navegação marítima”, revela Oliveira. Já existe uma corrida mundial para essas novas versões do etanol, que já atende o mercado automobilístico com o etanol hidratado (para motores flex), anidro (adicionado à gasolina) e com biometano em motores a gás (GNV).
As previsões são de que o primeiro litro de SAF de etanol chegue ao mercado nos próximos meses. Há muito se busca uma alternativa renovável para o bunker (Marine Fuel), óleo combustível destinado ao abastecimento de navios de grande porte.
O potencial sustentável do etanol como matéria-prima de combustível para o transporte marítimo abre um grande horizonte para a Inpasa. O número de navios realizando o transporte do comércio internacional passa de 30 mil. Como cada navio cargueiro tem tanque de 500 mil a 1 milhão de litros, o chamado biobunker promete assegurar mais um front lucrativo para a empresa.
“O mercado marítimo, sozinho, representa uma demanda potencial de 400 bilhões de litros de etanol por ano, muito acima da produção mundial atual”, diz Oliveira, que desconversa sobre eventual parceria da Inpasa com a Petrobras.
Com ou sem a participação da estatal, o mercado do etanol de milho brasileiro pode estar ensaiando um novo salto – desta vez, da safrinha ao trilhão.