A Apple entregou um trimestre com vendas do iPhone acima do previsto depois de meses sob pressão justamente porque o seu principal produto não apresentava crescimento. No entanto, as ações da empresa não reagiram aos bons números. Agora, os investidores estão preocupados com gargalos de custos de componentes.

Na noite de quinta-feira, 29 de janeiro, a Apple reportou receita de US$ 143,8 bilhões no trimestre fiscal encerrado em 27 de dezembro de 2025, com lucro por ação de US$ 2,84 — ambos em máximas históricas para o período. A estrela foi o iPhone: US$ 85,27 bilhões de receita, alta de 23% na comparação anual.

O número do iPhone é particularmente relevante porque responde a um incômodo que vinha rondando o papel: a sensação de que o ciclo do smartphone já não entregava aceleração suficiente.

O que a Apple mostrou agora é que a demanda reapareceu com força — em especial na Ásia, com salto de 38% das vendas na China — a ponto de a própria companhia projetar crescimento de receita entre 13% e 16% para o trimestre fiscal seguinte, acima do que o mercado esperava. Ajudando a desmontar (ao menos por enquanto) o medo de que o mercado chinês tivesse virado um freio estrutural para a empresa.

A reação, no entanto, foi na direção oposta do resultado, com as ações da Apple chegando a recuar quase 2% na abertura do pregão de sexta, 30. Por volta de 12h40 (horário local), o papel recuava 1,2%.

A razão é que os resultados vieram com um “asterisco” justamente onde a Apple é mais cobrada: capacidade de transformar demanda em vendas sem sacrificar margem.

O CEO Tim Cook alertou para um ambiente de restrição global de DRAM (memória), pressionada pela demanda ligada a inteligência artificial — um cenário que pode bater em custos e, portanto, em rentabilidade, além de impor limites de oferta. Pode haver limitações em processadores por demanda elevada do mercado.

A leitura do mercado é que o trimestre foi excelente, mas há dúvidas sobre o próximo com custo de componentes subindo e risco de gargalo em partes críticas da cadeia. Os investidores estão mudando a tese sobre a empresa: a Apple pode não estar fabricando mais por questão de custo, não de demanda.

Outro detalhe que tirou um pouco do brilho do resultado: a categoria de wearables e acessórios ficou abaixo do que analistas esperavam. E esse segmento costuma ser visto como um motor complementar de crescimento e fidelização.

Humor com tecnologia mudou

A queda da Apple também acontece num dia em que o setor de tecnologia, no agregado, não está ajudando. O ETF que replica o Nasdaq 100 (QQQ) recuava cerca de 0,6%, e o ETF setorial de tecnologia (XLK) caía em torno de 1%. Enquanto o S&P 500 cedia menos, perto de 0,35%.

Essa reação é uma prova de que o mercado está mais exigente com os valuations: em vez de premiar automaticamente apostas de crescimento, o investidor quer ver, com clareza, que a equação fecha em margem e geração de caixa. Especialmente no momento em que a corrida de IA começa a cobrar uma conta de investimento (capex) cada vez mais visível.

O exemplo mais barulhento desta semana veio da Microsoft. Mesmo com números fortes, o papel despencou depois de frustração com crescimento do Azure e, principalmente, com a escalada de gastos ligados à infraestrutura de IA. As ações caem mais de 10% no mês.

Ao que parece, o mundo cor de rosa das big techs está se tornando mais real.