Em meio às crescentes reclamações pelo não recebimento dos pedidos de resgate atrelados a investimentos em sociedades em conta de participação (SCPs) na Fictor, a companhia mudou a forma de captação com investidores.

De acordo com apuração do NeoFeed, a Fictor parou de comercializar no fim de 2025 as SCPs - que são uma maneira de levantar dinheiro por meio de uma sociedade em que os sócios têm responsabilidade limitada ao valor investido -, na qual a companhia prometia retornos estáveis de até 1,8% ao mês e foi peça-chave no seu financiamento.

Agora, a Fictor vem buscando investidores para seu novo Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). O método de captação, no entanto, segue semelhante ao utilizado para a venda de participações nas SCPs.

Tudo é feito por via direta, com a apresentação do produto por um agente treinado pela empresa e envio de transferência bancária para as contas da Fictor. Em seu site, o Grupo Fictor afirma atuar em diversas áreas, como agronegócio, serviços financeiros e infraestrutura.

Em novembro, o Grupo foi destaque por ter anunciado a compra do Banco Master no dia anterior à prisão de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira, e sua liquidação extrajudicial pelo BC. De acordo com reportagem do UOL, a Fictor teria usado títulos podres para inflar seu balanço na tentativa de adquirir o Master.

Em conversa com um desses agentes, na qual a reportagem se identificou como um potencial investidor, foi dito que a oferta das SCPs cessou em dezembro do ano passado e que não há mais disponibilidade para investimento.

Esse agente disse trabalhar para a Fictor há três anos, mas, nas redes sociais, se apresenta como profissional do campo da saúde e possui dezenas de milhares de seguidores, sem mencionar qualquer tipo de assessoria financeira.

A mudança do método, disse ele, teria ocorrido em razão do crescimento da empresa, estratégia de governança e “adequação ao padrão do mercado”. “Estávamos bem confortáveis em trabalhar no outro sistema, porque crescemos muito. Então, estávamos incomodando muita gente.”

Desde 2021, a Fictor abriu pelo menos 12 SCPs, que totalizam R$ 1,673 bilhão em capital social. Os números levantados pela companhia, no entanto, são substancialmente maiores. De acordo com documentos obtidos pelo NeoFeed, somente em 2024, a Fictor afirma ter originado R$ 3,5 bilhões em negócios, considerando todo o conglomerado.

Assim como os SCPs, os FIDCs são vendidos como instrumentos para financiar o crescimento da companhia e possuem retornos prometidos acima da média da indústria. No FIDC da Fictor, os retornos-alvo variam de 1,4% a 1,8% ao mês, dependendo do valor investido. O aporte mínimo é de R$ 30 mil, sendo que, para o retorno-alvo de 1,8%, é pedido ao menos R$ 5 milhões.

“O dinheiro entra no ecossistema da Fictor. É usado para a compra e venda de grãos, para o negócio de energia, na parte de crédito consignado. No consignado, por exemplo, emprestamos a 2,8%. Então, pagamos o investidor e ainda temos lucro”, disse o agente da Fictor.

O fundo em questão é o Fictor Invest FIDC, administrado pela BRL Trust e gerido pela própria Fictor Asset. Iniciado em agosto de 2025, já havia captado R$ 230 milhões até novembro, data do último informe mensal apresentado pelo fundo.

Esse FIDC investe majoritariamente em cotas de outros FIDCs, que têm como lastro direitos creditórios. Entre os principais ativos dessas estruturas estão operações de crédito consignado para servidores públicos, recebíveis ligados ao agronegócio e financiamentos a projetos de energia solar, segundo o material divulgado pelo fundo.

Recém-iniciado, o fundo já é o maior dos seis FIDCs da Fictor. Ainda que não os oferecesse de maneira ativa como agora, a companhia utiliza esses instrumentos pelo menos desde 2022, e possui R$ 628 milhões em patrimônio líquido em seus FIDCs.

O avanço dos FIDCs não é exclusivo da Fictor. Nos últimos anos, esse tipo de fundo se tornou um dos segmentos de maior crescimento do mercado brasileiro, impulsionado pela flexibilidade na concessão de crédito e pela possibilidade de estruturar operações sob medida para diferentes perfis de risco e retorno.

Por outro lado, apesar de serem instrumentos regulados, os FIDCs costumam ter baixa transparência sobre os créditos que compõem suas carteiras, o que dificulta a avaliação do risco real por parte dos investidores.

