O que vinha sendo tratado como uma disputa silenciosa de bastidores na Oncoclínicas se transformou em um confronto aberto entre seus principais acionistas e vai além da complexa reestruturação financeira do maior grupo especializado em tratamento de câncer na América Latina.

O NeoFeed teve acesso a uma carta que a Mak Capital vai enviar à companhia pedindo a convocação de uma assembleia geral extraordinária (AGE) e a destituição imediata de todo o seu conselho de administração, que foi eleito em janeiro deste ano.

Com apoio de Arc Capital, Kapitalo, Banco Original e Santander, a Latache, que possui quase 15% do capital, elegeu cinco dos sete membros escolhidos, com Marcelo Gasparino como presidente.

O requerimento deve ser remetido pela Mak, que detém 6,3% do capital, após o fechamento de mercado de terça-feira, 24 de março, apurou o NeoFeed.

No texto, a gestora americana de hedge funds com US$ 1,7 bilhão sob gestão discricionária, fala em "tempestade perfeita" onde a crise financeira transbordou para o atendimento aos pacientes. Para os acionistas, o conselho atual falhou em apresentar medidas concretas para salvar a liquidez da empresa e agora tenta uma "venda forçada” por meio de um acordo com a Porto e o Fleury.

A Mak sobe o tom ao dizer que a proposta de M&A tem como fator principal o núcleo gerador de caixa e "filé mignon" da Oncoclínicas, que passariam a ser controladas pela Porto e pelo Fleury.

Em troca, as duas empresas fariam um aporte conjunto de R$ 500 milhões em equity e subscreveriam mais R$ 500 milhões em debêntures conversíveis. A NewCo assumiria até R$ 2,5 bilhões da dívida total da Oncoclínicas, hoje superior a R$ 4 bilhões.

Para a Mak, ela e outros minoritários deixariam de ser donos do principal negócio para se tornar sócios minoritários de uma empresa controlada por Porto e Fleury.

Por isso, a gestora classifica a transação como "totalmente inadequada" para as atuais circunstâncias (no pior momento de valorização da história da companhia), seja pela "excessiva complexidade" seja porque dificilmente seria concluída a tempo de evitar uma crise de liquidez severa.

Um ponto importante, segundo a Mak, é que o desenho proposto parece atribuir um "valuation negativo" aos negócios que permaneceriam na Oncoclínicas, deixando para trás um endividamento relevante sem fluxo de caixa suficiente para honrá-lo.

"A transação proposta aparenta ser uma resposta totalmente inadequada para as circunstâncias da Companhia”, escreve a Mak. “A transação parece transferir para a NewCo o principal ativo da Companhia deixando um endividamento relevante e negócios que não parecem capazes de gerar fluxo de caixa suficiente para suas operações."

Como alternativa a essa grande mudança, a Mak diz estar "trabalhando com outros investidores" para injetar até R$ 500 milhões na companhia.

"A Mak também reconhece que a Companhia precisa de injeção de novos recursos no curto prazo”, escreve o hedge fund. “Contudo, a Mak somente considerará esse compromisso caso ocorra a substituição da maioria dos membros do atual Conselho de Administração, de modo a permitir a condução adequada do processo."

O fator Camille

Outro ponto levantado pela Mak é a crise no comando financeiro da Oncoclínicas, que foi aberta pelo board. Para a gestora, um deal deste tamanho corre o risco de ser realizado sem um diretor financeiro adequado para estruturá-lo.

Em um dos trechos do documento, a Mak classifica como uma "excelente decisão" a nomeação de Camille Faria como CFO em fevereiro.

No entanto, a renúncia repentina da executiva, reconhecida por sua experiência em reestruturações, com participações em Oi e Americanas, é vista pela Mak como reflexo de "tensões internas e a falta de consenso" do board em torno de um plano viável e consistente de recuperação.

Uma pessoa próxima à executiva disse ao NeoFeed em condição de anonimato que os conselheiros enxergaram um “excesso de pedidos e exigências de Camille”. E ela teria sido “convidada a renunciar” porque discordou dos termos pouco transparentes do fato relevante enviado ao mercado sobre o início das negociações com a Porto.

Para a Mak, a saída de Camille em um momento tão crítico reforça a percepção de que o conselho não foi capaz de criar um ambiente propício para estabilizar a companhia.

Na carta, o hedge fund diz que "sua renúncia ocorre em um momento particularmente crítico para a Companhia. Os eventos recentes que cercaram sua renúncia reforçam a percepção de que as decisões tomadas pelo novo Conselho de Administração não foram capazes de criar ambiente propício ao desenvolvimento e à execução de um plano coerente".

