A vida não está nada fácil para Oliver Blume, o CEO da Volkswagen. Três dias depois de a montadora confirmar o plano de demitir 100 mil funcionários e encerrar a produção de quatro fábricas na Alemanha, o executivo tem pela frente um desafio de uma magnitude proporcional a esse movimento.

Na tradução desse dilema, ele terá de encontrar alternativas para cobrir os custos substanciais desses desligamentos, que, por si só, já configurariam um dos maiores programas de demissões da história, superando os cortes expressivos da GM e da IBM na década de 1990.

Como um fator agravante, Blumer terá de equilibrar esses pratos com os desafios adicionais de reduzir a dívida da Volkswagen e, ao mesmo tempo, garantir que a empresa faça os investimentos necessários para desenvolver sua próxima geração de veículos.

Outra iniciativa recente dá uma medida do quão crítica é a situação da montadora alemã, que, desde a nomeação de Blume como CEO, em setembro de 2022, vê a cotação de suas ações cair quase pela metade, sob a forte concorrência das marcas chinesas, em meio à transição para os carros elétricos.

Dois dias antes da confirmação do plano de demissões, a empresa vendeu a fatia de 51% que detinha na Everllence, de motores marítimos, para a Bain Capital. A Volkswagen não divulgou o valor do negócio e informou apenas que o acordo gerou € 7,4 bilhões em recursos, incluindo dívidas.

Segundo o Financial Times (FT), que cita fontes próximas à companhia, a Volkswagen pode precisar de uma cifra maior para financiar sua reestruturação, que tem o potencial de anular os eventuais lucros desse desinvestimento.

“Há uma probabilidade muito alta de vermos custos adicionais de reestruturação surgindo no segundo semestre, que podem chegar a bilhões de euros. Todo o entusiasmo em torno da transação da Everllence praticamente desapareceu do ponto de vista dos acionistas”, afirmou Patrick Hummel, analista da UBS, ao FT.

O resultado dessa equação foi o crescimento dos questionamentos entre investidores e analistas a respeito da necessidade de a Volkswagen buscar novas vendas de ativos, bem como quais destinos a empresa daria aos recursos obtidos em eventuais transações.

As dúvidas sobre novos M&As surgem num momento em que os investidores que buscam proteção contra a onda de transações impulsionada pela inteligência artificial em setores como software demonstram interesse renovado em ativos industriais.

Nesse cenário, a Volkswagen indicou que poderá se desfazer de mais ativos não essenciais, o que incluiria fatias na unidade de baterias PowerCo e na ADMT, divisão de direção autônoma. A montadora já reduziu sua participação na fabricante de caminhões Traton.

A visão otimista é de que a companhia usará a receita de eventuais acordos para investimentos. Já a mais cética projeta que os recursos simplesmente seguirão financiando ineficiências contínuas, afirmou uma fonte próxima à empresa.

Na ponta dos investidores, a expectativa é de quaisquer novas vendas sejam tão lucrativas quanto o desinvestimento na Everllence. Nesse processo, que se estendeu por quase dez meses, a Bain superou propostas de gestoras rivais como CVC Capital Partners e EQT.

Pessoas com conhecimento dessa negociação disseram que o leilão gerou retornos lucrativos para a Volkswagen e ficará marcado como um dos mais memoráveis das negociações recentes na Alemanha. No final desse processo, todas as propostas avaliaram a Everllence em uma cifra próxima a € 10 bilhões.

A proposta da Bain foi considerada, no entanto, a melhor com base no preço proposto, no acordo de acionistas, no contrato de compra e venda e no plano de criação de valor, segundo as fontes.

Após a venda bem-sucedida, analistas esperam que as propostas recentes feitas para que a Volkswagen venda suas joias da coroa, Entre elas, a marca de motocicletas Ducati, ou tenha de abrir o capital da Lamborghini.

Alguns consultores disseram, porém, que a probabilidade da montadora alemã vender essas marcas era baia e alertaram que a alienação de ativos deficitários, como a PowerCo, provavelmente não seria tão lucrativa quanto a venda da Everllence.

Em paralelo, outra opção na mesa seria um IPO da Scout, marca de picapes da Volkswagen nos Estdos Unidos. Ao mesmo tempo, a empresa estaria realizando um estudo de viabilidade para atrair investidores externos para essa operação.

“O melhor seria simplesmente parar de investir e aceitar o fato de que o que você gastou até agora são custos irrecuperáveis. Acho que esse seria o melhor resultado financeiro”, disse Hummel, da UBS.

A Volkswagen, por sua vez, recusou-se a comentar sobre a possível venda de outros ativos do seu portfólio. A empresa afirmou ainda que uma decisão sobre como utilizar os recursos da venda da Everllence será tomada posteriormente.

As ações da Volkswagen fecharam o pregão de hoje na Bolsa de Valores de Frankfurt com queda de 4,34%, avaliando a empresa em € 36,4 bilhões. Em 2026, os papéis acumulam uma desvalorização de 30,3%.