Assim como nas SCPs, os FIDCs da Fictor vêm sendo vendidos com garantia de resgate em até 60 dias. Mas, se depender do histórico recente da companhia com as SCPs, esse prazo tende a se estender.

Resgates em atraso

Em um dos casos contatados pelo NeoFeed, um investidor que pediu para não ter o nome divulgado afirma ter aplicado R$ 200 mil em uma SCP da Fictor em agosto do ano passado. O resgate foi pedido em outubro e estava previsto para ser depositado em 27 de dezembro, 60 dias depois. Mas nada foi pago.

No Reclame Aqui, a companhia tem enfrentado um aumento de reclamações relacionadas ao atraso. Somente na página da Fictor Invest, dentro do portal, foram feitas ao menos 30 reclamações nos últimos 20 dias, das quais 19 foram há menos de 10 dias. Somente duas reclamações haviam sido feitas anteriormente.

Segundo o investidor, desde então a empresa apresentou diferentes justificativas para o atraso e passou a trabalhar com a promessa de um novo prazo, em 11 de fevereiro.

A primeira justificativa, disse, foi um suposto ataque hacker. Em seguida, a Fictor informou a ele que estava passando por “mudanças internas”. “Depois, que a CVM estava lá e não conseguia fazer movimentações até resolver os problemas.”

Outro investidor contatado pelo NeoFeed afirma que tem aplicações em SCP da Fictor há dois anos e que chegou a receber duas vezes resgates parciais solicitados durante esse período. Na terceira vez, porém, tem enfrentado atraso no pagamento.

“Fiz o resgate duas vezes e deu certo, vi que a empresa estava patrocinando o Palmeiras e o Aeroporto de Congonhas. Então, conversei com minha esposa e coloquei valores maiores. Agora, não consigo retirar", disse o investidor também na condição de anonimato. 

Fora as reclamações dos clientes, a Fictor é investigada no processo nº 19957.000116/2026-15, aberto na CVM após denúncia da Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (ABAI) sobre o método de captação da empresa.

"Nesse cenário, que na opinião da ABAI está distorcido, observam-se promessas de rentabilidade incompatíveis com a realidade atual do mercado financeiro e com a natureza de renda variável das SCPs", diz a Associação, em nota enviada ao NeoFeed.

A ABAI também classificou como "preocupante" a falta de registros nos aportes por serem feitos diretamente em contas correntes. De acordo com a nota, é prometido aos assessores de investimentos comissionamento de até 2% ao mês sobre o valor captado e há relatos de promessas de retorno de até 3% ao mês para o cliente.

Em nota ao NeoFeed, a Fictor afirma que os resgates dos SCPs serão pagos em 12 de fevereiro. Segundo a empresa, os pagamentos não foram feitos dentro do prazo devido a "um ambiente de maior pressão externa, decorrente de questionamentos públicos e exposição midiática, que levou alguns parceiros e stakeholders a endurecer procedimentos internos próprios, impactando prazos operacionais que envolvem múltiplas etapas e contrapartes."

A companhia afirma que, desde então, "deliberadamente optou por reorganizar fluxos, reforçar controles e readequar cronogramas, com foco na implementação de uma solução definitiva". "As comunicações realizadas com investidores refletiram esse cenário de forma consistente, sem qualquer relação com impedimentos regulatórios ou alteração de direitos já constituídos", diz a nota.

Sobre a mudança do modelo de SCPs para FIDCs, a empresa afirmou que reflete uma "evolução". "A decisão teve foco em maior robustez regulatória, governança, transparência e proteção ao investidor, uma vez que o FIDC é um veículo regulado, sujeito à supervisão da CVM, com segregação patrimonial, prestação periódica de informações, auditoria independente e estrutura formal de gestão e controles."

A Fictor afirmou ainda que "a transição não decorre de qualquer irregularidade das estruturas anteriormente utilizadas, que permanecem válidas nos termos de seus instrumentos contratuais, tratando-se de opção estratégica alinhada ao estágio atual do negócio".

Sobre o modelo de distribuição, a empresa disse que as SCPs decorrem de instrumentos contratuais privados e que não há atuação de agentes autônomos ou qualquer forma de intermediação irregular na distribuição de seus FIDCs.

"A integralização de cotas ocorre exclusivamente nos termos do regulamento e dos documentos do fundo, sob a responsabilidade do gestor, observados os controles de suitability, prevenção à lavagem de dinheiro e demais deveres legais e regulamentares aplicáveis", diz a nota.