O balanço do quarto trimestre e de 2025 da Tesla, de Elon Musk, materializou os impactos nas vendas da montadora no rastro de componentes como o fim dos subsídios para carros elétricos nos EUA e o ativismo político do empresário, bastante centrado no apoio a partidos e políticos de extrema-direita.

Entre outras questões, esse caldeirão ajuda a explicar a perda recente da liderança do mercado global de carros elétricos para a chinesa BYD. E foi o pano de fundo para que a receita da companhia em 2025 recuasse 3%, para US$ 94,8 bilhões, a primeira queda anual de sua história.

Em outra linha do balanço, o lucro líquido de US$ 3,7 bilhões no ano passado representou uma retração de 46% sobre o montante reportado em 2024. Enquanto a produção anual recuou 7%, para 1,65 milhão de veículos, e as entregas caíram 9%, para 1,63 milhão de unidades.

Esses e outros números sinalizam, a princípio, um caminho tortuoso para a empresa. Mas outros anúncios embarcados na divulgação do balanço, realizada na noite da quarta-feira, 28 de janeiro, indicam que Musk tem um plano para recalcular o roteiro da Tesla.

O trajeto passa por consolidar a Tesla como uma empresa de tecnologia, algo que Musk sempre alardeou. E, em detrimento do negócio de venda de carros elétricos, o foco é avançar em frentes como os robotáxis e os robôs humanoides, tendo como principal motor a inteligência artificial (IA).

“Este será um ano de grandes investimentos”, afirmou Musk, durante a teleconferência com analistas sobre o resultado, segundo a agência Reuters. “Estamos fazendo grandes investimentos para um futuro épico”.

A Tesla não vai economizar, de fato, para colocar esse plano na pista. A empresa anunciou que planeja investir mais de US$ 20 bilhões em 2026, mais que o dobro dos US$ 8,5 bilhões aportados no ano passado e bem acima do recorde anterior de US$ 11,3 bilhões, consolidado em 2024.

Desse total, nessa virada, poucos recursos serão reservados para a frente tradicional de venda de veículos elétricos. Boa parte dessa cifra terá como destino justamente os robotáxis, batizados de Cybercabs, e os robôs humanoides da companhia, que levam o nome de Optimus.

Em um dos movimentos que traduzem essa transição, Musk e seus pares anunciaram o encerramento da produção do sedã Model S e do SUV Model X. Instaladas na fábrica da empresa em Fremont, na Califórnia, essas linhas serão redirecionadas para a fabricação do Optimus, com capacidade para 1 milhão de unidades por ano.

Parte dessa cifra também será reservada para o Tesla Semi, caminhão semirreboque da montadora anunciado em 2022, mas que ainda não é produzido em larga escala. Bem como às fábricas de produção de baterias e lítio.

É aqui, porém, que residem algumas das barreiras a serem superadas pela Tesla. À parte dos discursos e palavras de efeito de Musk – um ponto de interrogação recorrente sobre a empresa, praticamente todas essas linhas agora no centro da estratégia ainda não saíram do status de promessas.

Até aqui, a companhia não produziu uma única unidade do Optimus. Na semana passada, Musk afirmou que a fabricação inicial do robô e também do Cybercab seria “agonizantemente lenta” antes de ganhar tração. Ontem, ele disse não esperar um volume significativo do Optimus até o fim desse ano.

Em outra via que também se mostra acidentada, a dos robotáxis, será preciso acelerar para alcançar rivais como a Waymo, da Alphabet, que já tem implantado o serviço em diversas cidades dos Estados Unidos.

Com diversas projeções de expansão não cumpridas, a Tesla, por sua vez, está apenas em Austin, no Texas. Aos analistas, Musk afirmou que espera ter o serviço implantado numa área de um quarto à metade dos Estados Unidos até o fim de 2026. A meta inicial era o fim de 2025.

Ao mesmo tempo, ele ressaltou que planeja iniciar a produção dos Cybercabs em abril. “Esperamos que, com o tempo, produzamos muito mais Cybercabs do que todos os nossos outros veículos juntos”, disse o empresário.

À parte dessas dúvidas e do fato que, em paralelo, a Tesla terá de lidar com um mercado cada vez mais acirrado nos veículos elétricos, ainda o seu carro-chefe, Andrew Rocco, estrategista de ações da Zacks Investment Research, afirmou à Reuters que considera os US$ 20 bilhões como “gastos necessários”.

“Se o Optimus pretende ser um produto campeão de vendas, a inteligência artificial precisa ser treinada da melhor forma possível”, disse Rocco. Ele acrescentou que o investimento planejado lhe dá confiança de que os “prazos, às vezes flexíveis, de Musk serão de fato cumpridos”.

Como parte desse plano – e do papel essencial que a inteligência artificial deverá cumprir em todas as frentes dessa transição -, a Tesla também anunciou um investimento de US$ 2 bilhões na xAI, a startup de IA também capitaneada por Musk.

Em comunicado, as duas empresas ressaltaram que firmaram um acordo para fortalecerem o seu relacionamento e “aprimorar a capacidade da Tesla de desenvolver e implementar produtos e serviços de IA no mundo físico”.

"Com a desaceleração do negócio tradicional de veículos elétricos da Tesla, os investidores da empresa podem participar do boom da inteligência artificial", disse Rocco, da Zacks Investment Research. No entanto, em novembro, acionistas da Tesla haviam rejeitado uma proposta de investimento na startup.

Na contramão dessa rejeição inicial, Matt Maley, estrategista-chefe de mercado da Miller Tabak + Co, disse à agência Bloomberg que, agora, o investimento na xAI provavelmente será bem recebido por muitos investidores e ofuscará os resultados da Tesla.

“Se a Tesla for ter o desempenho que os otimistas esperam, será com os robôs-táxi e a robótica”, disse Maley. “Portanto, este investimento é exatamente o que os otimistas queriam ouvir.”

Na Nasdaq, as reações iniciais dão uma medida dessa equação. Após subirem mais de 1% no pre-market, as ações da Tesla registravam queda de 1,87% por volta das 10h25 (horário local). Em 12 meses, porém, os papéis acumulam uma valorização de 8,5%, dando à empresa um valor de mercado de US$ 1,4 trilhão.