A Agis Construtora resolveu um problema de mobilidade urbana de mais de uma década em São Paulo: o fim da obra da Linha 17-Ouro, que faz conexão com o aeroporto de Congonhas. O primeiro prazo da obra era para a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil.
A construtora, que pertence ao empresário Eduardo Capobianco, de uma família com tradição no setor de construção civil, assumiu a construção da Linha 17-Ouro em agosto de 2023, para retomar a obra, que estava parada. A promessa do governo do Estado de São Paulo, à época, era justamente atender os turistas que viriam assistir aos jogos da competição no país. E só saiu quase três copas depois.
E agora, depois de concluir a linha do metrô com quase sete quilômetros e sete estações, do terminal Morumbi até o aeroporto, a Agis deu início ao próximo desafio: a primeira fase do Trem Intercidades, entre Jundiaí e Campinas.
A empresa será responsável pelo trecho inicial de cerca de 50 quilômetros. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) participou, na quarta-feira, 8 de abril, do ato que marcou o início das obras.
A Agis foi contratada pelo consórcio TIC Trens, formado pelo grupo Comporte e pela chinesa CRRC, que venceu a licitação em fevereiro de 2024, em pregão realizado na B3. O projeto total, que prevê ligar São Paulo a Campinas, terá investimento de R$ 14,2 bilhões e previsão de início das operações em 2031.
Nesta fase, a Agis vai executar obras de terraplanagem e das obras de arte físicas (pontes e viadutos). O prazo de entrega da etapa sob responsabilidade da construtora é de 21 meses. O valor não foi revelado.
“Como o grupo Comporte não executa obras, ele vai ao mercado e contrata empresas com capacidade para executar estas atividades”, diz José Lima, presidente da Agis Construtora, em entrevista ao NeoFeed.
A partir deste serviço entregue, a concessionária fará novas contratações para seguir com a obra de execução da via permanente, próxima à linha férrea que já existia no trajeto. E a Agis também pretende participar das novas concorrências.
O projeto do Trem Intercidades vai contribuir para que a companhia alcance o faturamento de R$ 2 bilhões em 2026, que deve representar uma alta de 67% sobre a receita de 2025, que foi de R$ 1,2 bilhão.

Na fatia da empresa, pelo menos 40% da receita vem dos contratos públicos. Os 60% restantes são de contratos com empresas, incluindo o modelo como o do Trem Intercidades, que, apesar de ser uma obra pública, a contratação é feita por uma companhia privada.
Ainda que os contratos com o poder público tenham cláusulas que garantam a correção monetária, é desafiador, segundo o presidente da Agis, prever o impacto de um cenário de taxa de juros, em que boa parte do ano passado foi necessário lidar com uma Selic a 15% ao ano.
“Isso não é fácil. Operar com uma taxa de 15% é maior do que a margem do próprio contrato. Da mesma forma que há rigor na parte de engenharia técnica, também fomos criteriosos na questão financeira. Os impactos de uma obra deste tamanho são grandes, porque precisamos pagar antes”, afirma Lima.
No evento de inauguração da Linha 17-Ouro, no dia 31 de março, Tarcísio também anunciou os estudos para expansão do monotrilho, com mais 4,6 quilômetros e outras quatro estações, incluindo uma na comunidade Paraisópolis. Ainda não há prazo. A Agis também deve participar desta nova concorrência.
O 'segundo 7 a 1' do Brasil
Na prática, a Copa no Brasil deixou dois momentos vergonhosos: a goleada de 7 a 1 para a Alemanha e o descumprimento do prazo de entrega da Linha 17-Ouro, que fazia parte de um grande plano logístico desenhado como uma vitrine mundial e como legado da competição.
“Como cidadão, era frustrante ver aquela obra inacabada na Avenida Roberto Marinho e perto de Congonhas. Mas como executivo, foi uma grande oportunidade para a gente cumprir este desafio e entregar este projeto para a sociedade”, diz Lima.
Quando a empresa assumiu, pelo menos 40% da obra ainda estava para ser concluída. Mas, na prática, não havia nada pronto. Era um esqueleto a céu aberto, em um dos corredores viários mais importantes da cidade de São Paulo, cruzando o Brooklin e o entorno da Avenida Luís Carlos Berrini.
“Assumir uma obra de mobilidade remanescente é muito mais difícil. Tudo tinha sido começado e nada terminado. Nenhuma via, nenhuma estação, nada. A gente mexeu em tudo para conseguir entregar a tempo”, afirma Lima.
Outra questão foi garantir o menor impacto possível no trânsito de São Paulo, a partir do andamento da obra para a fase final, principalmente das vigas de concreto, algumas com mais de 100 toneladas, instaladas a uma altura de cerca de 15 metros, onde ficam as estações.
“A interferência com o tráfego tinha de ser a menor possível. Chegamos a fechar a Marginal Pinheiros em uma sexta-feira à noite, para instalar uma viga curva. E tivemos que liberar até domingo. A responsabilidade era enorme”, lembra o executivo.
Segundo Lima, um dos principais desafios da conclusão do monotrilho foi atender a todas as especificações técnicas para o “encaixe” correto dos trens fornecidos pela montadora chinesa BYD, na primeira incursão da fabricante de carros elétricos neste modelo de monotrilhos no Brasil.
“Foi uma engenharia integrada com o proprietário do material rodante. A tolerância era mínima. Chegava a três milímetros no máximo. Fizemos reuniões semanais para adequar tudo que era necessário. Funcionou bem”, explica.
Essa não foi a primeira obra inacabada - e que demorou mais de uma década para para ficar pronta - que a Agis assumiu. A empresa também participou da construção da transposição do Rio São Francisco, no Nordeste.
“As duas carregam semelhança pelo simbolismo e importância dessas obras para suas regiões. Também tinha essa característica de ser remanescente. A gente concluiu em 2022 a passagem de água para o Ceará. Foi um grande desafio também”, lembra Lima.
Ainda que entregue e já em operação, sob gestão inicial do Metrô de São Paulo, a Agis ainda irá concluir a última estação desta fase da Linha 17, a Washington Luís. Segundo o presidente, a parte física restante será entregue em até 90 dias. Também será concluído o pátio Água Espraiada. Até setembro, o acesso às estações será gratuito.
A perspectiva é que a ViaMobilidade, da Motiva Trilhos (ex-CCR), que venceu a concessão, assuma a operação do monotrilho a partir do segundo semestre deste ano. Nesta fase inicial, a linha opera das 10h às 15, de segunda-feira a sexta-feira.
Segundo o Metrô, o tempo médio de espera varia entre sete e 14 minutos, no formato de Shuttle, em que cada composição vai e volta na mesma linha. Quando entrar em operação plena, a perspectiva é que a linha transporte 100 mil passageiros por dia.