A temporada de balanços corporativos nos Estados Unidos parece estar com os dias contados.

A Securities and Exchange Commission (SEC, a CVM americana) está preparando uma proposta que acabaria com a obrigatoriedade das empresas reportarem trimestralmente seus resultados financeiros, segundo apurou o jornal The Wall Street Journal (WSJ).

A alternativa estudada é fazer com que as companhias divulguem seus balanços duas vezes por ano. A publicação de balanços trimestrais seria opcional.

Segundo o jornal, os reguladores devem apresentar um rascunho da proposta em abril, após terem conversado com representantes das principais bolsas de valores para discutir possíveis ajustes nas regras.

A proposta estará sujeita a um período de consulta pública, que dura 30 dias. Depois disso, os diretores da SEC votarão o texto final, sem garantias de que a medida será aprovada.

A proposta, se passar, alinhará os Estados Unidos ao que acontece no Reino Unido e na União Europeia (UE), onde as empresas são obrigadas a apresentar relatórios semestrais, mas não precisam emitir relatórios trimestrais.

A revisão ganhou força após a Long Term Stock Exchange (LTSE), operadora voltada a companhias de longo prazo, solicitar à SEC o fim dos balanços trimestrais

A ideia conta com a simpatia de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos já declarou que as empresas não deveriam “ser forçadas a” divulgar os resultados trimestralmente, alegando economia de recursos.

"Você já ouviu o ditado que a 'China tem visão de 50 a 100 anos na gestão de uma empresa, enquanto conduzimos nossas empresas em uma base trimestral'? Isso não é bom!", escreveu Trump, em setembro do ano passado, em sua conta na rede social Truth Social.

As empresas de capital aberto nos Estados Unidos divulgam seus resultados a cada três meses há mais de 50 anos. Defensores do fim da obrigatoriedade argumentam que a medida pode estimular novas aberturas de capital – de acordo com o WSJ, o número de empresas de capital aberto é metade do seu pico no fim da década de 1990.

Entre os motivos que as empresas citam para permanecerem privadas está o trabalho administrativo demorado e dispendioso necessário para listar e manter ações negociadas publicamente, o que inclui fechar os balanços trimestralmente.

O investidor Warren Buffett e Jamie Dimon, CEO do J.P. Morgan, já defenderam em artigo no WSJ, em 2018, o fim dos guidances trimestrais, alegando que prejudicam o planejamento de longo prazo.

“Em nossa experiência, as projeções de resultados trimestrais muitas vezes levam a um foco excessivo nos lucros de curto prazo em detrimento da estratégia de longo prazo, do crescimento e da sustentabilidade”, escreveram na ocasião.