O anúncio de que a Alliança Saúde passou a ser controlada pela Geribá Investimentos marcou a mais nova etapa do “saldão” do portfólio de empresas construído ao longo de vários anos por Nelson Tanure, que vem sendo desmontado às pressas para cumprir obrigações com credores.
Composto por empresas de diferentes ramos da economia – de petróleo a telecomunicações e energia –, o portfólio ajudou o empresário a se alavancar e fechar novos negócios, utilizando a participação nessas companhias como garantias em empréstimos.
O escândalo do Banco Master e o escrutínio sobre seus laços com a instituição – ainda que Tanure sempre tenha negado relação societária – somados à recuperação judicial da Ambipar, em que também investia, resultaram em crise de crédito e forçaram a venda de participações.
É o caso da Alliança, cujo controle Tanure assumiu em abril de 2022, quando ainda se chamava Alliar. Ele ofereceu sua participação como garantia para obter empréstimo destinado à compra da Ligga Telecom (antiga Copel Telecom), adquirida em 2020.
Em fevereiro, credores tomaram ações da Alliança e da Light, também vinculadas às garantias, diante da deterioração financeira. Os papéis da Alliança foram transferidos à Geribá, gestora especializada em special situations, que assumiu 59,8% do capital social.
A própria Ligga entrou nas negociações, fechando acordo para vender operações de internet por fibra à Brasil TecPar por R$ 495 milhões. Tanure também deu ações da companhia em alienação fiduciária, mas os credores não executaram para não atrapalhar as tratativas.
As dificuldades levaram Tanure a se desfazer da “joia da coroa” de seu portfólio, a Prio. Em janeiro, a Bloomberg informou que ele abriu mão de quase toda sua participação de 20% na antiga PetroRio para pagar credores.
Sua entrada na Prio ocorreu em 2013, ao comprar participação na então HRT, em crise, ajudando a reerguer a empresa, hoje avaliada em R$ 50,3 bilhões.
Entre as perdas mais ruidosas está a Emae. Tanure acionou a Justiça contra a decisão da XP de executar garantias e vender ações da companhia, adquiridas em 2024 do governo paulista e vendidas à Sabesp. Segundo o site Pipeline, o caso foi encerrado em fevereiro após acordo.
Resta saber se as vendas bastarão para quitar dívidas. No caso da Ligga, o valor pago pela Geribá pelas ações da Alliança não será suficiente, segundo o Pipeline. A expectativa é de que credores executem ações da Light.
“O mercado não sabe o tamanho da dívida que ele [Tanure] carrega. O credor vai liquidando os ativos, mas não sabemos se isso vai respingar no balanço de algum banco ou no crédito de alguma empresa”, disse um analista sob anonimato.
A situação também afeta companhias em que Tanure ainda tem presença relevante, como a Gafisa. “O mercado vê a situação como tóxica, não quer se aproximar”, diz o analista. “Mesmo que Tanure negue ser sócio do Master, ambos eram sócios em companhias.”
Enrico Cozzolino, estrategista da Zermatt Partners, avalia que há aumento do prêmio de risco de governança em empresas ligadas a Tanure.
Ele ressalta, porém, que a saída do empresário abre espaço para entrada de capital institucional, com foco em retorno financeiro e governança mais clara. “Em casos em que o problema é mais o acionista do que o negócio, a saída ou enfraquecimento dele pode ser positiva”, afirma Cozzolino.
Procurado pelo NeoFeed, Tanure informou por sua assessoria que não comentaria as vendas ou a relação com credores, mas enviou nota destacando que jamais teve relação societária com o Banco Master.
Na nota, afirmou que “foi cliente nos últimos anos nas mesmas condições em que foi e segue sendo atendido por outras instituições financeiras conhecidas” e que “jamais promoveu qualquer operação de investimento em veículos que pudessem converter dívida em participação, ainda que indiretamente, no Banco Master”.