As ações da Amazon abriram o pregão de sexta-feira, 6 de fevereiro, em queda. O motivo é uma "punição" por um recado que o mercado já vinha temendo ouvir: a conta da inteligência artificial (IA) vai subir, e rápido.
Depois do balanço do quarto trimestre de 2025, divulgado na noite anterior, a empresa apresentou um guidance abaixo do esperado para o curto prazo e ainda elevou para um novo patamar a ambição de investimentos em infraestrutura, colocando mais pressão sobre um setor que atravessa uma semana de ajuste.
As ações chegaram a recuar quase 10% reagindo às más notícias. A empresa disse que espera lucro operacional entre US$ 16,5 bilhões e US$ 21,5 bilhões no primeiro trimestre deste ano, abaixo do consenso de US$ 22,2 bilhões.
Essa projeção inclui US$ 1 bilhão em custos adicionais ligados à sua unidade de satélites de órbita baixa (LEO), no guarda-chuva do projeto Kuiper.
Mas o que mais está impactando as ações é que a Amazon afirmou que pretende investir cerca de US$ 200 bilhões em capex em 2026, um salto grande frente aos US$ 125 bilhões previstos para 2025 e acima do que Wall Street esperava.
Em comunicado ao mercado, o CEO Andy Jassy afirmou que antecipa um forte retorno de longo prazo sobre o capital investido: “Temos confiança de que esses investimentos renderão retornos fortes.”
O problema é que o humor do mercado mudou, e os investidores não estão mais com medo de ficar por último na corrida de IA, mas questionando a forma como ela está acontecendo e a falta de visibilidade sobre quando o retorno virá.
Um exemplo é o caso da Apple, que historicamente comprometeu menos capex do que outras gigantes e vinha sob pressão por sua estratégia de IA, mas viu suas ações subirem 7% desde segunda-feira na esteira da demanda por iPhone descrita por Tim Cook como “impressionante”.
Para a CNBC, Michael Field, estrategista-chefe de ações da Morningstar, disse que a aposta está ficando “binária”: esses investimentos se pagam de forma expressiva ou viram um desperdício relevante do caixa do acionista.
Do medo de “ficar para trás” ao “show me”
A reação à Amazon se encaixa num movimento mais amplo de reprecificação do setor. Segundo a CNBC, um grupo formado por Microsoft, Nvidia, Oracle, Meta Platforms, Amazon e Alphabet viu US$ 1,35 trilhão ser apagado de suas avaliações ao longo da última semana, com base em dados da FactSet.
A reação mostra que o capex bilionário deixou de soar como promessa de crescimento e passou a funcionar como gatilho de sell-off. E o montante de investimento só aumenta.
Segundo o WSJ, Microsoft, Meta, Alphabet,, Amazon e Oracle, que estão ampliando e financiando data centers diante do salto de demanda por computação ligada à IA, planejam gastar mais de US$ 700 bilhões em 2026, somando informações das companhias e projeções de analistas - um montante que o jornal descreve como próximo ao orçamento de 2026 do Japão e superior aos de Alemanha e México.
A pergunta que passou a comandar o humor de Wall Street, portanto, não é se a demanda existe. A Amazon insiste que sim: diz que vende capacidade de data center tão rápido quanto consegue colocá-la de pé e que a demanda é de longo prazo. Mas a dúvida é quando o investimento em infraestrutura começa a correr na frente do crescimento de receita.
Cresce o receio de que o setor esteja gastando depressa demais e de que uma desaceleração no crescimento da computação em nuvem (a venda de capacidade de data centers como a AWS) reacenda o fantasma de ‘bolha’ da IA.
O resultado do trimestre, por si só, não sugere fraqueza operacional. A Amazon reportou lucro por ação (EPS) de US$ 1,95 sobre receita de US$ 213,4 bilhões, praticamente em linha com o consenso de US$ 1,96 e acima da expectativa de US$ 211,5 bilhões em receita.
O WSJ aponta que o lucro líquido do período foi de US$ 21,2 bilhões, em linha com as expectativas. Na AWS, a empresa entregou US$ 35,6 bilhões de receita — acima do esperado. Em outras linhas, a publicidade superou US$ 21,3 bilhões, e o negócio de lojas online alcançou US$ 82,9 bilhões no trimestre.
Mesmo assim, o mercado volta para o “mix” e encontra um ponto sensível: a AWS cresceu 24%, um ritmo robusto, mas abaixo do que rivais exibiram no mesmo período.
A Azure, por exemplo, cresceu 39%, e o cloud da Alphabet avançou 48%. A Amazon rebate a comparação de taxas puras argumentando que sua base é maior e que crescer em cima dela é um jogo diferente. Mas, nesta semana, a lógica do investidor tem sido mais simples: se o capex acelera, a monetização precisa convencer.
Nesse ambiente, analistas projetam que a volatilidade tende a continuar, inclusive em nomes ligados ao hardware da expansão.
A Amazon, por sua vez, tenta mostrar que não se trata apenas de gastar mais — mas de gastar e reorganizar. A empresa vem cortando custos e operações: novas demissões e um total em torno de 30 mil cortes desde outubro, cerca de 10% da força corporativa, além do fechamento de lojas Fresh e Go e a redução de apostas paralelas, como o Amazon One em lojas físicas a partir de 6 de junho (mantido em clínicas).
Também houve troca no comando da unidade de IA: Rohit Prasad foi sucedido por Peter DeSantis, veterano da AWS, em uma tentativa de acelerar a entrega de serviços de IA e chips customizados. Mas ao mesmo tempo, só aumenta o apetite por investimentos. O WSJ menciona conversas para um possível investimento de até US$ 50 bilhões na OpenAI.