Na era da inteligência artificial, a fabricante de brinquedos americana Hasbro, dona dos populares jogos de tabuleiro Monopoly (Banco Imobiliário) e CandyLand, resolveu inverter o jargão de que "em casa de ferreiro, espeto é de pau."
De uma forma inusitada, a companhia desenvolveu um jogo de tabuleiro de estratégia dentro de casa para formar seus próximos líderes. Batizado de Toy Tycoon, o jogo permite que os funcionários possam se tornar CEO por um dia.
O jogo de estratégia simula a rotina de um executivo e permite que os participantes tomem decisões importantes para o futuro da companhia, sem colocá-la efetivamente em risco, já que treinar essas habilidades no "mundo real" poderia custar caro a empresa, avaliada em US$ 11,5 bilhões.
Dessa forma os funcionários escolhem em qual jogo investir, qual licença de personagem negociar ou em qual formato a empresa deve aposta no futuro. Pode parecer brincadeira, mas não é.
Os funcionários só podem participar dessa "brincadeira" após um curso intensivo de dois dias sobre a indústria de brinquedos e os negócios da Hasbro. Após essa fase, o jogo em si tem duração de um dia inteiro e conta a supervisão de um “mestre”, que navega os participantes entre diversas fases, que se tornam cada vez mais complexas.
Segundo o CEO da companhia, Chris Cocks, em entrevista ao The Wall Street Journal, essa estratégia vai de encontro com o que ele acredita que um líder deve ter. Em sua visão, a função de CEO se assemelha – e muito – a um jogo de estratégia, com seu dinamismo, ineditismo e desafios constantes.
A estratégia da Hasbro para treinar seus funcionários não é exatamente uma novidade - embora a fabricante de brinquedos tenha inovado ao usar um jogo de estratégia de tabuleiro com esse fim. Outras empresas adotam o que ficou conhecido como "gamificação".
Esse é o caso da Cisco, que criou, em meados de 2015, um programa que facilita o processo de aprendizado de seus trabalhadores e ainda concede certificados aos mais bem-sucedidos na ferramenta. Na Deloitte, o mesmo método é utilizado com as lideranças. Como resultado, o trabalho fica pronto em metade do tempo em relação ao modelo tradicional, sem gamificação.
A Microsoft também aposta na técnica de games para boa parte dos seus funcionários em todo o mundo. Seu principal foco é fazer as traduções de seus produtos e serviços serem cada vez mais perfeitas, de acordo com cada língua e dialeto dos países nos quais trabalha. Assim, a empresa desenvolveu um jogo focado nesse aperfeiçoamento, para que o processo fosse mais fluído, o que trouxe bons resultados.
A estratégia de gamificação ganha força como uma forma de motivação para os funcionários, que vem perdendo o foco e a produtividade com o passar dos anos. Em 2024, a taxa de engajamento no trabalho atingiu 21%, primeira queda em quatro anos, segundo a pesquisa State of the Global Workplace, da consultoria Gallup. Globalmente, esse recuo custou cerca de US$ 8,9 trilhões para as companhias, o que representa aproximadamente 9% do PIB mundial.
Os dados mostram que, com a gamificação de diversos processos, a produtividade pode aumentar em 90% nas equipes, enquanto o engajamento dos profissionais sobe cerca de 60%. Isso ocorre porque, com um formato de jogos bem estruturado, os colaboradores se sentem recompensados por aprimorar suas habilidades.
Mas é importante lembrar que, sem o engajamento dos líderes, o trabalho perde seu valor. Isso porque, segundo a Gallup, os gestores respondem por 70% da variação no engajamento das equipes – o que coloca a estratégia da Hasbro e da Deloitte ainda mais em evidência.