As ações da Novo Nordisk afundaram até 20% nesta quarta-feira (4), em Copenhague, depois de a farmacêutica indicar que 2026 deve marcar um ponto de inflexão no negócio que a transformou no símbolo global da nova geração de medicamentos contra obesidade.
A empresa informou que espera que vendas e lucro operacional ajustados caiam entre 5% e 13%, uma reversão num negócio que vinha se apoiando em volume, preço alto e expansão acelerada.
O choque foi duplo porque veio acompanhado de uma mensagem incômoda para investidores: o motor do crescimento continua existindo, mas a captura de valor passou a ser o campo de batalha.
Em call com jornalistas sobre os resultados, o CEO Mike Doustdar descreveu 2026 como um ano de “pressão de preços sem precedentes”, defendendo que o impacto financeiro seria “doloroso”, mas um investimento para o futuro.
Pelos cálculos compilados pela própria companhia, analistas projetavam, em média, uma queda de apenas 2% — não um recuo potencial de dois dígitos. O guidance muito acima do esperado fez o mercado responder com força: a queda do papel na Europa chegou a apagar mais de 40 bilhões de euros em valor de mercado em um único pregão.
Em um ano, as ações caem mais de 39%. A empresa saiu de um valor de mercado de mais de US$ 600 bilhões em 2024 (quando chegou a ser a companhia listada mais valiosa da Europa) para cerca de US$ 215 bilhões agora, com o mergulho das ações.
Mercado americano virou um problema e competição aumentou
Os problemas da companhia, segundo analistas, são mais pacientes pagando do próprio bolso e exigências maiores de descontos por parte de seguradoras de saúde. O CFO afirmou que as vendas nos EUA podem cair “na casa dos dois dígitos baixos”, sugerindo um impacto ainda mais pesado do que o guidance consolidado.
É por isso que os cortes de preço deixaram de ser uma tática pontual e viraram uma estratégia defensiva. A empresa passou a vender doses menores do seu comprimido diário por US$ 149/mês (subindo para US$ 199 em abril) e reduziu o preço da versão injetável do Wegovy para US$ 349/mês para consumidores sem seguro, entre outras iniciativas.
Além disso, em novembro, o governo Donald Trump anunciou descontos relevantes para Ozempic e Wegovy vendidos ao Medicare — preços que só passam a valer em 2027.
Essa linha do tempo importa porque ajuda a explicar o paradoxo: a compressão de preços já começou por dinâmica competitiva e negociação com pagadores, enquanto o grande “marco regulatório” (o preço do Medicare) está logo adiante. O mercado, olhando o filme inteiro, já passou a precificar as ações.
Do lado competitivo, o recado também ficou mais explícito. A Novo Nordisk admite que há “muito mais companhias” tentando entrar no mercado e que não pode prometer o retorno aos “crescimentos extraordinários” recentes. Recentemente foi a Pfizer que anunciou entrada.
E há duas frentes que mudam o comportamento do consumidor: a disputa direta com a Eli Lilly, com seu portfólio de obesidade ganhando espaço em prescrição e acesso; e a proliferação de versões manipuladas (“compounded”) de GLP-1. Segundo a Reuters, há até 1,5 milhão de americanos usando versões não aprovadas em vez dos produtos de marca.
O comprimido do Wegovy é a principal tentativa de virar o jogo. Se o guidance puxou o freio, o comprimido do Wegovy aparece como a aposta para ampliar o funil - especialmente entre consumidores que pagam do próprio bolso e buscam conveniência.
As prescrições semanais do oral chegaram a cerca de 50 mil até 23 de janeiro, bem acima de trackers que não capturam canais como telehealth e o próprio canal de cash pay da empresa.
Além disso, mais de 170 mil pacientes já começaram no comprimido desde o lançamento, descrito pelo CFO como “o lançamento mais forte que este mercado já viu”. E um ponto crucial para afastar o temor de canibalização: mais de 80% seriam novos em GLP-1, com “troca muito limitada” a partir de outros compostos, ao menos nos dados iniciais.
Para investidores, esse detalhe é mais do que curiosidade: ele sugere que a Novo Nordisk pode tentar recompor crescimento por expansão de mercado (novos pacientes) — mesmo que precise aceitar menor preço por paciente no curto prazo.
Mesmo com o “choque” do guidance, a Novo Nordisk anunciou um novo programa de recompra de ações de até 15 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de US$ 2,4 bilhões), numa tentativa de sinalizar disciplina e confiança enquanto o mercado recalibra o valuation.