O Banco da Amazônia, instituição financeira controlada pelo governo federal, tem um plano bem definido traçado para 2026: fazer com que sua receita seja mais diversificada, sem depender quase que totalmente da carteira de crédito.

O objetivo é que, em até dois anos, o segmento passe dos atuais 85% para algo em torno de 55%. Os demais 45% devem ser ocupados por seguros, capitalização, adquirência e cartões de crédito. Tudo isso sem diminuir o volume do setor core e sim ampliando o bolo do faturamento.

Para isso, a companhia decidiu olhar para sua própria base, de cerca de 1,2 milhão de clientes, para passar a oferecer os demais serviços, especialmente seguros. Neste caso, o objetivo não é mergulhar no “mar aberto”, para não concorrer diretamente com os principais bancos do País.

“A gente vem fazendo uma reestruturação, nos últimos dois anos, para o banco poder atuar em todas as possibilidades de negócios. Nesse período, também estamos crescendo na política de fomento, no banco comercial e no avanço do digital”, diz Luiz Lessa, CEO do Banco da Amazônia, em entrevista ao NeoFeed.

“Em 2023, 95% da receita do banco vinha do crédito. Isso não é bom e carrega um nível de risco muito alto para dentro do resultado. O que a gente fez foi justamente criar, desde o ano passado, essas novas avenidas de crescimento com mais produtos”, completa.

Na avaliação de Lessa, somente a área de seguros tem potencial de crescimento significativo, para representar pelo menos 20% do resultado, justamente pelas avenidas de oportunidades com seus próprios clientes. No caso do Bradesco, por exemplo, a faixa de seguros representa 41% do lucro líquido total do grupo. No caso do banco amazônico, ele hoje representa 5%.

As opções, que começaram a ser oferecidas recentemente aos correntistas, são os seguros de vida, empresarial (para proteger patrimônio), para os funcionários, para prestamistas, para garantia de pagamento dos créditos.

“A gente só tinha essa opção, e ainda assim não era bem explorado. Nosso plano, então, parte da nossa base. Vamos crescer a partir dos nossos clientes. Queremos conquistar os empreendedores, seus funcionários, seus fornecedores e seus clientes”, afirma Lessa.

Neste sentido, o CEO do Banco da Amazônia tem consciência de que competir com os bancos líderes de mercado não é a melhor opção, já que ainda há um grande caminho para percorrer dentro de um universo que, na visão dele, não foi ainda explorado.

“Não vou para o mar aberto disputar com os grandes bancos de varejo, porque não somos deste tamanho. Somos uma instituição média. Por isso queremos um custo de aquisição de cliente que seja adequado às nossas características”, diz o executivo.

“Hoje eu financio equipamentos, com minha linha de crédito, por exemplo, mas não ofereço seguro para este cliente que veio buscar este recurso. É isso que vamos mudar a partir de agora”, completa.

Na linha de diversificação de serviços, o Banco da Amazônia quer crescer também de forma geográfica por meio da tecnologia. Hoje, a empresa tem 124 agências nos nove estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão).

Braço digital em curso

No fim do primeiro semestre, o banco lança seu braço digital, com um superapp responsável, inclusive, pela abertura de contas, o que antes só era possível uma agência física. A estimativa é de ganhar um milhão de novos clientes nos primeiros 12 meses a partir do início da operação. Na prática, quer quase dobrar o volume de novos correntistas e usuários dos serviços financeiros.

“Este novo canal vai complementar a ação de ampliação de novos produtos e serviços e, com isso, atrair mais clientes. Queremos embarcar várias plataformas neste aplicativo e fazer com que a gente vire um banco mais nacional”, explica Lessa.

E, diferentemente da implementação da carteira de seguros, quando o banco não pretende brigar com os maiores do Brasil, no caso do aplicativo ele reconhece que a intenção, aí sim, é entrar na avenida que já tem bancos digitais consolidados.

“O mercado é grande demais. Neste caso é mar aberto, e eu quero conquistar um espaço. Há oportunidades, nesta área digital, para muitas instituições. A tecnologia é algo importante para nosso crescimento”, afirma Lessa.

Segundo o CEO, a empresa realizou um volume de investimentos de cerca de R$ 800 milhões para colocar de pé esta transformação digital, no último ano.

“Quem é de São Paulo ou do Chuí, não consegue abrir conta sem vir para um estado onde a gente atua. Agora, a gente vai poder vender cartão de crédito ou abrir conta corrente para quem está em qualquer lugar do Brasil”, explica.

Mesmo com o plano estabelecido de ampliação de produtos e serviços, o Banco da Amazônia terminou 2025 com queda de 2,4% no lucro líquido sobre o ano anterior, com R$ 1,1 bilhão. Segundo o CEO, esta ligeira redução está diretamente ligada ao aumento da inadimplência, que chegou a 4,7%.

“Isto tem relação direta com a mudança na legislação que trata do provisionamento de crédito e de perda. A gente precisou mudar o limite e aumentar esta conta. E isso afetou nosso lucro”, afirma Lessa.

Segundo ele, o banco registrou aumento de despesas, mas relacionado com mais investimentos justamente na transformação digital. “É uma despesa que, lá na frente, vai gerar receita e diminuir custo”, explica.

De qualquer forma, mesmo com as novas avenidas em curso, a tendência do banco é que a divisão de crédito siga crescendo. Em 2025, o banco alcançou volume de R$ 66,8 bilhões em crédito, um aumento de 20,4% sobre o resultado do ano anterior. A maior alta foi na carteira comercial, que ultrapassou 37% de alta, chegando a R$ 3,5 bilhões.

A maior parte deste volume vem de pessoas jurídicas (PJs) e de companhias oriundas da Região Norte, área em que o banco atua. E, nesta linha, a aposta está em avançar no serviço para pequenas e médias empresas.

“A ideia agora é aprimorar o olhar na liberação de crédito, acompanhando a jornada deste cliente antes que ele possa se tornar inadimplente. Vamos olhar se o cliente que pegou recursos para sua plantação e com carência de um ano, por exemplo, está avançando em sua etapa de produção”, explica.

O patrimônio líquido do banco cresceu 9,7%, e fechou 2025 com R$ 7,2 bilhões. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) chegou a 16,2%.

Na política de fomento, o Banco da Amazônia também registrou crescimento. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) registrou crescimento de 100% em 2025, com 2,7 bilhões em contratações. O microcrédito produto avançou 142%.

Em 2026, as ações do Banco da Amazônia na B3 acumulam valorização de 9,65%. O banco tem valor de mercado de R$ 4,8 bilhões.