No mesmo dia de sua renúncia, o CFO Marcel Cecchi Vieira - um dos sócios da Latache que assumiu a cadeira de Camille - assina o texto encaminhado ao mercado em que fala que “nos termos do term sheet, sujeito à negociação e celebração dos documentos definitivos, as Partes pretendem estruturar a Operação por meio da constituição de uma NewCo. Em linhas gerais, a Operação pretendida teria as seguintes características indicativas…”

A Mak questiona como o atual conselho de administração vem conduzindo as deliberações. Segundo a carta, a aprovação do term sheet com a Porto ocorreu por maioria, mas com votos escritos divergentes apresentados por dois conselheiros independentes que não foram divulgados ao mercado.

A gestora afirma que "a omissão dessas informações é ilegal e impede que acionistas tenham conhecimento da avaliação completa feita pela administração".

Pessoas próximas à empresa relatam que, embora o M&A possa ter mérito estratégico no longo prazo, ele ignora o problema imediato. A Oncoclínicas enfrenta uma situação perigosa: um desafio de curto prazo, que é "urgente e fatal" devido à falta de liquidez, e um de médio prazo sobre o futuro estratégico.

Na visão da Mak, não "se paga dívida financeira e se deixa de pagar fornecedor, porque isso é a receita do fim".

A visão da gestora é de que o acordo com Porto e Fleury não resolve o problema de curtíssimo prazo, servindo apenas como um paliativo que não traz liquidez imediata para honrar vencimentos iminentes.

Na carta, a Mak mostra o diagnóstico financeiro. Em 30 de setembro de 2025, os números já indicavam uma dívida líquida da ordem de R$ 4,2 bilhões, passivo circulante em torno de R$ 2,7 bilhões e prejuízo acumulado superior a R$ 2 bilhões.

Mesmo após o aumento de capital de R$ 1,4 bilhão em novembro, os recursos não foram suficientes para proteger a operação e preservar valor. Em 12 de março, a agência de risco Fitch rebaixou o rating da companhia para o nível "C", registrando que "a liquidez da Oncoclínicas é insuficiente para honrar o serviço de dívida e sua alavancagem é insustentável nos níveis atuais".

Com vencimentos de R$ 745 milhões previstos para 2026, a projeção é de que a empresa encerre o ano com saldo de caixa inferior a R$ 100 milhões.

“A liquidez da Oncoclínicas é insuficiente para honrar o serviço de dívida e sua alavancagem é insustentável nos níveis atuais", escreve o hedge fund.

A Mak também fala da deterioração da assistência médica, que deixou os balanços e chegou ao dia a dia das clínicas. No requerimento de AGE, a gestora afirma que “reclamações divulgadas na internet e informações de mercado indicam atrasos no pagamento a fornecedores e, em especial, mau atendimento a pacientes, como falta de remédios, atraso ou cancelamento de agendamentos e interrupção de tratamentos".

Longo histórico

Em janeiro deste ano, a Mak já havia tentado alterar a composição do board, sem sucesso. Agora, o fundo alega que o conselho falhou em seu dever de perseguir soluções efetivas, justificando a troca imediata.

Como a gestora detém mais de 5% do capital, a administração é obrigada por lei a convocar a assembleia. Caso não o faça no menor prazo previsto, os próprios acionistas podem tomar as providências.

Além do desgaste interno dos últimos meses, o imbróglio carrega o peso da exposição ao Banco Master, que gerou um "buraco" de confiança no mercado.

Em entrevista ao Pipeline, o CFO Vieira disse que “as ações que eram detidas pelo Master e foram objeto de uma repactuação de CDBs, estão na fase de troca de minutas com o BRB” - que passa a ser um acionista relevante com 8,7% do capital.

Em meio ao caos societário e financeiro, o fundador Bruno Ferrari já havia deixado o cargo de CEO, conforme o NeoFeed antecipou em uma série de reportagens. Carlos Gil foi escolhido como CEO.

A Oncoclínicas, agora, precisa correr contra o tempo. A Mak exige que a AGE ocorra em até 30 dias após a publicação do edital.

Simultaneamente, a companhia tenta obter waivers de cinco emissões de debêntures para evitar o vencimento antecipado de suas dívidas já em abril de 2026.

Com as assembleias de debenturistas no horizonte e o caixa em níveis críticos, a batalha será decidida na transparência das informações e na capacidade de os acionistas estabilizarem a companhia societariamente antes que a falta de liquidez se torne irreversível.

Na B3, o M&A costurado pela Oncoclínicas fez o papel ONCO3 registrar 57,05% de valorização no pregão de segunda, 23, aos R$ 2,45. No dia seguinte, houve parte de realização dessa alta, com a ação caindo 20%, para R$ 1,96. Em 12 meses, o ticker ONCO3 cai 63,8%. O valor de mercado da companhia é de R$ 2,19 bilhões.

Procurada pelo NeoFeed, a Mak Capital disse que não iria se pronunciar.