Após quatro anos de ajustes, a MRV&Co vê 2026 como um ano de terreno preparado para acelerar operações no Brasil, beneficiando-se das medidas que garantiram maior rentabilidade, enquanto busca reduzir o peso da unidade de multifamily nos Estados Unidos - mesmo com sinais de retomada no mercado americano.

"Tivemos uma recuperação importante de margem nos últimos anos, saindo de níveis muito baixos em 2022 e chegando a 31% de margem contábil e 35% em novas vendas", disse Rafael Menin, CEO da MRV&Co, na terça-feira, 10 de março, em encontro com investidores. "E o que vem pela frente? Dá para fazer mais? Temos convicção de que sim."

Neste novo ciclo que se inicia, o aumento da venda sobre oferta (VSO) terá bastante destaque. A ordem é acelerar o indicador, que demonstra o percentual de unidades comercializadas em relação a um total de disponíveis. Depois de atingir um VSO líquido de 24% no quarto trimestre, a MRV avalia que o VSO médio trimestral em 2026 pode alcançar 28%.

A avaliação é de que o cenário está positivo para elevar as vendas. As mudanças propostas pelo governo federal Minha Casa, Minha Vida nas faixas de renda e tetos de preços aumentam o acesso do público ao portfólio da MRV - cerca de 95% dos empreendimentos da companhia são focados para o programa habitacional.

Pelos cálculos da companhia, no grupo inicial do programa, que possui demanda alta e carga tributária menor, o Valor Geral de Venda (VGV) subiria de R$ 2,2 bilhões para R$ 3,6 bilhões, permitindo acelerar os lançamentos neste ano. Esse cenário vem acompanhado por um déficit habitacional da ordem de 5,9 milhões, o que mantém a demanda por imóveis estável.

"Estamos no melhor momento do mercado imobiliário para o Minha Casa, Minha Vida", disse Thiago Ely, diretor executivo comercial e de marketing da MRV. "As mudanças de 2026 ajudam demais a MRV, são muito relevantes para nós, com o risco de dizer que são mais importantes para nós do que para outros da concorrência."

Os executivos buscaram destacar que o aumento do VSO virá acompanhado de ganho de rentabilidade, diante dos ajustes feitos na parte comercial, engenharia e desenvolvimento imobiliário.

Entre os ajustes está uma nova forma de construir o banco de terreno, com uso maior de permuta, passando por tornar a construção mais eficiente. Também inclui garantir que os imóveis sejam vendidos acima da inflação e atuação em algumas poucas cidades, passando de 130 para 80 no ano passado.

"Esse sincronismo que a gente está estabelecendo, de comprar melhores terrenos, com custo mais baixo, com permuta, vender mais rápido, com ciclo de venda e repasse muito mais acelerado, repassando na mesma quantidade que vai produzir, vai trazer um equilíbrio de caixa", afirmou Ely.

A questão do caixa foi um ponto que "pegou" na MRV no ano passado, o descasamento entre unidades produzidas e vendidas da ordem de 5 mil unidades, apesar de não ter sido despesa financeira. A situação fez com que a companhia descumprisse o guidance de 2025 - em vez de uma geração de R$ 500 milhões a R$ 700 milhões, houve um consumo de quase R$ 60 milhões.

Para Ricardo Paixão, CFO da MRV, a situação deve ser contornada neste ano com a perspectiva de aceleração das vendas, que também deve continuar ajudando na frente de alavancagem, com a relação entre a dívida líquida e o Ebitda anualizado fechando 2025 em 0,8 vez.

"Começamos 2026 sem necessidade de fazer nenhuma captação ao longo dos próximos dois anos, com R$ 300 milhões de dívida corporativa vencendo nos próximos dois anos e que serão pagos com geração de caixa", afirmou.

A decisão sobre a Resia

No caso da Resia, detrator dos resultados da MRV nos últimos tempos, a ordem é de reduzir os riscos. Isso significa que a companhia não vai mais desenvolver novos projetos, pelo menos enquanto estiver dentro da estrutura da MRV.

"Isso não significa que a Resia vai acabar", afirmou Menin. "Gostamos da Resia, estamos estudando alternativas. Essa companhia vai continuar, dentro de um novo modelo societário. Em algum momento, deixaremos de ter ativos da Resia debaixo do balanço da MRV."

Até o fim deste ano, a MRV pretende vender um total de US$ 800 milhões em ativos da Resia, entre empreendimentos e terrenos, sendo que a companhia já levantou US$ 167 milhões.

Menin destacou que a ideia não é sair correndo para vender, diante do risco de destruir valor. A proposta é ganhar valor com os ativos via aluguel, comprovando sua qualidade, para conseguir os preços considerados adequados. "Quero ter a opcionalidade de fazer a venda dos ativos na melhor cadência possível", afirmou.

Por volta das 15h13, as ações da MRV subiam 3,03%, a R$ 8,83. Em 12 meses, os papéis acumulam alta de 14,4%, levando o valor de mercado a R$ 4,9 bilhões.