Quando o Azzas 2154 foi criado, em agosto de 2024, o discurso era de complementaridade. Mas, passados 18 meses, a rotatividade de executivos-chave é um sinal de que a integração virou uma disputa de poder.
O mais novo a sair do grupo de marcas é Ruy Kameyama, que havia assumido como CEO de fashion & lifestyle em agosto do ano passado.
A vertical foi o resultado da união entre o fashion & lifestyle women (antigo Grupo Soma) e o fashion & lifestyle men (antiga AR&Co), que passaram a ser uma única unidade de negócios sediada no Rio de Janeiro com Kameyama à frente, que não completou um ano na nova cadeira.
"O [Roberto] Jatahy e o [Alexandre] Birman quase não se falam e o Ruy era a ponte. Isso é uma catástrofe para a companhia", diz uma fonte com trânsito na empresa ao NeoFeed.
“O Ruy era o meio de campo nesse relacionamento. Tudo que precisa ser aprovado, como abertura de loja, campanha, investimentos precisa ser com o Birman, que é o dono da caneta”, complementa a fonte.
Outra fonte, essa próxima à Kameyama, confirmou ao NeoFeed que o executivo sentiu que seu mandato estava entregue e não conseguiria avançar devido à “complexidade da governança que tornam os desafios e alinhamentos maiores”.
“Ele começou como conselheiro, trabalhou na delicada transição da Reserva, que funcionou bem, e teve os objetivos cumpridos. Não brigou com Birman nem com Jatahy, mas percebeu que era um fim de ciclo porque não conseguiria fazer os avanços que desejava”, afirma essa fonte.
Quando Kameyama assumiu como CEO de fashion & lifestyle, Jatahy, fundador do Soma, deixou o dia a dia da operação para assumir um papel mais estratégico, com um olhar criativo e de expansão como chief of brands officer (CBO).
O movimento era visto como uma volta às origens de Jatahy e resultado de um novo acordo para a governança corporativa do negócio acertado por ele e Birman cerca de 45 dias antes.
As saídas no topo da companhia, que mostravam um desalinhamento na integração, pareciam resolvidas. Até agora, com Kameyama aumentando essa lista para nove executivos.
Desde que começaram a negociar o ticker AZZA3 na B3, em 1º de agosto de 2024, a ação acumula pouco menos de 54% de queda. Em 2026, o papel recua 10,1%. O valor de mercado do Azzas é de R$ 4,7 bilhões.
Longa lista
Talvez nenhum movimento simbolize melhor essa fricção do que a breve passagem de Paulo Kruglensky, que foi contratado para ser homem da integração - mas que não ficou 120 dias na companhia.
Ex-CEO da Vivara, ele chegou como chief integration officer (CIO), reportando diretamente a Birman, com a responsabilidade de capturar sinergias e alinhar duas culturas radicalmente diferentes.
Como mostrou o NeoFeed, ele deixou a companhia ainda em agosto de 2024. Nos bastidores, o movimento foi atribuído a divergências internas e a um ambiente de tensão crescente entre as lideranças.
Sua saída teve um peso simbólico relevante, afinal, o executivo responsável por integrar as empresas foi o primeiro a sair quando a integração começou de fato.
Na sequência veio a primeira fissura com a saída da “alma” da Reserva. Rony Meisler, o fundador, e seus sócios Fernando Sigal, Jayme Nigri Moszkowicz e José Alberto da Silva não ocupavam apenas posições executivas formais. Eram os responsáveis por construir uma das marcas mais emblemáticas do portfólio e lideravam a AR&Co, a vertical de vestuário masculino e lifestyle da companhia.
Na prática, funcionavam como uma espécie de liderança autônoma dentro do grupo, um modelo típico do Soma que começava a perder espaço. A leitura do mercado foi que a companhia estava abrindo mão do capital criativo, o ativo que justificava parte da fusão
O movimento não parou ali. Em 2025, a reorganização começou a alcançar também a estrutura operacional e posições relevantes dentro dessa estrutura.
Thiago Hering era o líder da marca criada por sua família, que foi adquirida pelo Soma em 2021. No grupo, ele estava na cadeira de CEO da unidade Basic e tinha responsabilidade direta sobre resultado e operação.
Além dele, Luciana Wodzik, a CEO da vertical de sapatos, que era o coração da empresa, em posição de liderança relevante dentro dessa estrutura, deixaram a companhia.
Essas saídas indicavam que a lógica de unidades autônomas foi sendo substituída por uma estrutura mais integrada, com maior centralização de decisões.
Para completar esse movimento, Rafael Sachete, um executivo com cerca de duas décadas na Arezzo&Co, também deixou a companhia. Ele estava na cadeira de CFO do Azzas 2154 até agosto do ano passado, quando assumiu a vertical de shoes e bags com a saída de Wodzik.
Nesse processo inicial de fusão, Sachete foi o responsável por todo o processo financeiro, desde a captura de sinergias até a alocação de capital. Em março deste ano, assumiu como CFO do Assaí.
No centro dessa rotatividade no topo do poder está um conflito que nunca foi totalmente resolvido. De um lado, o modelo da Arezzo&Co, baseado em controle, padronização e ganho de eficiência. De outro, o modelo do Soma, construído sobre autonomia, identidade de marca e descentralização. A fusão prometia combinar esses dois mundos, algo que ainda não aconteceu.
Procurado, o grupo Azzas não se pronunciou. Mas depois de a reportagem do NeoFeed ser publicada, a companhia soltou Fato Relevante na CVM confirmando a saída de Kameyama.