Na guerra das plataformas de e-commerce no varejo brasileiro, a palavra da vez é velocidade. Em uma disputa que envolve um mercado de R$ 235,5 bilhões e 438 milhões de pedidos ao ano, segundo a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom), as empresas entenderam que, para ganhar terreno, precisam ser cada vez mais rápidas.

Com esta lógica, os principais players que atuam no País - Amazon e Mercado Livre -, incluindo as plataformas asiáticas Shopee, Temu, Aliexpress e Shein, têm demonstrado, em seus últimos balanços, que as condições competitivas têm sido tema recorrente. O que significa que, na prática, a competição liderada pela logística deixou de ser apenas uma escolha estratégica.

Em relatório, o BTG Pactual apontou o plano estratégico de algumas das empresas de vendas on-line para avançar na receita, a partir de investimentos para aprimorar a malha de entrega.

“A logística tornou-se requisito básico, comprimindo o espaço para modelos com entrega mais lenta e elevando o padrão de consistência no nível de serviço em todo o País”, escreveram os analistas Luiz Guanais e Yan Cesquim, no relatório.

“As condições competitivas no Brasil convergem para um modelo de três volantes: limiares mais baixos de frete grátis para ganhar frequência, entregas mais rápidas como novo motor de conversão, e ações de monetização de maior margem (anúncios mais serviços financeiros) para financiar os dois anteriores”, complementa o texto.

Neste sentido, os especialistas de varejo do BTG enxergam o Mercado Livre com uma ligeira vantagem aos seus principais concorrentes. “O ecossistema atual do Mercado Livre (envio financiado por escala, somado a pagamentos, crédito e publicidade) representa um diferencial competitivo”, disseram os especialistas.

Ainda segundo o banco, o movimento mais relevante da companhia nos últimos 12 meses foi a redução do gasto mínimo para frete grátis no Brasil, caindo de R$ 79 para R$ 19. A estratégia teve como objetivo defender a frequência de compra e o funil de itens de baixo valor.

A própria empresa afirma que a medida já está “gerando resultados fortes”, com aumento de 29% de compradores únicos no país no terceiro trimestre de 2025, comparado com a mesma base do ano anterior.

Na divulgação de resultados do terceiro trimestre, o Mercado Livre destacou crescimento nos itens vendidos e queda de 8% no custo de envio por unidade. Ainda assim, o BTG enxerga uma competição muito acirrada pelo consumidor digital no Brasil.

“A leitura prática para 2026 é de que a intensidade competitiva deve permanecer elevada: vencerá quem conseguir continuar comprimindo o custo final entregue ao consumidor enquanto amplia as alavancas de monetização”, completa o documento.

Segundo dados consolidados pelos analistas do BTG, a Shopee tem posicionado a execução logística como uma das principais ferramentas para avançar em categorias de maior valor e em públicos com maior tíquete médio.

A companhia de Singapura vem registrando, de forma sequencial, avanço na velocidade de entrega. Em uma comparação ano contra ano, a entrega da Shopee ficou dois dias mais rápida. Na Grande São Paulo, um a cada três pacotes já é entregue no dia seguinte, e quase a metade em até dois dias.

“A postura competitiva da Shopee no Brasil continua ancorada na eficiência estrutural da logística. A Sea (dona da plataforma) vem reportando menor custo logístico por pedido, junto com entregas mais rápidas no país, além de melhora no mix de categorias à medida que a velocidade avança”, afirma o BTG.

Na visão dos analistas, o mix financeiro reportado pela plataforma de Singapura sinaliza uma inclinação estratégica, em que a receita do marketplace principal cresce de forma consistente ano contra ano, enquanto os serviços de valor agregado variam, conforme a dinâmica de subsídios evolui.

A Amazon tem seguido uma trilha de crescimento na malha logística, com anúncios recentes de avanços expressivos na velocidade. Hoje, a companhia entrega no mesmo dia em centenas de cidades brasileiras, e em até um dia em mais de mil municípios. Também oferece frete grátis acima de R$ 19 para itens vendidos e entregues pela plataforma.

“Sob a ótica da controladora, o último trimestre da Amazon reforçou a máquina global que a empresa leva a todos os mercados: intensidade contínua em capacidade logística, mix elevado de vendedores terceiros e escala crescente em publicidade”, explica os analistas.

Recentemente, a Amazon anunciou o crescimento das operações na Região Norte, em especial no Amazonas. Isso resultou em melhora expressiva no tempo de entrega. Em Manaus, por exemplo, o prazo caiu para dois dias.