O impacto que a inteligência artificial (IA) terá na vida das pessoas e das empresas será muito maior do que todas as grandes invenções da história. Por isso, segundo Luís Roberto Barroso, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), é preciso começar a discutir como regular a tecnologia, mas sem criar regras que travem a pesquisa e o desenvolvimento.

"Vivíamos a dificuldade da regulação da economia digital, quando subitamente apareceu a quarta revolução industrial, que é a IA", disse Barroso na quarta-feira, 25 de março, durante participação no South Summit Brazil, evento do qual o NeoFeed é parceiro de mídia. "Os riscos não são pequenos."

O ex-ministro do STF elencou quatro temas nos quais a IA terá impacto direto: mercado de trabalho; uso da tecnologia para fins bélicos; massificação de desinformação e fake news; e possibilidade da singularidade, ponto hipotético futuro em que a IA superará a inteligência humana, a ponto de ganhar consciência e agir por conta própria.

"A IA está provocando uma mudança estrutural na vida das pessoas, no significado do que é ser humano. Ela é a transferência da capacidade humana para as máquinas, que envolvem tomadas de decisão", disse. "Teremos o desaparecimento de muitas funções. Sentiremos o impacto de não conseguir transformar os motoristas de Uber em programadores."

Para ele, a grande questão é que a tecnologia já está no dia a dia e evolui rapidamente. Barroso citou que enquanto o telefone fixo levou 75 anos para atingir 100 milhões de usuários no mundo e o celular cerca de 16 anos, o ChatGPT levou dois meses para atingir a marca. "A questão é que é preciso regular com o trem em movimento", disse.

Esta característica torna "dificílimo" regular a IA. Por isso, o ex-ministro do STF defendeu que é preciso pensar no tema em "princípios gerais", criando regras para proteger os princípios democráticos e para que a tecnologia seja transparente.

"É preciso ter cuidado com o risco de termos regulação excessiva, que iniba a pesquisa e resulte em reserva de mercado para atores que estão lá", afirmou. "Apesar de todas as modernidades, são os valores tradicionais que movem a humanidade, o bem, a justiça, a busca pela verdade e a dignidade das pessoas."

Além da tecnologia, Barroso afirmou que é preciso repensar as regras que regem as grandes empresas do setor, dos mais variados segmentos da economia, pelo tamanho que tomaram, com valores de mercado equivalentes ao PIB de grandes países.

Segundo ele, um dos desafios que essas empresas colocam está na questão concorrencial, com muitas companhias sendo monopólios em áreas que ganharam importância na vida das pessoas, caso das buscas de internet, redes sociais e marketplaces.

"Essas empresas possuem um domínio do espaço público cada vez maior", afirmou. "É uma questão de soberania digital."